Racionalidade - John MacArthur
Não vos escrevi porque não saibas a verdade; antes, porque a sabeis, e porque mentira alguma jamais procede da verdade (Jo 2.21).

Uma segunda palavra-chave que ajuda a definir uma cosmovisão autenticamente cristã é a racionalidade. Nós acreditamos que a revelação objetiva das Escrituras é racional. A Bíblia faz sentido perfeitamente. Ela não contém contradições, nem erros nem princípios mal fundamentados. Qualquer coisa que contradiga as Escrituras é falso.

Esse tipo de racionalidade é oposto a todo o conteúdo do pensamento pós-moderno. As pessoas da atualidade são ensinadas a glorificar a contradição, a abraçar o que é absurdo, a preferir o que é subjetivo e a permitir que os sentimentos (em vez do intelecto) determinem o que eles crêem. Elas são ensinadas a não rejeitar idéias apenas porque contradizem o que nós aceitamos ser verdadeiro. E elas são até mesmo encorajadas a abraçar conceitos contraditórios e mostrar-lhes o mesmo respeito como se fossem verdadeiros. Tal irracionalidade não é nada menos do que rejeitar o conceito da verdade.
Como cristão nós sabemos que Deus não pode mentir (Tt 1.2). Ele não “pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.13); e portanto, ele não se contradiz. Ele não é Deus de confusão (1Co 14.33). Sua verdade é perfeitamente coerente.

Isso significa, primeiro de tudo, que a Palavra de Deus é um registro preciso e incontestável da verdade. A Bíblia não é cheia de absurdos, contradições ou fantasias. Ela é perfeitamente consistente com tudo o que é verdadeiro. Os fatos colocados pelas Escrituras são fidedignos. Os eventos históricos descritos na Bíblia são história verdadeira, não alegorias míticas ou exóticas. A doutrina ensinada nela é sem erro. Os detalhes das Escrituras são preciosos, desde o dia da Criação até o dia final da consumação, da volta de Cristo. As Escrituras em si são completamente livres de todos os erros e deficiências.

“... é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da Lei” (Lc 16.17). É desse modo que Cristo via as Escrituras, e qualquer pessoa que adote um ponto de vista diferente não será, nesse aspecto, um seguidor genuíno de Cristo.

Mas existe uma segunda, igualmente importante, implicação de nossa confiança na veracidade absoluta de Deus: Visto que sua Palavra é verdade objetiva e perfeitamente fidedigna em tudo que ensina, as Escrituras deveriam ser tanto o ponto de partida como o de chegada do teste da verdade em todo nosso pensamento. Se as Escrituras são totalmente verdadeiras, então qualquer coisa que as contradiga é simplesmente falsa, mesmo se estivermos falando de crenças fundamentais sobre as quais as ideologias mais populares do mundo são baseadas.

Esse tipo de racionalidade em branco e preto é uma das principais razões do Cristianismo bíblico ser intolerável numa geração que despreza a simples ideia de verdade absoluta.

A fim de que ninguém entenda mal, nós não estamos defendendo o racionalismo – a noção de que a razão humana sozinha, independente de qualquer revelação sobrenatural, possa descobrir a verdade. Um racionalista imagina que a razão humana é tanto a fonte como o teste final de toda verdade. O fato é que o racionalismo exalta a razão humana acima das Escrituras.

Como cristãos nós nos opomos ao racionalismo, mas o Cristianismo não é de modo algum hostil a racionalidade. Nós cremos que a verdade é lógica; é coerente; é inteligível. Não apenas a verdade pode ser conhecida racionalmente; ela não pode ser conhecida de modo algum se nós abandonarmos a racionalidade.

Irracionalidade é uma agressão às Escrituras e aos intentos de Deus. Quando Deus deu a Bíblia, era para que ela fosse entendida, mas ela só pode ser entendida por aqueles que aplicam sua mente a ela racionalmente. Contrário ao que muitos podem pensar, o significado das Escrituras não é algo que nos vem através de meios místicos. Não é segredo espiritual que tem de ser descoberto por algum método enigmático ou arbitrário. Seu significado verdadeiro pode ser entendido apenas por aqueles que a abordam racionalmente e sensivelmente.

Neemias 8 descreve o reavivamento que se passou naquele tempo, motivado pela leitura pública das Escrituras. Neemias descreve a cena:
"Em chegando o sétimo mês, e estando os filhos de Israel nas suas cidades, todo o povo se ajuntou como um só homem, na praça, diante da Porta das Águas; e disseram a Esdras, o escriba, que trouxesse o Livro da Lei de Moisés, que o SENHOR tinha prescrito a Israel. Esdras, o sacerdote, trouxe a Lei perante a congregação, tanto de homens como de mulheres e de todos os que eram capazes de entender o que ouviam. Era o primeiro dia do sétimo mês. E leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres e os que podiam entender; e todo o povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei" (Ne 8.1-3).

