A Obra da Santificação | John Flavel
A mortificação de nossas afeições e paixões pecaminosas constitui uma das duas partes da nossa santificação: estar "mortos, na verdade, para o pecado, mas vivos para Deus" (Romanos 6.11). Ela é a grande evidência de nossa união com Cristo (Romanos 6.5–9; Gálatas 5.24). É nossa segurança na hora da tentação. As corrupções que há no mundo existem por causa da concupiscência (2Pedro 1.4). Nossa aptidão para o serviço de Deus depende grandemente dela (Jo 15.2; 2Tm 2.21). Quão grande benefício, portanto, deve ser para nossas almas aquilo por meio do qual essa bendita obra é realizada nelas!
Ora, há dois meios ou instrumentos empregados nessa obra: o Espírito, que a realiza interiormente (Rm 8.13), e a Providência, que a auxilia exteriormente. O Espírito é, sem dúvida, o agente principal, de cuja operação depende o êxito dessa obra; e todas as providências do mundo jamais poderão realizá-la sem Ele. Entretanto, elas são meios secundários e subordinados que, pela bênção do Espírito sobre eles, desempenham uma parte importante nessa obra. De que maneira são tão úteis para esse fim e propósito é o que agora passarei a explicar.
O Deus infinitamente sábio ordena as dispensações da Providência em bendita subordinação à obra do Seu Espírito. Há uma doce harmonia entre ambas em suas distintas operações. Todas convergem para aquele único e bendito propósito ao qual Deus as dirigiu pelo conselho da Sua vontade (Rm 8.28; Ef 1.11). Por isso se diz que o Espírito está nas rodas da Providência e dirige seus movimentos (Ez 1.20); assim, elas se movem em perfeita concordância. Ora, sendo uma das principais partes da obra interior do Espírito destruir o pecado no povo de Deus, vejamos quão conformes a esse propósito são conduzidas e ordenadas as providências externas nos seguintes aspectos.
Há, em todos os regenerados, uma forte propensão e inclinação para o pecado, e nisso consiste uma parte principal do poder do pecado. É disso que Paulo tristemente se queixa: "Mas vejo nos meus membros outra lei, que guerreia contra a lei da minha mente e me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros" (Rm 7.23). E todo crente o experimenta diariamente para sua tristeza. Ah! Como é difícil abster-se daquilo que entristece a Deus. Deus levantou um muro ao nosso redor e nos cercou contra o pecado por meio de Suas leis; contudo, há na nossa natureza uma inclinação para transpor esse muro, e isso apesar da oposição do Espírito de Deus que habita em nós.
Agora, veja, nesse caso, a cooperação e a assistência da Providência na prevenção do pecado. Assim como o Espírito resiste interiormente a essas inclinações pecaminosas, também a Providência coloca exteriormente barreiras e obstáculos em nosso caminho para impedir e prevenir o pecado (Jó 33.17–19; Os 2.6; 2Co 12.7).
Muitas enfermidades físicas são infligidas precisamente por esse motivo: servir de peso e impedimento para evitar o pecado. Ó, suportai-as pacientemente, considerando isso.
Basílio era profundamente afligido por uma terrível dor de cabeça crônica. Orou fervorosamente para que fosse removida, e Deus a removeu. Mas, tão logo se viu livre desse peso, sentiu os movimentos desordenados da concupiscência, o que o levou a pedir novamente que sua dor de cabeça lhe fosse devolvida. Assim também poderia acontecer com muitos de nós, se fôssemos libertos dos pesos que hoje nos restringem.
Neste ponto, pode-se perguntar se é próprio de um espírito regenerado abster-se do pecado por causa da vara da aflição. Certamente ele possui motivos mais elevados e princípios mais nobres do que esses. Não seria essa a atitude de um espírito carnal e servil?
