13:01

Há um eminente favor que a Providência concede aos santos, o qual ainda não consideramos e, na verdade, é pouco lembrado por nós: o auxílio e a assistência que ela oferece ao povo de Deus na grande obra da mortificação.

A mortificação de nossas afeições e paixões pecaminosas constitui uma das duas partes da nossa santificação: estar "mortos, na verdade, para o pecado, mas vivos para Deus" (Romanos 6.11). Ela é a grande evidência de nossa união com Cristo (Romanos 6.5–9; Gálatas 5.24). É nossa segurança na hora da tentação. As corrupções que há no mundo existem por causa da concupiscência (2Pedro 1.4). Nossa aptidão para o serviço de Deus depende grandemente dela (Jo 15.2; 2Tm 2.21). Quão grande benefício, portanto, deve ser para nossas almas aquilo por meio do qual essa bendita obra é realizada nelas!

Ora, há dois meios ou instrumentos empregados nessa obra: o Espírito, que a realiza interiormente (Rm 8.13), e a Providência, que a auxilia exteriormente. O Espírito é, sem dúvida, o agente principal, de cuja operação depende o êxito dessa obra; e todas as providências do mundo jamais poderão realizá-la sem Ele. Entretanto, elas são meios secundários e subordinados que, pela bênção do Espírito sobre eles, desempenham uma parte importante nessa obra. De que maneira são tão úteis para esse fim e propósito é o que agora passarei a explicar.

O Deus infinitamente sábio ordena as dispensações da Providência em bendita subordinação à obra do Seu Espírito. Há uma doce harmonia entre ambas em suas distintas operações. Todas convergem para aquele único e bendito propósito ao qual Deus as dirigiu pelo conselho da Sua vontade (Rm 8.28; Ef 1.11). Por isso se diz que o Espírito está nas rodas da Providência e dirige seus movimentos (Ez 1.20); assim, elas se movem em perfeita concordância. Ora, sendo uma das principais partes da obra interior do Espírito destruir o pecado no povo de Deus, vejamos quão conformes a esse propósito são conduzidas e ordenadas as providências externas nos seguintes aspectos.

Há, em todos os regenerados, uma forte propensão e inclinação para o pecado, e nisso consiste uma parte principal do poder do pecado. É disso que Paulo tristemente se queixa: "Mas vejo nos meus membros outra lei, que guerreia contra a lei da minha mente e me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros" (Rm 7.23). E todo crente o experimenta diariamente para sua tristeza. Ah! Como é difícil abster-se daquilo que entristece a Deus. Deus levantou um muro ao nosso redor e nos cercou contra o pecado por meio de Suas leis; contudo, há na nossa natureza uma inclinação para transpor esse muro, e isso apesar da oposição do Espírito de Deus que habita em nós.

Agora, veja, nesse caso, a cooperação e a assistência da Providência na prevenção do pecado. Assim como o Espírito resiste interiormente a essas inclinações pecaminosas, também a Providência coloca exteriormente barreiras e obstáculos em nosso caminho para impedir e prevenir o pecado (Jó 33.17–19; Os 2.6; 2Co 12.7).

Muitas enfermidades físicas são infligidas precisamente por esse motivo: servir de peso e impedimento para evitar o pecado. Ó, suportai-as pacientemente, considerando isso.

Basílio era profundamente afligido por uma terrível dor de cabeça crônica. Orou fervorosamente para que fosse removida, e Deus a removeu. Mas, tão logo se viu livre desse peso, sentiu os movimentos desordenados da concupiscência, o que o levou a pedir novamente que sua dor de cabeça lhe fosse devolvida. Assim também poderia acontecer com muitos de nós, se fôssemos libertos dos pesos que hoje nos restringem.

Neste ponto, pode-se perguntar se é próprio de um espírito regenerado abster-se do pecado por causa da vara da aflição. Certamente ele possui motivos mais elevados e princípios mais nobres do que esses. Não seria essa a atitude de um espírito carnal e servil?

De fato, assim é quando esse é o único ou o principal freio contra o pecado; quando um homem não abomina o pecado por sua impureza intrínseca, mas apenas por suas consequências e efeitos dolorosos. Contudo, isso é muito diferente do caso dos santos sob aflições santificadas; pois, assim como possuem motivos mais elevados e princípios mais nobres, também possuem sentimentos naturais e inferiores; e estes, em seu devido lugar e medida, lhes são de grande utilidade.

Além disso, é preciso compreender que as aflições atuam sobre os corações piedosos de modo diferente daquele como atuam sobre os demais, tanto para refreá-los do pecado quanto para adverti-los contra ele. Não é tanto a dor da vara que eles sentem, mas o sinal do desagrado de Deus que os assusta e os faz tremer. "Renovas contra mim as tuas testemunhas" (Jó 10.17); e é isso o que principalmente os aflige. "SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor" (Sl 6.1). "Corrige-me, ó SENHOR, porém com medida; não na tua ira, para que não me reduzas a nada" (Jr 10.24). Certamente, esse não é um argumento baixo nem comum.

Apesar dessa dupla cerca — o mandamento de Deus e as aflições preventivas — o pecado ainda é forte demais para os melhores dos homens; suas corrupções os levam, apesar de tudo, a pecar. E, quando isso acontece, não somente o Espírito opera interiormente, mas também a Providência atua exteriormente para subjugá-los. Os caminhos do pecado tornam-se amargos para eles não apenas pelo remorso da consciência, mas também pelas varas de aflição que Deus faz cair sobre o homem exterior; e creio que é nesse duplo sentido que deve ser entendida a passagem: "Quem rompe um muro, uma serpente o morderá" (Ec 10.8). Se, como alguns interpretam, o muro é a lei de Deus, então a serpente é o remorso da consciência e os dentes afiados da aflição, que logo fará sentir aquele que pertence a Deus.

O propósito dessas providências aflitivas é purificar e limpar os crentes da contaminação na qual as tentações os lançaram. "Por isso, a iniquidade de Jacó será expiada, e este será todo o fruto: a remoção do seu pecado" (Is 27.9). No mesmo sentido está esta passagem: "Antes de ser afligido, eu andava errado; mas agora guardo a tua palavra" (Sl 119.67). Essas aflições produzem em nossas almas o mesmo efeito que a geada produz sobre as roupas estendidas para serem branqueadas: alteram-lhes a cor e as tornam mais brancas. Parece ser essa a alusão nas palavras: "Alguns dos sábios cairão para serem provados, purificados e embranquecidos" (Dn 11.35).

Aqui pode surgir outra pergunta: em que sentido se diz que as aflições purificam as iniquidades dos santos? Não seria impróprio, e até mesmo profundamente desonroso para Cristo, atribuir às aflições aquilo que pertence exclusivamente à honra do Seu sangue?

Confessamos que o sangue de Cristo é a única fonte aberta para o pecado e que nenhuma aflição, por mais numerosa, intensa ou contínua que seja, pode, por si mesma, purificar a mancha do pecado. Isso se vê claramente nos homens ímpios, que são afligidos, afligidos e novamente afligidos, e, contudo, permanecem pecadores. Da mesma forma, os tormentos do inferno, por mais extremos, universais e incessantes que sejam, jamais poderão remover a mancha de um único pecado.

Contudo, permanece verdadeiro que uma aflição santificada pode, pela eficácia e virtude do sangue de Cristo, produzir efeitos tão benditos na alma. Embora uma cruz sem Cristo jamais tenha feito bem algum a qualquer homem, milhares têm sido devedores à cruz, por haver ela operado, em virtude da morte de Cristo, para o seu bem. E este é precisamente o caso das almas de que trata este discurso.

Vemos que até os melhores corações, quando Deus lhes concede algum conforto ou gozo nesta vida, são demasiadamente propensos a aquecer em excesso suas afeições por essas bênçãos e a ocupar-se demasiadamente com esses confortos exteriores. Isso também revela o grande poder e a força da corrupção que ainda habita no povo de Deus, a qual precisa ser mortificada por um meio ou por outro.

Esse foi o caso de Ezequias, cujo coração estava excessivamente apegado aos seus tesouros, de modo que não conseguiu ocultar uma disposição vaidosa (Is 39.2). Do mesmo modo, o piedoso Davi pensou que o seu monte — isto é, o seu reino, o esplendor e a glória de sua condição presente — estava tão firmemente estabelecido que jamais seria abalado (Sl 30.7).

Quão profundamente o mesmo homem de Deus havia posto seu coração e suas afeições em seu belo filho Absalão se evidencia pela dolorosa lamentação que fez por ocasião de sua morte, estimando-o acima da própria vida, a qual valia mil vezes mais do que a dele.

Assim também Jonas: quando Deus fez crescer uma planta para protegê-lo do calor do sol, quão excessivamente se afeiçoou a ela e quão grandemente se alegrou por causa dela!

Mas permitirá Deus que as coisas permaneçam assim? Consentirá Ele que a criatura furte para si as nossas afeições e as desvie dEle? De modo nenhum. Isso é corrupção nossa, e Deus a purificará. Para esse fim, envia a Sua Providência para ferir aquelas criaturas sobre as quais nossas afeições estão postas de maneira desordenada ou excessiva; ou então transforma essas mesmas criaturas em varas, servindo-Se delas para nos ferir.

Está Ezequias demasiadamente ensoberbecido pela abundância de seus tesouros? Pois bem, justamente aqueles babilônios diante dos quais ele se vangloriou deles os levarão embora e deles farão despojo (Is 39.6).

Está Davi alimentando uma confiança exagerada na estabilidade de seu esplendor terreno? Eis quão rapidamente Deus cobre tudo com nuvens (Sl 30.7).

Está Absalão sendo amado com afeição desmedida e ocupando lugar excessivo no coração de seu bondoso pai? Então esse mesmo filho tornar-se-á o filho de sua tristeza, aquele que atentará contra a vida de seu próprio pai.

