A ignorância sobre Deus – J. I. Packer

Tenho a convicção de que a ignorância sobre Deus — ignorância tanto de seus recursos como da prática da comunhão com ele — tem relação direta com a fraqueza da igreja moderna. Duas tendências infelizes parecem ter produzido este estado de coisas.

A primeira tendência é que a mentalidade cristã adaptou-se ao espírito moderno, ou seja, o que gera grandes ideias humanas e deixa espaço apenas para pequenos pensamentos sobre Deus. A atitude atual em relação a Deus é deixá-lo à distância, quando não o nega completamente. A ironia disto é que os cristãos modernos, preocupados em manter as práticas religiosas em um mundo sem religião, têm, eles mesmos, permitido que Deus se torne distante.

Pessoas com uma visão mais clara das coisas, percebendo esta situação, são tentadas a se afastar da igreja, um tanto desgostosas, para buscar a Deus por si mesmas. Ninguém poderá culpá-las totalmente, pois os cristãos que buscam a Deus usando, por assim dizer, o lado errado do telescópio, reduzindo-o à proporção de um pigmeu, não podem esperar concluir seus dias senão como cristãos pigmeus. As mais esclarecidas querem naturalmente alguma coisa melhor. Além disso, pensamentos sobre a morte, a eternidade, o juízo, a grandeza da alma e as conseqüências duradouras das decisões temporais são “ultrapassados” para os modernistas. O triste é que a Igreja cristã, em lugar de levantar a voz para lembrar ao mundo o que está sendo esquecido, adquiriu o hábito de também menosprezar esses temas. Estas capitulações ao espírito moderno são realmente suicidas quando se referem à vida cristã.

A segunda tendência é que a mentalidade cristã vem sendo confundida pelo ceticismo moderno. Por mais de três séculos o fermento naturalista da perspectiva renascentista tem agido como um câncer no pensamento ocidental. Os arminianos e os deístas do século XVII, assim como os socinianos no século XVI, negavam, em oposição à teologia da Reforma,que o controle de Deus sobre o mundo fosse direto ou total. Desde então, a teologia, a filosofia e a ciência têm em grande parte se unido para sustentar essa negativa. Como conseqüência, a Bíblia está sob fogo cerrado, assim como muitos outros marcos do cristianismo histórico. Os fatos fundamentais da fé são questionados. Deus se encontrou com Israel no Sinai? Jesus foi mais que um homem muito espiritual? Os milagres dos Evangelhos realmente aconteceram? O Jesus dos Evangelhos não será, em grande parte, uma figura imaginária? — e assim por diante.

E isso não é tudo. O ceticismo a respeito da revelação divina e dos fundamentos cristãos deu margem ao questionamento mais amplo que abandona toda idéia da unicidade da verdade, e com isso qualquer esperança de unificar o conhecimento humano. Assim, é comumente aceito que minhas percepções religiosas não mantêm relação com meu conhecimento científico das coisas externas, porque Deus não está “lá fora” no mundo, mas apenas “aqui dentro” na psique. A incerteza e a confusão a respeito de Deus, características de nossos dias, são piores que qualquer ataque desde a tentativa da teosofia gnóstica de absorver o cristianismo no século II.

É comum dizer-se hoje em dia que a teologia está mais forte que nunca, e em termos de especificação acadêmica, ou na qualidade e quantidade de livros publicados, isto talvez seja verdade. No entanto, faz muito tempo que a teologia não se apresenta tão fraca e inábil na tarefa básica de manter a Igreja dentro das realidades do Evangelho. Há noventa anos Charles Haddon Spurgeon descreveu como “declínio” as vacilações observadas então entre os batistas a respeito das Escrituras, da expiação e do destino humano. Se ele pudesse avaliar o pensamento protestante a respeito de Deus nos tempos atuais, creio que falaria em “afundamento”!

“Ponham-se na encruzilhada e olhem; perguntem pelos caminhos antigos, perguntem pelo bom caminho. Sigam-no e acharão descanso” (Jr 6:16).


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Fonte: Prefácio do livro ”O Conhecimento de Deus” de J.I. Packer
Reforma Radical

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