De fato, assim é quando esse é o único ou o principal freio contra o pecado; quando um homem não abomina o pecado por sua impureza intrínseca, mas apenas por suas consequências e efeitos dolorosos. Contudo, isso é muito diferente do caso dos santos sob aflições santificadas; pois, assim como possuem motivos mais elevados e princípios mais nobres, também possuem sentimentos naturais e inferiores; e estes, em seu devido lugar e medida, lhes são de grande utilidade.
Além disso, é preciso compreender que as aflições atuam sobre os corações piedosos de modo diferente daquele como atuam sobre os demais, tanto para refreá-los do pecado quanto para adverti-los contra ele. Não é tanto a dor da vara que eles sentem, mas o sinal do desagrado de Deus que os assusta e os faz tremer. "Renovas contra mim as tuas testemunhas" (Jó 10.17); e é isso o que principalmente os aflige. "SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor" (Sl 6.1). "Corrige-me, ó SENHOR, porém com medida; não na tua ira, para que não me reduzas a nada" (Jr 10.24). Certamente, esse não é um argumento baixo nem comum.
Apesar dessa dupla cerca — o mandamento de Deus e as aflições preventivas — o pecado ainda é forte demais para os melhores dos homens; suas corrupções os levam, apesar de tudo, a pecar. E, quando isso acontece, não somente o Espírito opera interiormente, mas também a Providência atua exteriormente para subjugá-los. Os caminhos do pecado tornam-se amargos para eles não apenas pelo remorso da consciência, mas também pelas varas de aflição que Deus faz cair sobre o homem exterior; e creio que é nesse duplo sentido que deve ser entendida a passagem: "Quem rompe um muro, uma serpente o morderá" (Ec 10.8). Se, como alguns interpretam, o muro é a lei de Deus, então a serpente é o remorso da consciência e os dentes afiados da aflição, que logo fará sentir aquele que pertence a Deus.
O propósito dessas providências aflitivas é purificar e limpar os crentes da contaminação na qual as tentações os lançaram. "Por isso, a iniquidade de Jacó será expiada, e este será todo o fruto: a remoção do seu pecado" (Is 27.9). No mesmo sentido está esta passagem: "Antes de ser afligido, eu andava errado; mas agora guardo a tua palavra" (Sl 119.67). Essas aflições produzem em nossas almas o mesmo efeito que a geada produz sobre as roupas estendidas para serem branqueadas: alteram-lhes a cor e as tornam mais brancas. Parece ser essa a alusão nas palavras: "Alguns dos sábios cairão para serem provados, purificados e embranquecidos" (Dn 11.35).
Aqui pode surgir outra pergunta: em que sentido se diz que as aflições purificam as iniquidades dos santos? Não seria impróprio, e até mesmo profundamente desonroso para Cristo, atribuir às aflições aquilo que pertence exclusivamente à honra do Seu sangue?
Confessamos que o sangue de Cristo é a única fonte aberta para o pecado e que nenhuma aflição, por mais numerosa, intensa ou contínua que seja, pode, por si mesma, purificar a mancha do pecado. Isso se vê claramente nos homens ímpios, que são afligidos, afligidos e novamente afligidos, e, contudo, permanecem pecadores. Da mesma forma, os tormentos do inferno, por mais extremos, universais e incessantes que sejam, jamais poderão remover a mancha de um único pecado.
Contudo, permanece verdadeiro que uma aflição santificada pode, pela eficácia e virtude do sangue de Cristo, produzir efeitos tão benditos na alma. Embora uma cruz sem Cristo jamais tenha feito bem algum a qualquer homem, milhares têm sido devedores à cruz, por haver ela operado, em virtude da morte de Cristo, para o seu bem. E este é precisamente o caso das almas de que trata este discurso.
Vemos que até os melhores corações, quando Deus lhes concede algum conforto ou gozo nesta vida, são demasiadamente propensos a aquecer em excesso suas afeições por essas bênçãos e a ocupar-se demasiadamente com esses confortos exteriores. Isso também revela o grande poder e a força da corrupção que ainda habita no povo de Deus, a qual precisa ser mortificada por um meio ou por outro.