Está Jonas tão absorvido pela sua planta? Deus preparará um verme para feri-la (Jn 4.6–7).

Quantos maridos, esposas e filhos a Providência tem ferido precisamente por essa razão! Poderiam ter sido preservados por mais tempo, se tivessem sido amados de maneira mais ordenada e moderada. Assim também muitos patrimônios e muitos projetos promissores foram desfeitos; e, contudo, essa é uma dispensação misericordiosa para o nosso bem.

A força da corrupção ainda não mortificada manifesta-se em nosso orgulho e na vaidade que incha o coração quando desfrutamos de bom nome e estima entre os homens. Quando somos elogiados e honrados, quando somos admirados por algum dom ou excelência que há em nós, isso faz aflorar o orgulho do coração e revela a vaidade que nele reside. "O crisol prova a prata, e o forno, o ouro; assim o homem é provado pelo louvor que recebe" (Pv 27.21). Isto é, assim como o forno revela a escória que há no metal quando este é fundido, assim também os louvores e as recomendações revelam o orgulho que existe no coração daquele que os recebe.

Foi isso que levou um homem piedoso a dizer: "Aquele que me elogia me fere." E, o que é ainda mais admirável, essa corrupção pode ser sentida no coração até mesmo quando o último suspiro está prestes a se extinguir. Um dos teólogos alemães, quando os que o cercavam recordavam, para seu encorajamento, os muitos serviços que havia prestado a Deus, respondeu: "Afastem o fogo, pois ainda há em mim a palha do orgulho."

Para crucificar essa corrupção, a Providência retira o freio que restringe os homens ímpios e, por vezes, permite que difamem o nome dos servos de Deus, como Simei fez com Davi. Mais ainda: Deus permite que eles caiam em descrédito até mesmo entre seus amigos, como aconteceu com Paulo entre os coríntios; e tudo isso para conter a exaltação do coração diante das excelências que Deus lhes concedeu. O propósito dessas providências não é outro senão esconder o orgulho do homem.

Há ainda algo digno de especial observação: quando alguns homens piedosos têm sido chamados a desempenhar uma obra pública e eminente, e nela, talvez, tenham buscado em excesso o próprio aplauso, Deus lhes tem retirado, justamente nessas ocasiões, a assistência que habitualmente lhes concedia, permitindo que vacilassem em sua tarefa, de modo que terminassem cobertos de vergonha e humilhação, embora em outras ocasiões tivessem demonstrado grande prontidão e capacidade. Seria fácil apresentar diversos exemplos notáveis para confirmar essa observação, mas prossigamos.

A corrupção do coração também se manifesta quando alimentamos grandes expectativas nas criaturas e imaginamos encontrar abundante felicidade e contentamento em algumas promissoras bênçãos deste mundo. Foi esse o caso do santo Jó nos dias de sua prosperidade: "Então eu dizia: morrerei no meu ninho e multiplicarei os meus dias como a areia" (Jó 29.18). Contudo, quão depressa todas essas expectativas foram desfeitas por uma sombria providência, que o envolveu em trevas ao meio-dia de sua prosperidade. E tudo isso redundou em seu bem, para desprender ainda mais o seu coração das expectativas depositadas nas criaturas.

Frequentemente vemos até os melhores homens fazerem cálculos excessivamente otimistas acerca das coisas deste mundo e depositarem nelas uma confiança maior do que convém. Aqueles que possuem grandes e bem fundamentadas expectativas quanto ao céu podem, ao mesmo tempo, alimentar expectativas exageradas e infundadas quanto à terra. Mas, quando isso acontece, é muito comum que a Providência mine suas esperanças terrenas e os convença, pela experiência, de quão vãs elas são.

Assim ocorreu em Ageu 1.9. O coração do povo estava intensamente voltado para providências prósperas, colheitas abundantes e grande prosperidade; entretanto, nenhuma consideração era dada ao culto de Deus e às coisas da Sua casa. Por isso, a Providência frustrou suas esperanças e reduziu seus esforços a quase nada.

A corrupção também se revela na dependência dos confortos proporcionados pelas criaturas e dos apoios visíveis. Ah! Quão propensos são até os melhores homens a apoiar-se nessas coisas e nelas buscar segurança! Assim fez Israel ao apoiar-se no Egito, como um homem fraco se apoia em seu cajado; mas Deus permitiu que esse apoio lhes faltasse e ainda os ferisse (Ez 29.6–7).

O mesmo acontece com cada um de nós. Quão facilmente confiamos em nossos apoios terrenos! Apegamo-nos aos nossos familiares, e os pensamentos mais íntimos do nosso coração são de que eles serão para nós fontes permanentes de consolo ao longo da vida. Mas Deus, por Sua Providência, nos mostrará o nosso engano e o erro dessa confiança.

Assim, um marido é levado pela morte para atrair a alma de sua esposa a uma dependência mais íntima de Deus (1Tm 5.5). Quanto aos filhos, somos propensos a dizer deste ou daquele, como Lameque disse de Noé: "Este nos consolará" (Gn 5.29). Mas o vento passa sobre essas flores, e elas murcham, para nos ensinar que nossa felicidade não está ligada a essas bênçãos.

O mesmo sucede com nossos bens. Quando o mundo nos sorri e conseguimos construir um ninho confortável, como profetizamos descanso e paz a partir dessas conquistas! Pensamos, como o bom Baruque, em grandes coisas para nós mesmos. Porém, por meio de uma calamidade particular ou geral, a Providência derruba nossos projetos (Jr 45.4–5), e tudo isso para desviar nosso coração da criatura e conduzi-lo a Deus, que é o nosso único descanso.

A corrupção manifesta sua força nos homens piedosos por meio do apego às coisas desta vida e da relutância em partir deste mundo. Isso frequentemente procede dos prazeres e das experiências agradáveis que aqui desfrutamos. A Providência mortifica essa inclinação nos santos fazendo morrer antecipadamente esses confortos que tanto os prendem, permitindo que todas, ou quase todas, as nossas alegrias pereçam antes de nós. Ou então amarga este mundo para nós, por meio de suas tribulações, tornando a vida menos desejável pelas dores e enfermidades que sentimos no corpo, afrouxando assim as raízes que nos prendem à terra, para que caiamos mais facilmente quando vier o golpe fatal da morte.

Antes de prosseguir, não posso deixar de fazer uma pausa e convidá-los a deter-se comigo em santa admiração diante do modo como Deus trata pobres vermes como nós. Certamente Deus age conosco com admirável condescendência; Sua disposição de inclinar-Se até o barro que formou é verdadeiramente assombrosa. Tudo o que direi agora sobre isso pode ser resumido em três pontos, os quais encontro condensados nas palavras do salmista:

"**SENHOR, que é o homem, para que dele tomes conhecimento? E o filho do homem, para que o estimes?**" (Sl 144.3).

Nesta passagem, contempla-se, em primeiro lugar, a imensa e transcendente grandeza de Deus, infinitamente acima de nós e de tudo quanto possamos conceber.

"**Porventura, desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até à perfeição do Todo-Poderoso? Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás fazer? Mais profunda é ela do que o abismo; que poderás saber? A sua medida é mais longa do que a terra e mais larga do que o mar**" (Jó 11.7–9).

"**Nem os céus, nem os céus dos céus o podem conter**" (2Cr 2.6).

"**Glorioso em santidade, terrível em feitos gloriosos, operador de maravilhas**" (Êx 15.11).

Quando as Escrituras falam dEle por comparação, observe como descrevem Sua grandeza:

"**Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; eis que as ilhas são como pó fino que se levanta. O Líbano não basta para o fogo, nem os seus animais bastam para um holocausto. Todas as nações são perante ele como coisa que não é; ele as considera menos do que nada, como pura vaidade**" (Is 40.15–17).

E quando os homens mais santos se aproximaram dEle, com que humildade e profunda adoração falaram a Seu respeito!

"**Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios; e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos**" (Is 6.5).

Mais ainda: considere a reverência que os próprios anjos do céu demonstram diante dessa gloriosa Majestade:

"**Cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória**" (Is 6.2–3).

Em segundo lugar, considere a baixeza, a vileza e a completa indignidade do homem — sim, até mesmo do mais santo e excelente dos homens — diante de Deus.

"**Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade**" (Sl 39.5).

"Todo homem", seja quem for; e "em seu melhor estado", ou quando se encontra no auge de seu vigor e glória, não é apenas "vaidade", mas "inteiramente vaidade"; literalmente, "todo homem é suma vaidade".

Considere os melhores homens quanto à sua origem. São, "por natureza, filhos da ira, como também os demais" (Ef 2.3). O sangue que corre em nossas veias é tão contaminado quanto o daqueles que agora estão no inferno.

Considere-os em sua constituição e disposição natural, e ela não é melhor; antes, em muitos casos, é até pior do que a dos réprobos. E, embora a graça destrone o pecado em seus corações, ah! quantas corrupções ofensivas e provocadoras da ira de Deus ainda irrompem diariamente até dos melhores corações.

Considere-os quanto à sua condição exterior, e, na maior parte das vezes, são inferiores aos demais.

"**Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos**" (Mt 11.25; cf. 1Co 1.26–28).

Agora, depois de considerar tudo isso, maravilhemo-nos de que esse Deus tão grande e tão bendito Se ocupe, como vimos em todas as Suas providências, de criaturas tão vis e desprezíveis como nós.

Ele não necessita de nós. É perfeitamente bem-aventurado e plenamente feliz em Si mesmo, sem qualquer necessidade de nossa existência. Nada podemos acrescentar à Sua perfeição.

"**Pode o homem ser útil a Deus?**" (Jó 22.2).

