João Calvino

PREDESTINAÇÃO E PRESCIÊNCIA SÃO ELEMENTOS CORRELATOS, NÃO ESTA A CAUSA DAQUELA; A PREDESTINAÇÃO EVIDENCIADA NA ELEIÇÃO DE ISRAEL, ESCOLHIDO PELO MERO BENEPLÁCITO DE DEUS. 

Ninguém que queira ser tido por homem de bem e temente a Deus se atreverá a negar simplesmente a predestinação, pela qual Deus adota a uns para a esperança da vida, a outros destina à morte eterna, porém, a envolvem em muitas cavilações, sobretudo os que fazem da presciência sua causa. E nós, com efeito, admitimos que a ambas estão em Deus, porém o que agora afirmamos é que é totalmente infundado fazer uma depender da outra. Quando atribuímos presciência a Deus, queremos dizer que ele tem sempre e perpetuamente permanente sob as vistas, de sorte que, ao seu conhecimento, nada é futuro ou pretérito; ao contrário, todas as coisas estão presentes, e de fato tão presentes que não as imagina como meras idéias – da maneira como imaginamos aquelas coisas das quais nossa mente retém a lembrança –, mas as visualiza e discerne como se estivessem verdadeiramente diante dele. E esta presciência se estende a todo o âmbito do mundo e a todas as criaturas.

Chamamos predestinação o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem determinar o que acerca de cada homem quis que acontecesse. Pois ele não quis criar a todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna; a outros, a condenação eterna. Portanto, como cada um foi criado para um ou outro desses dois destinos, assim dizemos que um foi predestinado ou para a vida, ou para a morte. Deus, porém atesta esta predestinação não só em cada pessoa, mas também deu exemplo dela em toda a descendência de Abraão, da qual fizesse manifesto que está em seu arbítrio de que natureza seja a condição futura de cada nação.

“Como o Altíssimo dividisse os povos e separasse os filhos de Adão, sua porção foi o povo de Israel, o cordel de sua herança” [Dt 32.8, 9]. A separação está ante os olhos de todos: na pessoa de Abraão, como que em um tronco seco, rejeitados os outros, somente um povo é peculiarmente eleito. A causa dessa escolha, porém, não se põe à mostra, senão que Moisés, para que aos descendentes cortasse a asa de gloriar-se, ensina que estes se sobressaem somente pelo gracioso amor de Deus. Ora, ele determina que esta é a causa de sua libertação: que “Deus amou a seus pais e escolheu sua semente após eles” [Dt 4.37]. Mais expressamente em outro capítulo: “O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos. Mas porque o Senhor vos amava ...” [Dt 7.7, 8]. Muitas vezes mais, nele se repete esta afirmação: “Eis que os céus e o céu dos céus são do Senhor teu Deus, a terra e tudo o que nela há. Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência dele, escolheu ...” [Dt 10.14, 15].

Igualmente, em outro lugar preceitua-lhes a santificação, porque foram escolhidos para ser “seu povo especial” [Dt 7.6]. E, em outro lugar, por sua vez, declara que seu amor é a causa de sua proteção [Dt 23.5]. Isto proclamam também os fiéis, a uma voz: “Escolherá para nós nossa herança, a glória de Jacó, a quem amou” [Sl 47.4]. Pois os dotes dos quais foram por Deus adornados atribuem-lhe todos ao gracioso amor, não só porque sabiam que não foram alcançados por algum mérito pessoal, mas também que nem o próprio santo patriarca teve virtude suficiente para adquirir para si e para sua posteridade tão singular prerrogativa e dignidade. E, para que mais vigorosamente esmagasse toda soberba, lança-lhes em rosto que nada dessa natureza haviam merecido, visto ser este um povo contumaz e de dura cerviz [Ex 32.9; Dt 9.6]. Também os profetas lançam com freqüência esta eleição diante dos judeus, de forma odienta e à guisa de reprimenda, visto que haviam se afastado dela vergonhosamente.