Esse foi o caso de Ezequias, cujo coração estava excessivamente apegado aos seus tesouros, de modo que não conseguiu ocultar uma disposição vaidosa (Is 39.2). Do mesmo modo, o piedoso Davi pensou que o seu monte — isto é, o seu reino, o esplendor e a glória de sua condição presente — estava tão firmemente estabelecido que jamais seria abalado (Sl 30.7).
Quão profundamente o mesmo homem de Deus havia posto seu coração e suas afeições em seu belo filho Absalão se evidencia pela dolorosa lamentação que fez por ocasião de sua morte, estimando-o acima da própria vida, a qual valia mil vezes mais do que a dele.
Assim também Jonas: quando Deus fez crescer uma planta para protegê-lo do calor do sol, quão excessivamente se afeiçoou a ela e quão grandemente se alegrou por causa dela!
Mas permitirá Deus que as coisas permaneçam assim? Consentirá Ele que a criatura furte para si as nossas afeições e as desvie dEle? De modo nenhum. Isso é corrupção nossa, e Deus a purificará. Para esse fim, envia a Sua Providência para ferir aquelas criaturas sobre as quais nossas afeições estão postas de maneira desordenada ou excessiva; ou então transforma essas mesmas criaturas em varas, servindo-Se delas para nos ferir.
Está Ezequias demasiadamente ensoberbecido pela abundância de seus tesouros? Pois bem, justamente aqueles babilônios diante dos quais ele se vangloriou deles os levarão embora e deles farão despojo (Is 39.6).
Está Davi alimentando uma confiança exagerada na estabilidade de seu esplendor terreno? Eis quão rapidamente Deus cobre tudo com nuvens (Sl 30.7).
Está Absalão sendo amado com afeição desmedida e ocupando lugar excessivo no coração de seu bondoso pai? Então esse mesmo filho tornar-se-á o filho de sua tristeza, aquele que atentará contra a vida de seu próprio pai.
Está Jonas tão absorvido pela sua planta? Deus preparará um verme para feri-la (Jn 4.6–7).
Quantos maridos, esposas e filhos a Providência tem ferido precisamente por essa razão! Poderiam ter sido preservados por mais tempo, se tivessem sido amados de maneira mais ordenada e moderada. Assim também muitos patrimônios e muitos projetos promissores foram desfeitos; e, contudo, essa é uma dispensação misericordiosa para o nosso bem.
A força da corrupção ainda não mortificada manifesta-se em nosso orgulho e na vaidade que incha o coração quando desfrutamos de bom nome e estima entre os homens. Quando somos elogiados e honrados, quando somos admirados por algum dom ou excelência que há em nós, isso faz aflorar o orgulho do coração e revela a vaidade que nele reside. "O crisol prova a prata, e o forno, o ouro; assim o homem é provado pelo louvor que recebe" (Pv 27.21). Isto é, assim como o forno revela a escória que há no metal quando este é fundido, assim também os louvores e as recomendações revelam o orgulho que existe no coração daquele que os recebe.
Foi isso que levou um homem piedoso a dizer: "Aquele que me elogia me fere." E, o que é ainda mais admirável, essa corrupção pode ser sentida no coração até mesmo quando o último suspiro está prestes a se extinguir. Um dos teólogos alemães, quando os que o cercavam recordavam, para seu encorajamento, os muitos serviços que havia prestado a Deus, respondeu: "Afastem o fogo, pois ainda há em mim a palha do orgulho."
Para crucificar essa corrupção, a Providência retira o freio que restringe os homens ímpios e, por vezes, permite que difamem o nome dos servos de Deus, como Simei fez com Davi. Mais ainda: Deus permite que eles caiam em descrédito até mesmo entre seus amigos, como aconteceu com Paulo entre os coríntios; e tudo isso para conter a exaltação do coração diante das excelências que Deus lhes concedeu. O propósito dessas providências não é outro senão esconder o orgulho do homem.