Não. Nem mesmo o mais santo dos homens pode acrescentar-Lhe coisa alguma. E, no entanto, veja quão elevado apreço Ele faz de nós.

Acaso Seu eterno amor eletivo não demonstra o precioso valor que nos atribuiu? (Ef 1.4–5). Quão antigo é esse amor! Quão livre! Quão admirável esse ato de graça!

É precisamente esse o propósito que todas as providências de Deus perseguem, e elas não descansarão enquanto não o tiverem plenamente realizado.

Não demonstra isso o dom de Seu Filho unigênito, que estava em Seu próprio seio? Não revela esse dom o quanto Deus estima esta criatura tão vil que é o homem? Jamais o homem foi tão exaltado. Se Davi pôde dizer: "**Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem?**" (Sl 8.3–4), quanto mais podemos nós dizer:

"Quando contemplamos Teu Filho, que repousava em Teu seio, Sua excelência infinita e Seu inefável valor aos Teus olhos, ó Senhor, que é o homem para que um Cristo tão glorioso fosse entregue à morte por ele? Por ele — e não pelos anjos caídos (Hb 2.16); por ele, quando ainda se encontrava em estado de inimizade contra Deus (Rm 5.8)."

Não demonstra também o cuidado incessante de Sua Providência por nós o apreço que Ele tem por Seu povo?

"**Para que ninguém lhe faça dano, eu a guardarei de noite e de dia**" (Is 27.3).

"**Não aparta os seus olhos do justo**" (Jó 36.7).

Nem sequer por um momento, durante todos os seus dias; pois, se assim o fizesse, mil males irromperiam sobre eles naquele mesmo instante e os destruiriam.

Não revela igualmente a ternura de Sua Providência o quanto Ele nos estima?

"**Como alguém a quem sua mãe consola, assim eu vos consolarei**" (Is 66.13).

Ele consola os Seus por meio de providências restauradoras, como uma mãe amorosa consola seu filho pequeno.

"**Como aves voando**" (Is 31.5), isto é, correndo ao ninho quando seus filhotes estão em perigo, assim Ele protege os Seus. Nenhuma ternura paternal ou maternal encontrada na criatura é capaz de representar plenamente a ternura do afeto do Criador.

Não o demonstra também a variedade dos frutos de Sua Providência? As Suas misericórdias são "**novas a cada manhã**" (cf. Sl 40.5; Lm 3.23). A Providência é uma fonte da qual fluem misericórdias espirituais e temporais, ordinárias e extraordinárias, públicas e pessoais — misericórdias sem conta.

Não o demonstra ainda o ministério dos anjos no reino da Providência?

"**Não são todos eles espíritos ministradores enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?**" (Hb 1.14).

E não o demonstra, por fim, a providência cuja memória este dia¹ nos chama a celebrar? Ah! Se não fosse assim, por que não fomos entregues "**como presa aos seus dentes**"? "**Se não fora o SENHOR, que esteve ao nosso lado**", então os homens perversos — comparados ao fogo, às águas e às feras — "**nos teriam engolido vivos**" (Sl 124).

Bendito seja Deus por essa fecunda Providência, que já concedeu à Igreja de Deus mais de setenta anos de liberdade e paz.

Quanto a essa providência, exorto-vos a fazer com ela o mesmo que os judeus fizeram com a festa de Purim (Et 9.27–28), tanto mais porque parecemos estar agora tão próximos do perigo, vindo do mesmo inimigo, quanto em qualquer tempo desde então.

Se uma misericórdia como essa for esquecida, Deus poderá dizer: "**Não vos livrarei mais**" (Jz 10.13).

---

¹ O autor refere-se à comemoração anual de um livramento providencial específico vivido por sua geração, razão pela qual fala de "este dia" e menciona "mais de setenta anos de liberdade e paz". Essa referência pertence ao contexto histórico original do sermão.

---

Fonte e Tradução

Título original: The Work of Sanctification

Autor: John Flavel (c. 1627–1691)

Fonte do texto: Sermão extraído da obra The Mystery of Providence, publicada originalmente no século XVII.

Tradução: Tradução para o português realizada a partir do texto original em inglês, buscando preservar com fidelidade o conteúdo, o estilo e a linguagem teológica do autor, com apenas as adaptações necessárias para proporcionar clareza e fluidez ao leitor contemporâneo, sem alteração do sentido original.

© Tradução em português: Reforma Radical.

___________________________________

📺 Assista a este sermão em vídeo:
👉 Assistir Agora

13:59

Deus nos conhece. Ele sabe o que somos; sabe também aquilo que Ele pretendia que fôssemos; e é sobre a diferença entre esses dois estados que Ele fundamenta o Seu testemunho a nosso respeito.

Ele é amoroso demais para dizer algo desnecessariamente severo; verdadeiro demais para dizer algo que não seja verdadeiro; nem pode ter qualquer motivo para nos representar de maneira falsa; pois Ele se deleita em falar do bem, e não do mal, que possa ser encontrado em qualquer uma das obras de Suas mãos. Ele as declarou “boas”, “muito boas”, no princípio; e se Ele não faz isso agora, não é porque não desejaria fazê-lo, mas porque não pode; pois “toda carne corrompeu o seu caminho sobre a terra”.

O testemunho de Deus a respeito do homem é que ele é um pecador. Ele testemunha contra ele, e não a favor dele, declarando que “não há justo, nem um sequer”; que “não há quem faça o bem”; nenhum “que entenda”; nenhum que sequer busque a Deus, e ainda menos alguém que O ame. Deus fala do homem com bondade, mas com severidade; como alguém que anseia por um filho perdido, porém como alguém que não fará acordo algum com o pecado, e que “de modo nenhum terá por inocente o culpado”.

Ele declara que o homem é um perdido, um extraviado, um rebelde, sim, um “inimigo de Deus”; não um pecador ocasionalmente, mas um pecador sempre; não um pecador apenas em parte, possuindo muitas coisas boas ao seu redor; mas inteiramente um pecador, sem nenhuma bondade compensadora; mau no coração assim como na vida, “morto em delitos e pecados”; um praticante do mal e, portanto, estando sob condenação; um inimigo de Deus e, portanto, “sob a ira”; um transgressor da justa lei e, portanto, sob “a maldição da lei”.

O homem caiu! Não este homem ou aquele homem, mas toda a raça humana. Em Adão todos pecaram; em Adão todos morreram. Não é que algumas poucas folhas tenham murchado ou tenham sido derrubadas, mas que a árvore se tornou corrupta, tanto a raiz quanto os ramos. A “carne”, ou o “velho homem” — isto é, cada homem conforme nasce neste mundo, um filho do homem, uma parte da humanidade, uma unidade no corpo caído de Adão — é “corrupta”. Ele não apenas produz pecado, mas o carrega consigo, como o seu segundo eu; sim, ele é um “corpo” ou uma massa de pecado, um “corpo de morte”, sujeito não à lei de Deus, mas à “lei do pecado”.

O judeu, educado sob a mais perfeita das leis, e nas circunstâncias mais favoráveis, era o melhor tipo de humanidade — de uma humanidade civilizada, refinada e instruída; o melhor exemplo dos filhos do primeiro Adão; contudo, o testemunho de Deus a respeito dele é que ele está “debaixo do pecado”, que ele se desviou, e que ele “carece da glória de Deus”.

A vida exterior de um homem não é o homem, assim como a tinta sobre uma peça de madeira não é a madeira, e assim como o musgo verde sobre a rocha dura não é a própria rocha. A imagem de um homem não é o homem; é apenas um arranjo habilidoso de cores que se parecem com o homem. O homem que ama a Deus de todo o seu coração está em um estado correto; o homem que não O ama dessa maneira está em um estado errado. Ele é um pecador; porque seu coração não está correto diante de Deus.

Ele pode pensar que sua vida é boa, e outros podem pensar o mesmo; mas Deus o considera culpado, digno de morte e do inferno. O bem exterior não pode compensar o mal interior. As boas obras feitas ao seu próximo não podem ser colocadas em oposição aos seus maus pensamentos acerca de Deus. E ele deve estar cheio desses maus pensamentos enquanto não amar esse Ser infinitamente amável e infinitamente glorioso com todas as suas forças.

O testemunho de Deus, então, a respeito do homem, é que ele não ama a Deus de todo o seu coração; sim, que ele não O ama de modo algum.

Não amar o nosso próximo é pecado; não amar um pai ou uma mãe é um pecado ainda maior; mas não amar a Deus, nosso Pai divino, é um pecado ainda maior.

O homem não precisa tentar dizer uma boa palavra a seu próprio respeito, nem tentar alegar “inocência”, a menos que possa demonstrar que ama, e que sempre amou, a Deus com todo o seu coração e alma. Se ele puder verdadeiramente dizer isso, então está em perfeita condição, não é um pecador e não necessita de perdão. Ele encontrará seu caminho para o reino sem a cruz e sem um Salvador.

Mas, se ele não puder dizer isso, “sua boca está fechada”, e ele é “culpado diante de Deus”. Por mais favoravelmente que uma vida exteriormente boa possa levar a si mesmo e aos outros a considerarem sua situação neste momento, o veredito será contrário a ele no futuro.

Este é o dia do homem, quando os julgamentos dos homens prevalecem; mas o dia de Deus está chegando, quando o caso será rigorosamente julgado conforme seus verdadeiros méritos. Então, o Juiz de toda a terra fará justiça, e o pecador será envergonhado.

Há ainda outra acusação contra ele, e esta é pior. Ele não crê no nome do Filho de Deus, nem ama o Cristo de Deus. Este é o seu pecado dos pecados.

Que seu coração não está correto diante de Deus é a primeira acusação contra ele. Que seu coração não está correto diante do Filho de Deus é a segunda. E é esta segunda que constitui o pecado supremo e esmagador, trazendo consigo uma condenação mais terrível do que todos os outros pecados juntos.

