Lembremo-nos de que o Senhor Jesus não tinha necessidade nenhuma de levar a cruz e de sofrer tribulações, exceto para atestar e comprovar sua obediência a Deus, seu Pai. Mas por muitas razões nos é necessário sofrer perpétua aflição nesta vida.

Primeiro, como somos por demais inclinados por natureza a nos exaltar e atribuir tudo a nós mesmos, se a nossa fraqueza não for demonstrada de maneira patente, depressa avaliaremos exageradamente o nosso poder e virtude e não duvidaremos de que vamos permanecer invencíveis frente a todas as dificuldades que se nos anteponham. Daí sucede que nos elevamos firmados numa vã e estulta confiança na carne, o que a seguir nos incita a orgulhar-nos contra Deus, como se a nossa capacidade fosse suficiente para nós, sem a sua graça.

Não há melhor meio pelo qual ele põe abaixo a nossa arrogância do que mostrar-nos experimentalmente como somos fracos e frágeis. Por isso ele nos aflige, quer nos ocasionando afrontas vergonhosas, quer pela pobreza, ou doença, ou perda de parentes, quer por outras calamidades, de tal modo que logo sucumbimos, visto que não temos forças para resistir. Então, humilhados e agora humildes, aprendemos a implorar seu poder, a única força que nos habilita a subsistir e a manter-nos firmes sob o peso desses tão pesados fardos.
Até os mais santos, embora reconheçam que a sua firmeza se funda na graça do Senhor e não em seu próprio poder, ainda assim tenderiam a confiar demais em sua força e em sua constância, se o Senhor não os conduzisse a um conhecimento mais correto sobre si mesmos, provando-os pela cruz. E, no caso de se jactarem, concebendo a seu próprio respeito uma opinião de firmeza e perseverança quando tudo lhes vai bem, depois de passarem por alguma tribulação reconhecem que aquilo não passava de hipocrisia.
Temos aí, pois, a maneira pela qual os santos são advertidos de sua fraqueza por tais provações, para que aprendam a humilhar-se e a despojar-se de toda perversa confiança na carne e se rendam totalmente à graça de Deus. Então, havendo-se rendido, sentem a presença do poder de Deus, no qual encontram satisfatório refúgio e fortaleza.

Autor: João Calvino
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã
Reforma Radical

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