Há ainda algo digno de especial observação: quando alguns homens piedosos têm sido chamados a desempenhar uma obra pública e eminente, e nela, talvez, tenham buscado em excesso o próprio aplauso, Deus lhes tem retirado, justamente nessas ocasiões, a assistência que habitualmente lhes concedia, permitindo que vacilassem em sua tarefa, de modo que terminassem cobertos de vergonha e humilhação, embora em outras ocasiões tivessem demonstrado grande prontidão e capacidade. Seria fácil apresentar diversos exemplos notáveis para confirmar essa observação, mas prossigamos.
A corrupção do coração também se manifesta quando alimentamos grandes expectativas nas criaturas e imaginamos encontrar abundante felicidade e contentamento em algumas promissoras bênçãos deste mundo. Foi esse o caso do santo Jó nos dias de sua prosperidade: "Então eu dizia: morrerei no meu ninho e multiplicarei os meus dias como a areia" (Jó 29.18). Contudo, quão depressa todas essas expectativas foram desfeitas por uma sombria providência, que o envolveu em trevas ao meio-dia de sua prosperidade. E tudo isso redundou em seu bem, para desprender ainda mais o seu coração das expectativas depositadas nas criaturas.
Frequentemente vemos até os melhores homens fazerem cálculos excessivamente otimistas acerca das coisas deste mundo e depositarem nelas uma confiança maior do que convém. Aqueles que possuem grandes e bem fundamentadas expectativas quanto ao céu podem, ao mesmo tempo, alimentar expectativas exageradas e infundadas quanto à terra. Mas, quando isso acontece, é muito comum que a Providência mine suas esperanças terrenas e os convença, pela experiência, de quão vãs elas são.
Assim ocorreu em Ageu 1.9. O coração do povo estava intensamente voltado para providências prósperas, colheitas abundantes e grande prosperidade; entretanto, nenhuma consideração era dada ao culto de Deus e às coisas da Sua casa. Por isso, a Providência frustrou suas esperanças e reduziu seus esforços a quase nada.
A corrupção também se revela na dependência dos confortos proporcionados pelas criaturas e dos apoios visíveis. Ah! Quão propensos são até os melhores homens a apoiar-se nessas coisas e nelas buscar segurança! Assim fez Israel ao apoiar-se no Egito, como um homem fraco se apoia em seu cajado; mas Deus permitiu que esse apoio lhes faltasse e ainda os ferisse (Ez 29.6–7).
O mesmo acontece com cada um de nós. Quão facilmente confiamos em nossos apoios terrenos! Apegamo-nos aos nossos familiares, e os pensamentos mais íntimos do nosso coração são de que eles serão para nós fontes permanentes de consolo ao longo da vida. Mas Deus, por Sua Providência, nos mostrará o nosso engano e o erro dessa confiança.
Assim, um marido é levado pela morte para atrair a alma de sua esposa a uma dependência mais íntima de Deus (1Tm 5.5). Quanto aos filhos, somos propensos a dizer deste ou daquele, como Lameque disse de Noé: "Este nos consolará" (Gn 5.29). Mas o vento passa sobre essas flores, e elas murcham, para nos ensinar que nossa felicidade não está ligada a essas bênçãos.
O mesmo sucede com nossos bens. Quando o mundo nos sorri e conseguimos construir um ninho confortável, como profetizamos descanso e paz a partir dessas conquistas! Pensamos, como o bom Baruque, em grandes coisas para nós mesmos. Porém, por meio de uma calamidade particular ou geral, a Providência derruba nossos projetos (Jr 45.4–5), e tudo isso para desviar nosso coração da criatura e conduzi-lo a Deus, que é o nosso único descanso.
A corrupção manifesta sua força nos homens piedosos por meio do apego às coisas desta vida e da relutância em partir deste mundo. Isso frequentemente procede dos prazeres e das experiências agradáveis que aqui desfrutamos. A Providência mortifica essa inclinação nos santos fazendo morrer antecipadamente esses confortos que tanto os prendem, permitindo que todas, ou quase todas, as nossas alegrias pereçam antes de nós. Ou então amarga este mundo para nós, por meio de suas tribulações, tornando a vida menos desejável pelas dores e enfermidades que sentimos no corpo, afrouxando assim as raízes que nos prendem à terra, para que caiamos mais facilmente quando vier o golpe fatal da morte.