“Quem não crê já está condenado; porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.”

“Quem não crê em Deus o faz mentiroso; porque não crê no testemunho que Deus deu de seu Filho.”

“Quem não crer será condenado.”

Por isso os apóstolos pregavam “arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus Cristo”. E por isso também o primeiro pecado que o Espírito Santo traz ao coração de um homem é a incredulidade: “Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, porque não creem em mim”.

Tal é a condenação de Deus sobre o homem. Toda a Bíblia está repleta disso. Esse grande amor de Deus que a Sua Palavra revela está fundamentado sobre essa condenação. É amor para com os condenados.

O testemunho de Deus acerca da Sua própria graça não tem significado algum, exceto quando se apoia ou toma como pressuposto o Seu testemunho acerca da culpa e da ruína do homem.

Ele também não testemunha contra o homem simplesmente como um ser moralmente enfermo ou tristemente desafortunado; mas como alguém culpado de morte, debaixo da ira, condenado à maldição eterna; por aquele crime dos crimes: um coração que não está correto diante de Deus e que não é fiel ao Seu Filho encarnado.

Este é um veredito divino, não humano. É Deus, e não o homem, quem condena; e Deus não é homem para que minta.

Este é o testemunho de Deus a respeito do homem, e sabemos que este testemunho é verdadeiro.

----------

📖 Fonte do sermão:

Horatius Bonar — God’s Testimony Concerning Man (O Testemunho de Deus a Respeito do Homem).

Tradução baseada no sermão original em inglês.


📺 Assista a este sermão em vídeo:
👉 Assistir Agora


23:49

Temos falado do caráter de Deus como “o Deus de toda graça”. Temos visto que é ao “provar que o Senhor é gracioso” que o pecador encontra paz.

Mas tenhamos em mente que essa graça é a graça de um Deus justo; é a graça daquele que é Juiz tanto quanto Pai. A menos que vejamos isso, compreenderemos mal o evangelho e deixaremos de apreciar tanto o perdão que buscamos quanto o grande sacrifício por meio do qual ele nos chega. Nenhum perdão vago, surgido de um mero amor paternal, servirá. Precisamos saber que tipo de perdão ele é; e se procede do pleno reconhecimento de nossa absoluta culpa por parte daquele que há de “julgar o mundo com justiça”. O tipo correto de perdão não procede apenas do amor, mas também da lei; não da mera bondade natural, mas da justiça; não da indiferença para com o pecado, mas da santidade.

O inquiridor que é apenas meio sincero não percebe isso. Seus sentimentos são movidos, mas sua consciência não é despertada. Por isso, contenta-se com ideias muito vagas da mera compaixão de Deus pela infelicidade do pecador. Para ele, a culpa humana parece pouco mais que um infortúnio humano, e a absolvição do pecador por Deus pouco mais que um simples ignorar de seu pecado. Ele não se preocupa em perguntar como o perdão vem, nem qual é a verdadeira natureza do amor que professa ter recebido. É facilmente embalado ao sono, porque nunca esteve plenamente desperto. É, na melhor das hipóteses, um ouvinte de solo pedregoso; logo perde a pequena medida de alegria que possa ter obtido; torna-se um formalista; ou talvez alguém que trata o pecado com leviandade; ou ainda, um sentimentalista religioso.

Mas aquele cuja consciência foi traspassada não se satisfaz tão facilmente. Ele vê que o Deus cujo favor procura é santo tanto quanto amoroso; e que ele tem de lidar com justiça tanto quanto com graça. Por isso, a primeira investigação que faz é acerca da justiça do perdão que a graça de Deus oferece. Ele precisa estar satisfeito quanto a esse ponto e ver que a graça é uma graça justa antes de poder desfrutá-la plenamente. Quanto mais consciente estiver de sua própria injustiça, mais sentirá a necessidade de certificar-se da justiça da graça que lhe anunciamos.

Não o satisfaz dizer que, visto que ela procede de um Deus justo, deve necessariamente ser uma graça justa. Sua consciência deseja ver a justiça do caminho pelo qual ela vem. Sem isso, ela não pode ser apaziguada nem “purificada”; e o homem não é tornado “perfeito quanto à consciência”; mas sempre terá um sentimento inquietante de que algo não está certo; de que seus pecados poderão um dia levantar-se contra ele.

Aquilo que acalma o coração nem sempre apazigua a consciência. A visão da graça fará o primeiro; mas somente a visão da justiça dessa graça fará o segundo. Até que isto aconteça, não pode haver verdadeira paz. A ferida é curada superficialmente, e fala-se de paz onde não há paz. A cura da ferida só pode ser efetuada quando se anuncia paz onde há paz.

É aqui que entra a obra de Cristo; e a cruz do Portador do pecado responde à pergunta que a consciência levantou: — “É uma graça justa?” É essa grande obra de propiciação que apresenta Deus como “o Deus justo e Salvador”; não apenas justo apesar de justificar o ímpio, mas justo ao fazê-lo. Ela mostra a salvação como um ato de justiça; mais ainda, como um dos mais elevados atos de justiça que um Deus justo pode realizar. Ela apresenta o perdão não apenas como a ação de um Deus justo, mas como aquilo que demonstra quão justo Ele é e quanto odeia e condena o próprio pecado que está perdoando.

Ouça a Palavra do Senhor acerca dessa obra “consumada”. “Cristo morreu por nossos pecados.” “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, moído por causa das nossas iniquidades.” “Cristo foi oferecido uma vez para levar os pecados de muitos.” “Ele entregou a si mesmo por nós.” “Foi entregue por causa das nossas ofensas.” “Entregou a si mesmo por nossos pecados.” “Cristo morreu pelos ímpios.” “Manifestou-se para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.” “Cristo padeceu por nós na carne.” “Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos.” “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro.”

Essas expressões falam de algo mais do que amor. O amor está presente em cada uma delas; o profundo, verdadeiro e real amor de Deus; mas também a justiça e a santidade; a firme e inexorável adesão à lei. Elas não têm significado algum à parte da lei; da lei como fundamento, coluna e pedra angular do universo.

Mas sua ligação com a lei é também sua ligação com o amor. Pois, assim como foi a lei, em sua perfeição imutável, que constituiu a necessidade da morte do Fiador, também foi essa necessidade que despertou o amor do Fiador e deu igualmente uma gloriosa prova do amor daquele que o fez pecado por nós. Porque, se um homem morresse por outro quando não houvesse necessidade de fazê-lo, dificilmente chamaríamos sua morte de prova de amor. No máximo, seria um amor insensato ou, pelo menos, uma maneira sentimental e inútil de demonstrá-lo. Mas morrer por alguém quando realmente há necessidade de morrer é a verdadeira prova do amor genuíno. Morrer por um amigo quando nada menos do que isso pode salvá-lo — eis a prova do amor! Quando ou ele ou nós devemos morrer; e quando ele, para nos livrar da morte, morre em nosso lugar, isso é amor.

Havia necessidade de uma morte, se devíamos ser salvos da morte. A justiça criou essa necessidade. E, para atender a essa terrível necessidade, o Filho de Deus assumiu a carne e morreu! Morreu porque estava escrito: “A alma que pecar, essa morrerá.” O amor o conduziu ao berço; o amor o conduziu à cruz! Ele morreu como substituto do pecador. Morreu para tornar justo da parte de Deus cancelar a culpa do pecador e anular a pena de sua morte eterna.

Se não fosse por essa morte, a graça e a culpa não poderiam olhar uma para a outra; Deus e o pecador não poderiam aproximar-se; a justiça teria proibido a reconciliação; e a justiça, sabemos, é algo tão divino e real quanto o amor. Sem essa expiação, não teria sido justo que Deus recebesse o pecador, nem seguro para o pecador aproximar-se.

Mas agora a misericórdia e a verdade se encontraram; agora a graça é justiça, e a justiça é graça. Isso satisfaz a consciência do pecador, mostrando-lhe um amor justo para com o injusto e indigno de amor. Diz-lhe também que a reconciliação realizada dessa maneira jamais será desfeita, nem nesta vida nem na que há de vir. É uma reconciliação justa e resistirá a toda prova, assim como durará por toda a eternidade. A paz de consciência assim assegurada resistirá às provações, à enfermidade, ao leito de morte e ao juízo. Compreendendo isso, o principal dos pecadores pode dizer: “Quem é que condena?”

Que paz para a consciência aflita há na verdade de que Cristo morreu pelos ímpios; e de que é dos ímpios que o Deus justo é o Justificador! A graça justa que nos chega por meio da obra expiatória daquele que é o “Verbo feito carne” declara à alma, de uma vez por todas, que não pode haver condenação para qualquer pecador na terra que apenas consinta em ser devedor desse livre amor de Deus, o qual, como uma fonte de águas vivas, jorra livremente aos pés da Cruz.

Justo, e ao mesmo tempo Justificador do ímpio! Que boas-novas há aqui! Aqui está a graça: o livre amor de Deus para com o pecador; a bondade e a benevolência divinas, totalmente independentes de qualquer valor ou mérito humano. Pois esse é o significado bíblico daquela palavra tão frequentemente mal compreendida: “graça”.

Esse amor livre e justo tem sua origem no seio do Pai, onde habita o Unigênito. Não é produzido por nada fora do próprio Deus. Foi o mal do homem, e não o seu bem, que o fez manifestar-se. Não foi a atração do semelhante pelo semelhante, mas do diferente pelo diferente; foi a luz atraída pelas trevas, e a vida pela morte. Ele não espera que o busquemos; vem sem ser solicitado, assim como sem ser merecido.

