12:43


A CONSEQUENTE HABITAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO NOS CRENTES

Por Charles H. Spurgeon

“Deus enviou o Espírito de seu Filho aos vossos corações.”

Aqui contemplamos um ato divino do próprio Pai. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, e Deus o enviou aos vossos corações. Se Ele tivesse apenas vindo bater à porta do coração humano e pedido permissão para entrar, talvez jamais tivesse sido recebido. Contudo, quando Jeová o envia, Ele entra — não violando a vontade, mas operando com poder irresistível.

Onde Jeová o envia, ali Ele permanece e jamais se retira.

Amados, não tenho tempo para me deter longamente nessas palavras, mas desejo que vocês as considerem profundamente, pois nelas há grande riqueza espiritual. Assim como Deus enviou seu Filho ao mundo para habitar entre os homens, e os santos contemplaram sua glória — “glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” — da mesma forma Deus enviou o Espírito para entrar no coração dos homens e ali estabelecer sua morada, para que também nele a glória de Deus seja revelada.

Bendigam e adorem o Senhor que lhes enviou um visitante tão maravilhoso.

Observem agora o título sob o qual o Espírito Santo vem a nós: Ele vem como o Espírito de Jesus. As palavras são: “o Espírito de seu Filho”. Essa expressão não se refere apenas ao caráter ou à disposição de Cristo — embora isso também seja verdadeiro —, mas indica o próprio Espírito Santo.

Por que, então, Ele é chamado de Espírito de seu Filho, ou Espírito de Jesus?

Podemos apresentar algumas razões.

Foi pelo Espírito Santo que a natureza humana de Cristo foi concebida no ventre da virgem. Pelo Espírito, nosso Senhor foi confirmado em seu batismo, quando o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma de pomba e permaneceu sobre Ele.

Nele o Espírito Santo habitou sem medida, ungindo-o para sua grande obra. Por meio do Espírito, Ele foi ungido com o óleo de alegria acima de seus companheiros.

O Espírito também estava com Ele, confirmando seu ministério por meio de sinais e maravilhas.

Além disso, o Espírito Santo é o grande presente de nosso Senhor para a igreja. Foi após sua ascensão que Cristo concedeu os dons de Pentecostes, e o Espírito Santo desceu sobre a igreja para permanecer com o povo de Deus para sempre.

O Espírito Santo também é chamado Espírito de Cristo porque é testemunha de Cristo na terra; pois está escrito: “Três são os que testificam na terra: o Espírito, a água e o sangue”.

Por essas e muitas outras razões Ele é chamado “o Espírito de seu Filho”, e é Ele quem vem habitar nos crentes.

Quero exortar vocês, de maneira solene e agradecida, a considerarem a maravilhosa condescendência revelada aqui: o próprio Deus, o Espírito Santo, faz sua morada nos crentes.

Às vezes não sei o que é mais extraordinário: a encarnação de Cristo ou a habitação do Espírito Santo.

Jesus habitou por um tempo na terra em carne humana — sem pecado, santo, inocente, puro e separado dos pecadores. Entretanto, o Espírito Santo habita continuamente no coração de todos os crentes, embora ainda sejam imperfeitos e inclinados ao mal.

Ano após ano, século após século, Ele continua habitando nos santos — e continuará até que todos os eleitos estejam na glória.

Assim, enquanto adoramos o Filho encarnado, também devemos adorar o Espírito que habita em nós, enviado pelo Pai.

Observem agora o lugar onde Ele estabelece sua morada:

“Deus enviou o Espírito de seu Filho aos vossos corações.”

Note que o texto não diz que Ele foi enviado à cabeça ou ao cérebro.

Certamente o Espírito de Deus ilumina o entendimento e guia o julgamento, mas isso não é o início nem a parte principal de sua obra. Ele vem principalmente às afeições; Ele habita no coração, pois com o coração o homem crê para a justiça.

Por isso se afirma novamente:

“Deus enviou o Espírito de seu Filho aos vossos corações.”

O coração é o centro do nosso ser. Por essa razão o Espírito Santo ocupa esse lugar estratégico. Ele entra na fortaleza central da nossa natureza, tomando posse de tudo.