Antes de prosseguir, não posso deixar de fazer uma pausa e convidá-los a deter-se comigo em santa admiração diante do modo como Deus trata pobres vermes como nós. Certamente Deus age conosco com admirável condescendência; Sua disposição de inclinar-Se até o barro que formou é verdadeiramente assombrosa. Tudo o que direi agora sobre isso pode ser resumido em três pontos, os quais encontro condensados nas palavras do salmista:
"**SENHOR, que é o homem, para que dele tomes conhecimento? E o filho do homem, para que o estimes?**" (Sl 144.3).
Nesta passagem, contempla-se, em primeiro lugar, a imensa e transcendente grandeza de Deus, infinitamente acima de nós e de tudo quanto possamos conceber.
"**Porventura, desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até à perfeição do Todo-Poderoso? Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás fazer? Mais profunda é ela do que o abismo; que poderás saber? A sua medida é mais longa do que a terra e mais larga do que o mar**" (Jó 11.7–9).
"**Nem os céus, nem os céus dos céus o podem conter**" (2Cr 2.6).
"**Glorioso em santidade, terrível em feitos gloriosos, operador de maravilhas**" (Êx 15.11).
Quando as Escrituras falam dEle por comparação, observe como descrevem Sua grandeza:
"**Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; eis que as ilhas são como pó fino que se levanta. O Líbano não basta para o fogo, nem os seus animais bastam para um holocausto. Todas as nações são perante ele como coisa que não é; ele as considera menos do que nada, como pura vaidade**" (Is 40.15–17).
E quando os homens mais santos se aproximaram dEle, com que humildade e profunda adoração falaram a Seu respeito!
"**Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios; e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos**" (Is 6.5).
Mais ainda: considere a reverência que os próprios anjos do céu demonstram diante dessa gloriosa Majestade:
"**Cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória**" (Is 6.2–3).
Em segundo lugar, considere a baixeza, a vileza e a completa indignidade do homem — sim, até mesmo do mais santo e excelente dos homens — diante de Deus.
"**Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade**" (Sl 39.5).
"Todo homem", seja quem for; e "em seu melhor estado", ou quando se encontra no auge de seu vigor e glória, não é apenas "vaidade", mas "inteiramente vaidade"; literalmente, "todo homem é suma vaidade".
Considere os melhores homens quanto à sua origem. São, "por natureza, filhos da ira, como também os demais" (Ef 2.3). O sangue que corre em nossas veias é tão contaminado quanto o daqueles que agora estão no inferno.
Considere-os em sua constituição e disposição natural, e ela não é melhor; antes, em muitos casos, é até pior do que a dos réprobos. E, embora a graça destrone o pecado em seus corações, ah! quantas corrupções ofensivas e provocadoras da ira de Deus ainda irrompem diariamente até dos melhores corações.
Considere-os quanto à sua condição exterior, e, na maior parte das vezes, são inferiores aos demais.
"**Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos**" (Mt 11.25; cf. 1Co 1.26–28).
Agora, depois de considerar tudo isso, maravilhemo-nos de que esse Deus tão grande e tão bendito Se ocupe, como vimos em todas as Suas providências, de criaturas tão vis e desprezíveis como nós.
Ele não necessita de nós. É perfeitamente bem-aventurado e plenamente feliz em Si mesmo, sem qualquer necessidade de nossa existência. Nada podemos acrescentar à Sua perfeição.
"**Pode o homem ser útil a Deus?**" (Jó 22.2).
Não. Nem mesmo o mais santo dos homens pode acrescentar-Lhe coisa alguma. E, no entanto, veja quão elevado apreço Ele faz de nós.
Acaso Seu eterno amor eletivo não demonstra o precioso valor que nos atribuiu? (Ef 1.4–5). Quão antigo é esse amor! Quão livre! Quão admirável esse ato de graça!