Não é a nossa fé que o cria ou o faz surgir; nossa fé apenas o reconhece como já existente em sua plenitude divina e multiforme. Quer creiamos nele ou não, essa graça justa existe, e existe para nós. A incredulidade a rejeita; mas a fé a recebe, alegra-se nela e vive dela.

Sim, a fé recebe essa graça justa de Deus e, com ela, um perdão justo, uma salvação justa e um direito justo à herança da glória eterna.

------------------

Horatius Bonar (1808–1889)

Trecho de God's Way of Peace — Capítulo 4: "Righteous Grace" ("Graça Justa").

Traduzido do original em inglês.
------------------

📺 Assista a este sermão em vídeo:
👉 Assistir Agora

15:52

 

Sermão Pregado em 27 de fevereiro de 1669, por John Owen.

Salmo 14:6

Vós haveis envergonhado o conselho do pobre, porque o SENHOR é o seu refúgio.”

Este salmo tem uma marca peculiar: ele aparece duas vezes no Livro dos Salmos. O Salmo 14 e o Salmo 53 são o mesmo, com a alteração de uma ou duas expressões no máximo. E há outra marca posta sobre ele, pois o apóstolo transcreve grande parte dele em Romanos 3:10–12.

Ele contém a descrição de um estado de coisas muitíssimo deplorável no mundo — sim, em Israel; um estado muitíssimo deplorável, por causa da corrupção geral que havia sobrevindo a toda sorte de homens, em seus princípios, em suas práticas e em suas opiniões.

I. O Estado Deplorável Descrito no Salmo

Primeiro, era um tempo em que um poderoso princípio prevalecente de ateísmo havia penetrado no mundo, infiltrado entre os grandes do mundo. Diz ele: “Esse é o seu princípio: dizem no seu coração: Não há Deus.” É verdade que não o professavam absolutamente; mas era o princípio pelo qual todas as suas ações eram reguladas, e ao qual estavam conformados. “O insensato disse no seu coração: Não há Deus.” Não este ou aquele homem em particular, mas “o insensato” — isto é, aqueles homens insensatos; pois nas palavras seguintes ele vos diz: “Eles estão corrompidos.” Diz ele: “O insensato... eles estão corrompidos;” e no versículo 3: “Todos se desviaram.” “O insensato” é tomado de forma indefinida pela grande companhia e sociedade dos homens insensatos, para indicar que, em tudo mais em que estivessem divididos, todos concordavam nisso. “São todos uma companhia de ateístas”, diz ele — “ateístas práticos”. “O insensato disse no seu coração” — esse era o seu princípio.

Segundo, os seus afetos eram condizentes com esse princípio, como os afetos e ações de todos os homens são condizentes com seus princípios. O que esperais de homens cujo princípio é que não há Deus? Ora, diz ele, quanto aos seus afetos: “Estão corrompidos” — o que ele expressa novamente no versículo 3: “Todos se desviaram, todos juntos se tornaram corrompidos.” “Todos se desviaram.” A palavra no original significa: “Todos azedaram” — como uma bebida que antes tinha alguma utilidade, mas que, tornando-se insípida, perdeu todo o seu vigor e vida, tornando-se uma coisa sem sabor, boa para nada. E diz ele: “Todos juntos se tornaram corrompidos” — “tornaram-se fétidos”, como diz a margem. Têm afetos corrompidos que não lhes deixaram vida nem sabor algum; mas concupiscências fétidas e corrompidas prevalecem neles universalmente. Dizem “Não há Deus”; e estão cheios de concupiscências fétidas e corrompidas.

Terceiro, se este é o seu princípio e estes os seus afetos, examinemos as suas ações, em terceiro lugar, para ver se são algo melhor nelas. Considerai as suas ações. São de dois tipos: 1. Como procedem no mundo; 2. Como procedem em relação ao povo de Deus.

Como agem no mundo

Como agem no mundo? Pois bem, considerai isso quanto aos deveres que omitem e quanto às maldades que praticam. Que bem fazem? Não, diz ele: “Nenhum deles faz o bem.” Algum deles? “Nem sequer um.” Diz ele nos versículos 1 e 3: “Não há nenhum que faça o bem, nem sequer um.” Se houvesse algum entre eles que atendesse ao que era verdadeiramente bom e útil no mundo, haveria alguma esperança. “Não”, diz ele; “seu princípio é ateísmo, seus afetos estão corrompidos; e quanto ao bem, não há um só que faça o bem — omitem todos os deveres.”

Que fazem para o mal? Ora, diz ele: “Praticaram obras abomináveis” — obras, diz ele, que não devem ser nomeadas, não devem ser pronunciadas — obras que Deus abomina, que todos os homens bons abominam. “Obras abomináveis”, diz ele — “tais que até a própria luz da natureza as abominaria”; e permiti-me usar a expressão do salmista: “obras fétidas e imundas.” É assim que ele descreve o estado e a condição das coisas sob o reinado de Saul, quando escreveu este salmo.

Como agem em relação ao povo de Deus

Se assim é com eles, e se assim é com os seus próprios caminhos, ao menos deixam o povo de Deus em paz; não acrescentarão isso ao resto dos seus pecados.” Não, é exatamente o contrário; diz ele: “Devoram o meu povo como quem come pão.” “Aqueles que praticam a iniquidade não têm conhecimento, os que devoram o meu povo como quem come pão, e não invocam o SENHOR.” Por que ele o introduz dessa maneira? Por que não poderia simplesmente dizer: “Não têm conhecimento os que praticam tais coisas abomináveis”; mas o introduz assim: “Não têm conhecimento os que devoram o meu povo como quem come pão”? — “É admirável que, depois de todo o trato que tive com eles e de toda a declaração da minha vontade, sejam tão brutais a ponto de não saberem que isso seria a sua ruína. Porventura não sabem que isso os devorará, os destruirá, e será chamado à conta de novo de maneira particular?” No meio de todos os pecados e das maiores e mais graves provocações que há no mundo, Deus põe um peso especial sobre o devorar o seu povo. Podem saciar-se em suas concupiscências como quiserem; mas: “Porventura não têm conhecimento, que devoram o meu povo como quem come pão?”

Há muitas coisas que poderiam ser observadas de tudo isso; mas meu objetivo é dar apenas algumas indicações do salmo.

II. A Providência de Deus em Meio ao Caos

Pois bem, qual é o estado das coisas agora? Vós vedes o que era com eles. Como estava a providência de Deus em relação a eles? O que é notável — e um homem mal acreditaria num tal percurso como este — ele vos diz no versículo 5 que, a despeito de tudo isso, eles estavam em grande temor. “Ali ficaram em grande temor”, diz ele. Talvez porque vissem algum mal vindo sobre eles? Não; não havia nada senão a mão de Deus nisso; pois no Salmo 53:5, onde essas palavras são repetidas, diz: “Ali estiveram em grande temor onde não havia temor” — nenhuma causa visível de temor; contudo estavam em grande temor.

Deus, pela sua providência, raramente dá uma segurança absoluta e universal aos homens na altura do seu pecado, da sua opressão, da sua sensualidade e das suas concupiscências; mas secretamente os põe em temor onde não há temor: e embora não haja nada visível que devesse causá-los a ter qualquer temor, agirão como homens à beira da loucura por causa do temor.

Mas de onde provém esse temor? Diz ele que provém disto: “Porque Deus está na geração dos justos.” Claramente veem que a sua obra não avança; a sua carne não os alimenta; o seu pão não desce bem. “Estavam comendo e devorando o meu povo; e quando vieram devorar-lhes, descobriram que Deus estava entre eles (não podiam digerir o seu pão); e isso os pôs em temor, surpreendeu-os completamente.” Vieram, e pensavam ter encontrado um bocado saboroso; quando engajados, Deus estava ali, enchendo-lhes a boca e os dentes de cascalho; e começou a partir o queixo dos terríveis quando vieram para devorar o seu povo. Diz ele: “Deus estava ali”, versículo 5.

O Espírito Santo dá conta do estado das coisas entre aqueles dois tipos de pessoas que descreveu — entre o insensato e o povo de Deus, os que devoravam e os que teriam sido completamente devorados se Deus não estivesse entre eles. Ambos estavam em temor — os que seriam devorados, e os que devoravam. E tomaram caminhos diferentes para seu alívio; e ele mostra quais eram esses caminhos, e qual julgamento faziam um do caminho do outro. Diz ele: “Vós haveis envergonhado o conselho do pobre, porque o SENHOR é o seu refúgio.”

As pessoas mencionadas são “os pobres”; e esses são aqueles descritos nos versículos anteriores, o povo que estava prestes a ser comido e devorado.

E há a esperança e o refúgio que esses pobres tinham num tal tempo como este, quando tudo estava em temor; e era “o SENHOR”. O pobre faz do SENHOR o seu refúgio.

Observai aqui que, assim como descreveu todos os ímpios como um só homem — “o insensato” —, assim descreve todo o seu próprio povo como um só homem — “o pobre”, isto é, o homem pobre: “Porque o SENHOR é o seu refúgio.” Mantém o singular. Em tudo em que o povo de Deus possa diferir, são todos como um só homem nessa matéria.

E há o modo pelo qual esses pobres fazem de Deus o seu refúgio. Fazem-no por “conselho”, diz ele. Não é algo que fazem por acaso, mas o consideram como a sua sabedoria. Fazem-no com consideração, com deliberação. É uma coisa de grande sabedoria.

Bem, que pensamentos têm os outros acerca dessa ação deles? Os pobres fazem de Deus o seu refúgio, e o fazem por conselho. Que julgamento faz agora o mundo acerca desse conselho deles? Ora, eles o “envergonham”; isto é, lançam vergonha sobre ele, desprezam-no como uma coisa muitíssimo tola, fazer do SENHOR o seu refúgio. “Verdadeiramente, se pudessem fazer deste ou daquele grande homem o seu refúgio, seria algo; mas fazer do SENHOR o seu refúgio — esta é a coisa mais tola do mundo”, dizem eles. Envergonhar o conselho dos homens, desprezá-lo como tolo, é o maior desprezo que podem lançar sobre eles.