O coração é a parte vital do homem; falamos dele como a principal sede da vida. Por isso o Espírito Santo entra nele. O Deus vivo habita no coração vivo, tomando posse do núcleo mais profundo do nosso ser.

É do coração que a vida se espalha por todo o corpo. O sangue é enviado até as extremidades pelas batidas do coração. Assim também, quando o Espírito de Deus toma posse das afeições, Ele atua sobre todas as capacidades, faculdades e partes do nosso ser.

Pois do coração procedem as fontes da vida. E das afeições santificadas pelo Espírito Santo, todas as demais faculdades e poderes recebem renovação, iluminação, santificação, fortalecimento e, finalmente, perfeição.

Essa maravilhosa bênção é nossa “porque somos filhos”, e ela produz resultados extraordinários.

A filiação confirmada pelo Espírito que habita em nós traz paz e alegria; conduz à proximidade com Deus e à comunhão com Ele; desperta confiança, amor e profundo desejo; e gera em nós reverência, obediência e verdadeira semelhança com Deus.

Tudo isso — e muito mais — acontece porque o Espírito Santo veio habitar em nós.

Oh, que mistério incomparável! Se isso não tivesse sido revelado, jamais poderia ter sido imaginado; e mesmo agora que foi revelado, dificilmente teria sido acreditado, se não tivesse se tornado uma experiência real para aqueles que estão em Cristo Jesus.

Há muitos que professam a fé, mas nada sabem sobre isso. Eles nos escutam com confusão, como se estivéssemos narrando uma história vazia, pois a mente carnal não compreende as coisas de Deus. Essas coisas são espirituais e somente podem ser discernidas espiritualmente.

Aqueles que não são filhos — ou que se tornam filhos apenas segundo a lei natural, como Ismael — nada sabem sobre esse Espírito que habita em nós. Pelo contrário, ficam indignados conosco por ousarmos afirmar que possuímos uma bênção tão grande.

No entanto, essa bênção é nossa, e ninguém pode tirá-la de nós.

Amém!

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23:55

Charles Haddon Spurgeon - sermon
# A Dignidade dos Crentes

### Por Charles Haddon Spurgeon

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A adoção nos concede os direitos de filhos; a regeneração nos concede a natureza de filhos. Nós participamos de ambas, pois somos filhos.

Observemos aqui que essa filiação é um dom da graça recebido pela fé. Não somos filhos de Deus por natureza no sentido aqui descrito.

Em certo sentido, somos “descendência de Deus” por natureza, mas isso é muito diferente da filiação descrita aqui, que é o privilégio especial daqueles que nasceram de novo.

Os judeus alegavam pertencer à família de Deus; mas como seus privilégios vinham por meio do nascimento natural, eles são comparados a Ismael, que nasceu segundo a carne, mas foi expulso como filho da escrava e teve de dar lugar ao filho da promessa.

Nós possuímos uma filiação que não vem da natureza, pois fomos:
“gerados não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”

Nossa filiação vem pela promessa, pela operação de Deus como um dom especial a uma descendência escolhida, separada para o Senhor por sua própria graça soberana, assim como aconteceu com Isaque.

Esse privilégio e honra chegam a nós, conforme o contexto do texto, por meio da fé.

Observe bem o versículo do capítulo anterior:
“Pois todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:26)

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# A Filiação Recebida Pela Fé

Como incrédulos, nada sabemos sobre a adoção. Enquanto estamos debaixo da lei, confiando em nossa própria justiça, conhecemos algo de servidão, mas nada sabemos sobre filiação.

Somente depois que a fé chega é que deixamos de estar sob o tutor e saímos da nossa condição de menoridade para assumir os privilégios dos filhos de Deus.

A fé opera em nós o espírito de adoção e a consciência de que somos filhos da seguinte maneira:

Primeiro, ela nos traz justificação.

O versículo vinte e quatro do capítulo anterior diz:
“A lei foi nosso tutor para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados pela fé.”

Um homem não justificado encontra-se na condição de criminoso, não de filho: seu pecado é colocado em sua conta, ele é considerado injusto e ímpio — como de fato realmente é — e, portanto, é um rebelde contra seu Rei, e não um filho desfrutando do amor de seu Pai.