É precisamente esse o propósito que todas as providências de Deus perseguem, e elas não descansarão enquanto não o tiverem plenamente realizado.
Não demonstra isso o dom de Seu Filho unigênito, que estava em Seu próprio seio? Não revela esse dom o quanto Deus estima esta criatura tão vil que é o homem? Jamais o homem foi tão exaltado. Se Davi pôde dizer: "**Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem?**" (Sl 8.3–4), quanto mais podemos nós dizer:
"Quando contemplamos Teu Filho, que repousava em Teu seio, Sua excelência infinita e Seu inefável valor aos Teus olhos, ó Senhor, que é o homem para que um Cristo tão glorioso fosse entregue à morte por ele? Por ele — e não pelos anjos caídos (Hb 2.16); por ele, quando ainda se encontrava em estado de inimizade contra Deus (Rm 5.8)."
Não demonstra também o cuidado incessante de Sua Providência por nós o apreço que Ele tem por Seu povo?
"**Para que ninguém lhe faça dano, eu a guardarei de noite e de dia**" (Is 27.3).
"**Não aparta os seus olhos do justo**" (Jó 36.7).
Nem sequer por um momento, durante todos os seus dias; pois, se assim o fizesse, mil males irromperiam sobre eles naquele mesmo instante e os destruiriam.
Não revela igualmente a ternura de Sua Providência o quanto Ele nos estima?
"**Como alguém a quem sua mãe consola, assim eu vos consolarei**" (Is 66.13).
Ele consola os Seus por meio de providências restauradoras, como uma mãe amorosa consola seu filho pequeno.
"**Como aves voando**" (Is 31.5), isto é, correndo ao ninho quando seus filhotes estão em perigo, assim Ele protege os Seus. Nenhuma ternura paternal ou maternal encontrada na criatura é capaz de representar plenamente a ternura do afeto do Criador.
Não o demonstra também a variedade dos frutos de Sua Providência? As Suas misericórdias são "**novas a cada manhã**" (cf. Sl 40.5; Lm 3.23). A Providência é uma fonte da qual fluem misericórdias espirituais e temporais, ordinárias e extraordinárias, públicas e pessoais — misericórdias sem conta.
Não o demonstra ainda o ministério dos anjos no reino da Providência?
"**Não são todos eles espíritos ministradores enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?**" (Hb 1.14).
E não o demonstra, por fim, a providência cuja memória este dia¹ nos chama a celebrar? Ah! Se não fosse assim, por que não fomos entregues "**como presa aos seus dentes**"? "**Se não fora o SENHOR, que esteve ao nosso lado**", então os homens perversos — comparados ao fogo, às águas e às feras — "**nos teriam engolido vivos**" (Sl 124).
Bendito seja Deus por essa fecunda Providência, que já concedeu à Igreja de Deus mais de setenta anos de liberdade e paz.
Quanto a essa providência, exorto-vos a fazer com ela o mesmo que os judeus fizeram com a festa de Purim (Et 9.27–28), tanto mais porque parecemos estar agora tão próximos do perigo, vindo do mesmo inimigo, quanto em qualquer tempo desde então.
Se uma misericórdia como essa for esquecida, Deus poderá dizer: "**Não vos livrarei mais**" (Jz 10.13).
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¹ O autor refere-se à comemoração anual de um livramento providencial específico vivido por sua geração, razão pela qual fala de "este dia" e menciona "mais de setenta anos de liberdade e paz". Essa referência pertence ao contexto histórico original do sermão.
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Fonte e Tradução
Título original: The Work of Sanctification
Autor: John Flavel (c. 1627–1691)
Fonte do texto: Sermão extraído da obra The Mystery of Providence, publicada originalmente no século XVII.
Tradução: Tradução para o português realizada a partir do texto original em inglês, buscando preservar com fidelidade o conteúdo, o estilo e a linguagem teológica do autor, com apenas as adaptações necessárias para proporcionar clareza e fluidez ao leitor contemporâneo, sem alteração do sentido original.
© Tradução em português: Reforma Radical.
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