Aqui vedes o estado das coisas como são representadas neste salmo, e expostas diante do Senhor; o que sendo enunciado, o salmista mostra qual é o nosso dever diante de tal estado de coisas — qual é o dever do povo de Deus, sendo as coisas assim dispostas. Diz ele: “O caminho deles é ir à oração.” Versículo 7: “Quem me dera que a salvação de Israel viesse de Sião! Quando o SENHOR trouxer de volta os cativos do seu povo, Jacó se alegrará e Israel se regozijará.” Se as coisas estão assim dispostas, então clamai, então orai: “Quem me dera que a salvação de Israel viesse de Sião”, etc. Uma colheita de louvor virá a Deus de Sião, para o regozijo do seu povo.

III. A Sabedoria de Fazer do SENHOR o Nosso Refúgio

O que eu principalmente consideraria útil para mim e para vós neste salmo é isto:

Que é uma coisa sábia, uma coisa de grande conselho e deliberação, fazer de Deus o nosso refúgio no tempo de maior angústia, terror, desordem e maldade que pode existir no mundo. Este foi o conselho dos pobres de outrora num tal tempo como o aqui descrito (e não há tempo mais triste em todo o livro de Deus), que naquele tempo — e em todos os tempos — é uma coisa sábia, uma coisa de conselho e deliberação, fazer de Deus o nosso refúgio.

Lembro-me de que em Deuteronômio 32:21, Deus reprova o seu povo por o ter provocado com o que não era Deus; e em Gálatas 4:8 é uma reprova para eles: “Servíeis àqueles que por natureza não são deuses.” O sentido é este: que é a coisa mais tola do mundo depositar a nossa confiança em qualquer coisa que não seja Deus por natureza. Não há nada senão a natureza imensa de Deus que seja capaz de oferecer um refúgio a uma pobre alma em todas as angústias em que possa cair; e portanto é certamente a nossa sabedoria fazê-lo nosso refúgio.

É verdade que os homens não buscam o seu refresco imediato no oceano; mas é do oceano que todos os nossos rios são derivados, os quais dão refresco a todas as criaturas. Não buscamos imediatamente o nosso alívio espiritual na tribulação da imensidade da natureza de Deus, do seu ser Deus; mas é dali que procedem todos os nossos rios pelos quais somos aliviados. E deixemos que qualquer um de nós se volte para o mais glorioso rio que aparece para o nosso refresco — se por fé não o rastreamos até à imensidade da natureza de Deus, lidaremos com ele como o behemot pensa fazer com o Jordão: beber tudo, engolir o glorioso rio de refresco que jaz diante dele, se por fé não o virmos brotar da imensidade da natureza de Deus. “Confiai no SENHOR para sempre”, diz ele em Isaías 26:4. Por quê? Qual é a razão? “Porque no SENHOR Deus há força eterna.” A eternidade de Deus e a onipotência de Deus, a força e o nome eternos de Deus — que Ele é Jeová — são razões para colocarmos a nossa confiança e esperança nele. “Confiai no SENHOR para sempre: porque no SENHOR Deus há força eterna.” Sabeis que Deus frequentemente nos convida a confiar no seu nome; e os que conhecem o seu nome nele confiarão. No Salmo 9:9–10: “O SENHOR também será um alto refúgio para o oprimido, um refúgio nos tempos de angústia. E os que conhecem o teu nome confiarão em ti.” “O nome do SENHOR é uma torre forte: o justo foge a ela e está seguro” (Provérbios 18:10). “Há algum que anda em trevas e não tem luz? Confie no nome do SENHOR” (Isaías 50:10).

Ah, mas direis: “É sábio fazê-lo? É matéria de conselho? O melhor caminho?” Vimos brevemente que é uma grande loucura confiar em qualquer coisa que não seja Deus por natureza. Passemos agora à parte positiva: que devemos fazê-lo nosso refúgio. É bom conselho fazê-lo? Sim: “Confiai no meu nome”, diz Deus.

1. O Nome de Deus como Objeto da Nossa Confiança

Observarei duas coisas acerca deste nome de Deus, que Ele nos propõe como objeto da nossa confiança, para fazermos o nosso refúgio dele:

(1.) Em geral: o que há neste nome de Deus? Ora, toda a Escritura não é mais do que uma declaração do nome de Deus. Toda a pregação de Jesus Cristo não é nada mais do que declarar o nome de Deus. Ele mesmo o diz em João 17:6, onde presta conta do seu ministério: “Tenho manifestado o teu nome”, diz ele, “aos homens que me deste do mundo.” E há uma descrição resumida dele em Êxodo 34:5–7: “Proclamarei o meu nome.” Que nome? Ora, diz ele: “O SENHOR, Deus forte e poderoso”; ou, como lemos: “O SENHOR Deus, misericordioso e piedoso, longânime, e grande em bondade e verdade, que perdoa a iniquidade, e a transgressão, e o pecado, e que de modo algum tem por inocente o culpado.” Certamente, se este é o nome de Deus, é melhor confiar no SENHOR do que depositar confiança nos príncipes. É mais sábio, é melhor, é de melhor conselho; pois este É o seu nome. O nome de um príncipe pode ser Nábal; mas Deus nos propõe o seu nome de tal modo que é adequado a todo estado e condição em que possamos estar, sob qualquer angústia: “O SENHOR Deus, misericordioso e piedoso.”

(2.) É sabedoria, porque Deus, na revelação do seu nome, desde o fundamento do mundo, acomodou-se ao estado e à condição do seu povo, para que por isso fossem movidos a confiar nele. Quando se revelou a Abraão, que havia de andar de um lado para o outro na terra, no meio de nações estranhas e ímpias, sem lugar fixo de habitação — e que estava, estou persuadido, frequentemente naquele estado que expressa uma vez: “O temor de Deus não está neste lugar, e eles me matarão” (teve muitas vezes ocasião de pensar assim: “Vão me matar por causa dos meus bens e posses”; era um grande estorvo para todos os habitantes ímpios da terra, assim como Isaque foi depois: “Tu és muito mais poderoso do que nós”) — ora, diz Deus: “Não temas; Eu sou o Deus Todo-Poderoso.” Ele acomoda o seu nome à sua condição.

E vós sabeis que, quando os filhos de Israel estavam completamente desesperados, e pensavam que morreriam sob o seu cativeiro e seriam consumidos, Deus vem a eles e se revela pelo seu nome Jeová: “Cumprirei agora todas as minhas promessas.” Quando os filhos de Judá saíram do cativeiro na Babilônia, e o mundo estava cheio de ruído, confusão e tumulto, e exércitos estavam ao redor deles — como podeis ver nas profecias de Ageu e Zacarias — que nome Deus revelou como alívio a eles? “Assim diz o SENHOR dos Exércitos.” Revelou que tinha o poder de todos os exércitos do mundo. Que nome revelou Deus agora, que possa ser alívio para nós, e fazer-se conselho e deliberação agora? Ora, Ele é revelado agora como “O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” Esse é o seu nome, e esse é o seu memorial por todas as gerações, que abrange todos os nossos interesses espirituais e temporais — Aquele que é afligido conosco em todas as nossas aflições, tentado em todas as nossas tentações, sofre conosco sob todos os nossos sofrimentos. Ele é o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o capitão da nossa salvação, e pode salvar até ao fim. Ele nos chamou a confiar nesse nome, e nos deu essa razão para isso.

2. As Próprias Propriedades da Natureza de Deus

Deus, para mostrar que é nosso dever e sabedoria, propõe imediatamente as próprias propriedades de sua natureza para o nosso alívio. Em Isaías 40:27: “Por que dizes tu, ó Jacó, e falas, ó Israel: O meu caminho está encoberto do SENHOR, e a minha causa passa despercebida ao meu Deus?” — palavras cujo sentido está muitas vezes prestes a dominar os nossos corações; estou certo de que frequentemente ficam à porta do meu; não sei como é convosco.

Que propõe Deus para aliviá-los nessa condição? Ora, diz-lhes no versículo 28: “Porventura não sabes? Porventura não ouviste que o Deus eterno, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, não se cansa nem se fatiga? Não há esquadrinhar do seu entendimento.” Propõe três ou quatro das propriedades essenciais da sua natureza à nossa consideração para que o tomemos por refúgio: a sua eternidade — “o Deus eterno”; o seu poder — “o Criador dos fins da terra”; a sua imutabilidade — “não se cansa nem se fatiga”; e a sua infinita sabedoria — “não há esquadrinhar do seu entendimento.” Propõe imediatamente à nossa consideração essas gloriosas propriedades da sua natureza para o nosso alívio e refúgio em tal tempo, quando estamos tão além de todo o alívio e de toda a esperança no mundo. Estamos tão completamente afundados sob o peso, tão lançados de lado, tão descartados, que estamos prontos a pensar que não podemos ver alívio algum nem do próprio Deus. “O meu caminho está encoberto do SENHOR” — tive o meu último julgamento e audiência; a minha causa foi rejeitada no tribunal de Deus, preterida; Deus não decidirá na minha causa. É a queixa da igreja sob a grande opressão dos babilônios: “Deus deixou isso passar, adiou o dia da audiência.” Que dá Deus nessa grande angústia para o alívio deles? Ora, lembra-os das suas gloriosas propriedades, da sua imutabilidade, eternidade, infinita sabedoria e infinito poder. Deus continua assim naquele lugar, mas não irei mais adiante, embora nas palavras seguintes Deus manifeste que exercerá todas essas santas propriedades da sua natureza de maneira de misericórdia do pacto para aqueles que nele creem e nele confiam.