Observe-se a ênfase na atenção do povo. A leitura era em benefício “... de todos os que eram capazes de entender o que ouviam... os que podiam entender”. O versículo 8 descreve como Esdras e os escribas fizeram a leitura: “Leram no livro, na lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia” (Ne 8.8).

A leitura não foi um exercício ritualista, como um canto ou a entoação cerimonial de alguma liturgia. Era dirigido às faculdades cognitivas das pessoas – suas mentes racionais.

O poder da Palavra de Deus reside em seu significado, não meramente no som das palavras. Não era um encantamento mágico em que seu poder pode ser liberado meramente recitando sílabas, mas o poder inerente nas Escrituras é o poder da verdade. Eu gosto de dizer que o significado das Escrituras é as Escrituras. Se você não interpretar a passagem corretamente, então você não tem a Palavra de Deus, porque apenas o significado verdadeiro é a Palavra de Deus.

Não é como se nós pudéssemos fazer as palavras significarem qualquer coisa que queiramos que elas signifiquem, de forma que, seja qual for a conotação que impusermos às palavras, elas se tornam a Palavra de Deus. Somente a interpretação verdadeira do texto é a autêntica Palavra de Deus e qualquer outra interpretação simplesmente não é o que Deus está dizendo. Lembre-se, a Palavra de Deus é a verdade objetiva revelada e, portanto, tem um significado racional. Esse significado, e esse significado apenas, é a verdade. Entendê-las corretamente é de suprema importância.

Por essa razão é que é tão importante interpretamos a Escritura cuidadosamente a fim de entendê-la corretamente. É um processo racional, não um processo místico ou estranho.

É um processo espiritual? Certamente. Eu nunca inicio meu estudo da Palavra de Deus sem orar: “Senhor, abre meu entendimento para ver a verdade”. Mas eu não fico sentado esperando que alguma coisa caia do céu; eu abro meus livros e busco o entendimento racional do texto.

Isso começa com a compreensão de que as Escrituras são internamente coerentes. Portanto, enquanto nós comparamos as Escrituras com as Escrituras, as partes mais claras explicam as partes mais difíceis. Quanto mais estudamos mais luz é lançada em nosso entendimento. É trabalho mental duro, mas é também trabalho espiritual da mesma forma.

De fato, nós somos totalmente dependentes do Espírito Santo para nos ensinar a verdade, porque “... o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14). Mas a maneira como o Espírito Santo nos dá entendimento é através de nossas mentes – empregando nossas faculdades racionais (v. 16; Ef 1.8; 4.23; 2Tm 1.7).
A teologia neo-ortodoxa, que encontrou destaque na primeira metade do século 20, causou tremenda confusão sobre a racionalidade da verdade. Os teólogos neo-ortodoxos insistiam que o Cristianismo é um sistema de crença irracional – uma religião de “paradoxo”. O que eles estavam realmente dizendo é que o Cristianismo é cheio de contradições. Paradoxo é uma designação errônea no sentido em que eles o usavam. Um verdadeiro paradoxo é um jogo de palavras, tal como “Porém, muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros” (Mt 19.30), e “Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mt 20.26). Mas quando os neo-ortodoxos usam o termo paradoxo eles estão falando de uma contradição real.  Eles consideram toda verdade como irracional, contraditória e absurda à mente lógica. No sistema deles, fé implica no abandono da lógica. É um pulo cego no abismo do irracionalismo. Eles emprestaram seu irracionalismo da filosofia existencial e fizeram dele uma marca registrada de sua teologia. Ao fazer isto, eles lançaram fundamentos para uma versão pós-moderna do Cristianismo. Mas esse não é o Cristianismo verdadeiro porque ele abandonou a racionalidade, que é essencial à verdade propriamente dita.

O problema com tal irracionalismo é que ele anula a lei da não-contradição, o fundamento essencial de todo pensamento racional. Se duas proposições contraditórias pudessem ser ambas verdadeiras ao mesmo tempo, então uma ideia que se opõe à verdade não poderia necessariamente ser considerada errada. A antítese de uma afirmação verdadeira não poderia automaticamente ser julgada falsa. Este é o mesmo tipo de pensamento que reside no coração da tolerância pós-modernista. Não é uma visão cristã da verdade. É irracionalismo.

O apóstolo Paulo escreveu, “Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino segundo a piedade, é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras, de que nascem inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas” (1Tm 6.3,4). A afirmação de Paulo assume que a verdade é racional e seja o que for que contradiga a verdade está errado. Este é o entendimento cristão correto da verdade bíblica. É a antítese do pensamento pós-modernista.

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Irracionalidade é equivalente à negação da verdade. Precisamente porque acreditamos que a Bíblia é objetivamente verdadeira, nós insistimos que ela deve ser compreendida e interpretada racionalmente.


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Fonte: Princípios para uma COSMOVISÃO bíblica, John MacArthur, Jr. 
Editora Cultura Cristã, p. 37-45.
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