O que quer que seja, adiantem-se agora os que querem restringir a eleição divina ou à dignidade dos homens ou aos méritos das obras. Quando vêem um povo ser preferido a todos os outros e ouvem que Deus não se deixou induzir por nenhum respeito que o levasse a ser mais propenso a uns poucos e maus e indignos, aliás, até mesmo ímpios e indóceis, porventura litigarão com ele porque quis exibir tal demonstração de misericórdia? Com efeito, muito menos impedirão sua obra com suas vozes estridentes; nem atirando ao céu as pedras dos insultos haverão de ferir ou danificar a justiça; antes elas haverão de cair em suas cabeças.

Os israelitas são também lembrados deste princípio de um pacto de graça, quando se trata de dar graças a Deus, ou de confirmar-se numa esperança em relação ao tempo futuro. “Ele nos fez, e não nós mesmos”, diz o Profeta, somos seu povo e ovelhas de seu pastoreio” [Sl 100.3]. A negação que emprega não é supérflua: “e não nós mesmos”, o que se adiciona com vistas a excluir-nos, para que saibam que Deus é não só o autor de todas as coisas boas que os fazem mais excelentes, mas que também ele mesmo é a causa, porque não existia neles nada que os fizesse dignos de tão grande honra.

Com estas palavras também ordena que estejam contentes com o simples beneplácito de Deus: “Vós, semente de Abraão, seu servo; vós, filhos de Jacó, seus escolhidos” [Sl 105.6]. E depois de enumerar os benefícios contínuos de Deus como frutos da eleição, afinal conclui que ele agiu com tanta generosidade porque “se lembrou de seu pacto” [Sl 105.42]. O cântico de toda a Igreja faz ecoar esta doutrina:“Pois não conquistaram a terra por sua espada, nem seu braço os salvou, mas tua destra e teu braço, e a luz de tua face, porquanto te agradaste deles” [Sl 44.3]. Devese, porém, notar que onde se faz menção da terra, ela é o símbolo visível da separação secreta em que se contém a adoção. Davi, em outro lugar, exorta ao povo à mesma gratidão: “Bem-aventurada a nação cujo Deus é Jeová, o povo ao qual escolheu para si por herança” [Sl 33.12]. Samuel os anima à boa esperança: “Deus não vos abandonará, por amor de seu grande nome, já que lhe aprouve criar-vos para serdes seu povo” [1Sm 12.22]. Como também Davi se arma para a batalha, quando sua fé é atacada: “Bem-aventurado aquele a quem escolheste, e fazes chegar a ti, para que habite em teus átrios” [Sl 65.4].

Mas, a eleição oculta em Deus foi confirmada tanto pelo primeiro livramento, quanto pelo segundo e por outros benefícios intermédios, Isaías transfere o termo eleger ao fato de que “Deus se compadecerá de Jacó e ainda elegerá de Israel” [Is 14.1]; porquanto, delineando o tempo vindouro, o Profeta diz que o sinal da eleição estável e sólida é o ajuntamento do povo remanescente, ao qual parecera haver abdicado, ajuntamento que nesse tempo parecera haver sido frustrado. Além disso, quando se diz em outro lugar: “Eu te escolhi e não te rejeitei” [Is 41.9], o Senhor enfatiza o curso contínuo da insigne liberalidade de sua paterna benevolência. Mais
expressamente, diz o Anjo em Zacarias [2.12]: “Deus ainda escolherá a Jerusalém”, como se, castigando-a mais duramente, a houvesse rejeitado, ou como se o exílio houvesse sido a interrupção da eleição, a qual, todavia, permanece inviolável, ainda que suas evidências nem sempre se exibam tão nitidamente. 

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Fonte: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã, Livro III, Capítulo 21, Parágrafo 5. Editora Cultura Cristã.
Reforma Radical

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