3. Nenhuma Angústia é Irremediável para Quem Confia em Deus

É nossa sabedoria; porque não há angústia insuportável e incontrolável que seja capaz de qualquer alívio ou aparência de alívio de coisa alguma senão da natureza infinita de Deus. Estamos expostos, ou podemos estar, a tais angústias que nada nos pode dar o mínimo alívio senão a consideração da natureza de Deus. Suponhamos que um homem fosse lançado pela violência numa prisão ou numa masmorra, onde ninguém pudesse aliviá-lo. Ah, mas dirá: “Tenho alívio aqui; muitas boas pessoas sabem que estou na masmorra, e orarão por mim, terão piedade de mim, terão compaixão de mim.” Mas um homem pode ser lançado numa condição onde nenhum homem o veja, nenhum homem saiba dele, onde não haja ninguém que tenha piedade dele — uma tempestade no mar, uma masmorra desconhecida de todos. O que aliviará este homem senão a simples consideração do seu interesse nas propriedades infinitas de Deus?

Conheci muitos em angústias de consciência que foram capazes de afastar tudo, até que Deus os envolve com a infinitude de Deus. Dúvidas e temores de seus corações desprezaram cada resposta, cada palavra de consolo que lhes poderia ser dada; mas se pudestes uma vez envolvê-los na infinitude de Deus, isso lhes deu algum sossego.

E a razão de tudo isso é que os nossos temores são capazes de perseguir as nossas apreensões de alívio. Seja o que for que possais apreender, os vossos temores irão tão longe quanto as vossas apreensões, e o enfraquecerão para vós. Envolvei as vossas apreensões naquilo que é infinito, e o temor é absorvido por isso. Cada particularidade que vossa apreensão ou razão possa percorrer, os vossos temores também a percorrerão, e a tornarão amarga para vós. Mas se puderdes absorver tudo na infinita sabedoria, imutabilidade e misericórdia, os temores e tudo o mais são absorvidos; e então a alma descansa. Trazei-o a uma promessa particular. Enquanto o temor e a incredulidade estiverem operando, irão tão longe quanto vós, e darão tormento; mas se vierdes a fazer do próprio Senhor, em sua natureza infinita, o vosso refúgio, há descanso e paz na alma.

É matéria de conselho e sabedoria fazer de Deus o nosso refúgio, porque é uma loucura confiar naquilo que não é Deus; e porque Deus assim nos propôs a sua natureza e propriedades, de modo adequado a dar-nos alívio em toda estreiteza e angústia que quer que nos sobrevenha.

IV. O Desprezo do Mundo pelo Conselho do Pobre

Vós haveis envergonhado”, diz ele, “o conselho do pobre.” Não há nada que os homens ímpios tanto desprezem quanto o fazer de Deus um refúgio — nada que em seus corações escarnezam tanto. “Envergonham-no”, diz ele. “É uma coisa a ser descartada de toda consideração. O homem sábio confia na sua sabedoria, o homem forte na sua força, o homem rico nas suas riquezas; mas esta confiança em Deus é a coisa mais tola do mundo”, dizem eles.

As razões são:

1. Não conhecem a Deus; e é uma loucura confiar em alguém que não se conhece.

2. São inimigos de Deus, e Deus é inimigo deles; e consideram uma loucura confiar no seu inimigo.

3. Não conhecem o modo pelo qual Deus auxilia e ajuda. E,

4. Buscam tal ajuda, tal assistência, tais suprimentos que Deus não dará — ser livrados para servir às suas concupiscências; ser preservados para executar a sua raiva, imundícia e loucura. Não têm outro desígnio ou fim para essas coisas; e Deus não dará nenhuma delas. E é uma loucura em qualquer homem confiar em Deus para ser preservado no pecado. É verdade que a loucura deles é a sua sabedoria, considerado o seu estado e condição. É uma loucura confiar em Deus para viver no pecado, e desprezar o conselho do pobre.

Conclusão

Aqui vemos qual é o nosso dever; e pensei que seria capaz de acrescentar uma ou duas palavras de orientação sobre como pôr esse conselho em execução — fazer do SENHOR o nosso refúgio —; mas a minha força se foi.


📺 Assista a este sermão em vídeo:
👉 Assistir Agora

20:44

 

Pregado em 1º de julho de 1681 por John Owen

Isaías 57.1-2

"O justo perece, e ninguém considera; e os homens misericordiosos são levados, sem que alguém entenda que o justo é retirado por causa do mal que há de vir. Ele entrará na paz; descansarão em suas camas, cada um que andou na sua retidão."


Este é um texto que a providência de Deus tem pregado de modo severo a esta congregação. Não posso olhar para a frente, não posso olhar para trás, sem ver as pegadas da morte. Ela esteve aqui, esteve ali, à direita e à esquerda. Às vezes Deus expõe as obras da sua providência pela sua palavra; e às vezes expõe a sua palavra pelas obras da sua providência. Ajustar a palavra de Deus e as obras de Deus, de modo que uma interprete a outra, é a suma e a substância de toda a nossa sabedoria aqui neste mundo.

Deus expõe neste dia as suas obras pela sua palavra. O mundo está cheio de confusão, cheio de sinais do desprazer de Deus, cheio de juízos, cheio de terror; mas o mundo nada entende de tudo isso. Trazei estas obras de Deus à palavra de Deus, e as compreendereis. Compreenderemos que o mundo está cheio de pecado e provocação, que Deus está desagradado, que ele está retirando o repouso dos homens — sacudindo tudo por dentro e por fora. Os que não conhecem a palavra de Deus nada entendem destas obras, e são tomados por uma multidão de pensamentos vãos. Ele expõe as suas obras pela sua palavra.

E às vezes Deus expõe a sua palavra pelas suas obras, como o faz neste dia. Ele expõe este texto; de modo que nas obras de Deus podemos ver, clara como num espelho, a mente e o sentido do Espírito Santo: "O justo perece, e ninguém considera; e os homens misericordiosos são levados, sem que alguém entenda que o justo é retirado por causa do mal que há de vir."

A verdade geral destas palavras é esta: que quando Deus está trazendo males, males angustiantes, sobre uma igreja, sobre um povo, no caminho ordinário da sua providência, ele retira de antemão muitos dos que são mais eminentes e mais úteis. Quando de modo especial "o justo perece, e os homens misericordiosos são levados", é uma época em que Deus está certamente trazendo males. Assim, quando Deus estava trazendo males sobre Jerusalém e a terra de Judá (Jr 24), ele recolheu todos os figos bons e os pôs de lado. Muitos deles morreram, alguns foram para o cativeiro; mas todos os que eram bons e seriam restaurados, Deus os retirou do meio deles; e então veio a desolação universal. "O justo perece." Josias é um exemplo disso — alguns pensam que o profeta (embora muito antes) tinha um respeito particular a ele neste texto: "Josias perecerá; será levado." Com que propósito? "Para que eu traga o mal", diz Deus. "Vai em teu caminho. Perecerás e serás morto; porém irás ao teu sepulcro em paz, para que eu traga o mal." Eu próprio tenho falado isso muitas vezes, e ouvi outros dizerem: o arrebatamento, o recolhimento — como diz a palavra ("Serão recolhidos") — de tantos ministros, muitos deles na plenitude de suas forças, na plenitude de seus trabalhos, e nos melhores de seus desígnios para Deus, tem sido um sinal de que havia males por vir. E não é assim apenas com os ministros; mas também com outros nesta congregação, de maneira mais eminente do que jamais experimentei em todo o curso de minha vida — tantas pessoas de santidade, valor e utilidade sendo levadas e recolhidas de uma pobre sociedade em tão pouco tempo! Este é o propósito geral do texto.

Abrirei um pouco as palavras em particular.

É uma descrição dupla das pessoas de que se fala: 1. Com referência ao seu estado e condição diante de Deus; são "homens justos"; 2. Com respeito ao seu estado e condição para com os homens; são homens úteis, "homens misericordiosos", de quem se fala.

Primeiro, com referência ao seu estado diante de Deus: "O justo perece." Sei que a palavra é frequentemente usada para o homem que é moralmente justo, um homem reto entre os homens. Mas a partir do que se segue no versículo 2, como veremos daqui a pouco, prefiro entender que o homem justo aqui é um homem justificado — um homem que é justo e aceito por Deus; um homem reto, isto é, um homem justificado pelo sangue de Cristo. Essa é a sua primeira descrição, quanto ao seu estado com referência a Deus, de quem fala: ele é uma pessoa justificada.

Segundo, com respeito ao seu estado e condição para com os homens. Fala de "homens misericordiosos" — homens de benignidade, homens de bondade, homens bons, homens úteis, que exercem bondade na terra, que são peculiarmente os homens amáveis e desejáveis no mundo. O apóstolo faz uma distinção entre um homem justo e um homem bom (Rm 5.7): "Dificilmente alguém morreria por um homem justo" (por um homem justificado); "porém por um homem bom" (alguém que é benigno, bondoso, útil, misericordioso) "talvez alguém ousasse morrer." Tais são as pessoas aqui mencionadas — um homem justificado, e um homem de benignidade e bondade.

Verdadeiramente, não posso deixar de fazer a aplicação; pois Deus, falando a nós pela sua providência neste momento, é nosso dever aplicá-la ao nosso caso, à pessoa que Deus tirou recentemente desta congregação — um homem justificado; como poderia fazê-lo com muitos outros que nos precederam. Estive com ele no dia anterior à sua morte, e o encontrei no exercício da fé sobre um princípio tão nobre quanto jamais desejaria viver e morrer — aquela visão que Deus lhe havia concedido da glória da sua sabedoria, da sua justiça, da sua graça, do seu amor e da sua misericórdia, todos manifestados em Jesus Cristo para a salvação da sua alma. Não conheço ato de fé mais glorioso. E são a substância das palavras com que ele se expressou; como, de fato, havia feito muitas vezes antes, quando eu conversava com ele acerca do seu estado espiritual; pois era uma pessoa que não temia o seu pastor, nem se esquivava de comunicar-lhe os seus pensamentos. E não posso deixar de lhe atribuir o outro caráter — "um homem misericordioso."

Vejo os rostos de muitos nesta congregação que me falaram dele como alguém cheio de bondade, amor, benignidade; sempre pronto a servir a todos em todas as suas necessidades, perguntando como poderia servir ao mais humilde, e a qualquer outro, com grande condescendência, mansidão e humildade. Considero pequeno o que disse, mas era-lhe devido; e não acrescentarei mais do que isto: é um exemplo de Deus levando um homem justo, e de Deus recolhendo um homem misericordioso.

E é do nosso conhecimento que o mesmo caráter, tanto de fidelidade quanto de utilidade, pode ser aplicado de modo eminente a várias outras pessoas desta congregação que nos foram tiradas. Peço a Deus que sejamos "seguidores daqueles que pela fé e pela paciência herdam as promessas"; que todos nós, que professamos ser justificados diante de Deus, tenhamos o cuidado de ser misericordiosos — isto é, bondosos, benignos e úteis; não egoístas, não vivendo para nós mesmos, mas prontos a servir uns aos outros, prontos a servir todos os membros da congregação, e todos os outros, conforme tivermos oportunidade. Se somos pessoas justificadas, tratemos de ser bons, de ser misericordiosos, bondosos e benignos.

Mas continuemos com as palavras. O que se diz deste homem justo? Ele "perece." Absolutamente? Não; nenhum homem justo perece eternamente. O profeta, no versículo seguinte, remove tal objeção; pois ali ele divide este homem nas suas duas partes essenciais. O que diz de seu estado? "Ele entrará na paz." Aí está a sua alma. E o que será do seu corpo? Irá ao sepulcro. Se o homem justo perece, será apenas uma dissolução — quanto às suas almas, irão para o descanso; quanto aos seus corpos, irão ao sepulcro. Digo que ele não perece absolutamente, nem quanto à alma nem quanto ao corpo; mas o profeta usa essas expressões para que não seja excluído nenhum homem justificado, por qualquer modo ou meio que chegue à morte, embora possa parecer perecer, ser cortado. Alguns morrem em sua juventude, no início de sua utilidade; alguns morrem em plena utilidade; alguns morrem sob fortes dores; alguns podem morrer pela espada — tudo o que tem aparência de perecer. Esta expressão abrange qualquer modo ou tempo em que Deus se agrada de tirar um homem justo deste mundo.

Além disso, diz-se que um homem justo perece e é recolhido por causa da ajuda e do amparo que deveria ter prestado à igreja, à cidade e ao lugar onde vivia. Ele pereceu e se foi. O homem justo perece, e o homem misericordioso é levado. São recolhidos. Há uma ênfase na ocasião. Há um tempo em que o homem justo assim perece e o homem misericordioso é assim levado; e todos podemos dar exemplos disso em pessoas próximas, em amigos e conhecidos, de que assim tem sido.

Para prosseguir um pouco mais: qual é o propósito disso? qual é o resultado desta dispensação de Deus ao fazer perecer os homens justos e misericordiosos?

Ora, diz ele: 1. "Ninguém considera." E 2. "Sem que alguém entenda que eles são retirados por causa do mal que há de vir." O sentido é que nessas estranhas e maravilhosas dispensações de Deus, são muito poucos os que consideram seja a causa, seja o fim delas: ninguém pondera ao considerar a causa; ninguém a considera a respeito do fim — o fato de serem "retirados por causa do mal que há de vir." E essa é a dolorosa verdade que estas palavras nos ensinam, a saber, que quando Deus afasta e recolhe os homens justos e misericordiosos para abrir caminho à entrada de grandes males, angústias e destruição, poucos ou nenhum considerará a causa ou o fim disso.

É parte do desprazer de Deus, parte do seu juízo, que não sejamos mais despertados por isso. Que Deus tenha misericórdia desta pobre igreja, ou estaremos perdidos! Se não vemos a causa e o fim desta dispensação de Deus para conosco — a menos que o Senhor se digne a nos conceder um senso mais profundo do que ainda alcançamos —, terei receio do "mal que há de vir", que se aproxima de um desfecho mais triste do que estamos prontos a pensar. "Ninguém considera" — muito poucos o farão. De fato, quantas tristes palavras temos ouvido de toda sorte de pessoas acerca dos que recentemente nos foram tirados: "Ah, meu irmão! Ah, minha irmã! Ah, a sua utilidade enquanto estavam entre nós!" — e podemos baixar a cabeça por um dia, por uma noite; mas isso não é ponderar. Falo ao remanescente desta congregação o que Deus certamente nos exige, para que esta queixa não se encontre verdadeira a nosso respeito — que ninguém considera a causa e o fim; o que é o presságio mais triste dos males mais angustiantes.

Mal é uma palavra abrangente para tudo o que o é. Exige-se de nós que tomemos real conhecimento do desprazer de Deus nisso — que Deus está desagradado; não com aqueles que ele levou. Estava Deus desagradado com alguns dos melhores brotos dentre nossos irmãos? Estava Deus desagradado com eles? Não. Mas devemos tomar conhecimento do desprazer de Deus para conosco. Quando a mão de Deus está levantada, se os homens não querem ver, ele diz: "Eles verão." Verdadeiramente, tenho quase vergonha, e estou pronto a corar ao olhar para os rostos dos homens, ao considerar que repreensões Deus nos tem dado. Nosso Pai cuspiu em nosso rosto; mostrou o seu desprazer, não apenas neste caso, mas em nove ou dez que poderia mencionar — pessoas eminentes em graça, que ele nos tirou; de modo que não sei como não deveríamos nos envergonhar de que nosso Pai está desagradado conosco. Que o Senhor nos ajude a ponderar isso! Se o ponderássemos, coraríamos.

Quais são as causas do desprazer de Deus para conosco?
Se Deus está desagradado conosco, quais são as causas?
Não sei que ele me tenha dado repreensão maior, em todo o curso do meu ministério, do que o fato de eu ter estado labutando em vão para descobrir as causas da retirada de Deus sem nenhum sucesso. Não direi nada delas agora, embora seja bom que as meditemos. Nosso dever é abandonar todas as nossas pretensões vãs e toda a nossa segurança, e considerar qual é a causa de Deus estar desagradado conosco como congregação, e tomar vergonha de nós mesmos.

E então, sejamos humilhados conjuntamente por essas causas, e estejamos nos convertendo de todo o coração de tudo o que tenha sido uma provocação aos olhos da sua glória. Sem isso, o meu próprio amor por esta congregação me fará aplicar-lhe aquela palavra: "A vós conheci de todas as congregações de Londres de maneira peculiar, e portanto vos castigarei por todas as vossas iniquidades." Fomos elevados ao céu pelos privilégios — e como Deus nos humilhará não sei. Mas é tempo de considerarmos as causas deste desprazer de Deus, testificado tão abertamente contra nós, de nos humilharmos por elas e de nos voltarmos para o Senhor. É tempo — e tempo urgente — de o fazer. Oh, bem-aventurado é o que contribui com qualquer coisa para esse fim!

Que o Senhor levante alguns e derrame o seu Espírito sobre eles, para que sejam úteis a esse propósito; para que nos ajudemos a salvar a nós mesmos, a esta nação em que vivemos, e ao restante das igrejas desta terra! O Senhor pode derramar tal espírito sobre alguns que suscite tal espírito de arrependimento pelo pecado e de humilhação diante de Deus que seja útil para esse fim e propósito. A primeira acusação é: "Ninguém considera." E creio, e por isso falo, que se estas coisas não forem ponderadas do modo que declarei, ou para esse propósito, é evidência de que o mal virá e nos alcançará no fim; pois assim está dito: "O justo perece, e os homens misericordiosos são levados por causa do mal que há de vir."

Por que são eles retirados por causa do "mal que há de vir"?

Primeiro, para que Deus possa trazer o mal. "Deixarei alguns quando o mal vier para serem exercitados; pode ser um homem velho, pode ser um jovem. Basta esperar que eu tenha recolhido alguns para mim mesmo. Não posso trazer o mal até que essas luzes se apaguem e os figos bons sejam levados. Não posso", diz Deus, "trazer o mal sobre Jerusalém até então." E são retirados para que o mal venha.

Segundo — que é a aceitação mais geral — são retirados para que não vejam o mal; como Josias foi levado pela espada para que não visse o mal. A morte pela espada não tem nenhum mal em comparação com o mal que Deus trará sobre um povo ou nação quando vier em juízo. "Josias não verá o incêndio da cidade e do templo, não verá mulheres comendo os seus próprios filhos" etc. O que é perecer pela espada em comparação com todas as tentações que acompanham tais males? O Senhor os levará, de modo que não verão o que tem mal, ira e angústia. Eles "são retirados por causa do mal que há de vir."

📺 Assista a este sermão em vídeo:
👉 Assistir Agora

Reforma Radical

{picture#https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhuqcMg1_imvhKHfcgKLcj89Ta2mTAYeV-GV3Ye5LxDs7tuSWZNz8qzKWABlcIhurz8T3ULFGcAp8psYDl4L-3Tm93z2lPdRXu3cOtKAFoKIKf4uwuEeHXf6V5-Lyp4uAiIjH96IPiUbZ8/s1600/photo.jpg} Gostou e foi edificado com o que leu? Aproveite e compartilhe para que outros também sejam edificados. Também comente a respeito do que leu, na parte de comentários. Deus seja louvado! {facebook#}
Tecnologia do Blogger.