Mas quando a fé reconhece o poder purificador do sangue da expiação e se apega à justiça de Deus em Cristo Jesus, então o homem justificado torna-se filho e criança de Deus.

Justificação e adoção sempre caminham juntas.

“Aos que chamou, também justificou”; e esse chamado é um chamado para a casa do Pai e para o reconhecimento da filiação.

Crer traz perdão e justificação por meio de nosso Senhor Jesus; e também traz adoção, pois está escrito:
“Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome.”

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# Libertação da Escravidão da Lei

A fé também nos leva a experimentar nossa adoção ao nos libertar da escravidão da lei.

“Depois que veio a fé, já não estamos mais debaixo de um tutor.”

Quando gemíamos sob a consciência do pecado e estávamos presos por ele como em uma prisão, temíamos que a lei nos punisse por nossa iniquidade, e nossa vida se tornava amarga por causa do medo.

Além disso, em nossa maneira cega e autossuficiente, tentávamos guardar essa lei, e isso nos levava a outra forma de escravidão, que se tornava cada vez mais pesada à medida que um fracasso seguia o outro.

Pecávamos e tropeçávamos cada vez mais, para confusão de nossa própria alma.

Mas agora que a fé chegou, vemos a lei cumprida em Cristo, e vemos a nós mesmos justificados e aceitos nele.

Isso transforma o escravo em filho e o dever em escolha.

Agora nos alegramos na lei, e pelo poder do Espírito caminhamos em santidade para a glória de Deus.

Assim, ao crermos em Cristo Jesus, escapamos de Moisés, o capataz, e vamos para Jesus, o Salvador.

Deixamos de ver Deus como um Juiz irado e passamos a vê-lo como nosso Pai amoroso.

O sistema de mérito, mandamentos, punição e medo deu lugar ao governo da graça, da gratidão e do amor — e esse novo princípio de vida é um dos grandes privilégios dos filhos de Deus.

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# A Fé Como Marca da Filiação

Agora, a fé é a marca da filiação em todos os que a possuem, sejam eles quem forem, pois está escrito:

“todos vocês são filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gálatas 3:26)

Se você está crendo em Jesus, seja judeu ou gentio, escravo ou livre, você é filho de Deus.

Se você começou a crer em Cristo apenas recentemente, e somente nas últimas semanas tem conseguido descansar em sua grande salvação, ainda assim, amado, agora você é filho de Deus.

Isso não é um privilégio tardio, concedido apenas quando a pessoa alcança segurança ou grande crescimento na graça.

É uma bênção inicial, que pertence até mesmo àquele que possui o menor grau de fé, que não passa de um bebê na graça.

Se um homem é crente em Jesus Cristo, seu nome está registrado no livro da grande família celestial.

Mas se você não tem fé, não importa o zelo que possua, não importa suas obras, não importa seu conhecimento, nem mesmo suas pretensões de santidade — você não é nada, e sua religião é vã.

Sem fé em Cristo você é como bronze que soa ou címbalo que retine, pois sem fé é impossível agradar a Deus.

Portanto, onde quer que a fé seja encontrada, ela é o sinal infalível de um filho de Deus, e sua ausência destrói qualquer pretensão a essa condição.

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# O Batismo Como Testemunho Público

Segundo o apóstolo, isso também é ilustrado pelo batismo.

Leia o versículo 27:
“Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes.”

No batismo você declarou estar morto para o mundo, e por isso foi sepultado no nome de Jesus.

O significado desse sepultamento, se realmente teve algum significado para você, foi que você confessou que daquele momento em diante estaria morto para tudo, exceto para Cristo, e que sua vida passaria a estar nele, vivendo como alguém ressuscitado dentre os mortos para uma nova vida.

É claro que a forma exterior nada aproveita ao incrédulo; mas para o homem que está em Cristo, ela é uma ordenança profundamente instrutiva.

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# Herdeiros de Deus

Assim, já não és servo, mas filho; e se és filho, também és herdeiro de Deus por meio de Cristo.

Nenhum ser humano jamais compreendeu plenamente o que isso significa.

Os crentes já são herdeiros neste momento, mas qual é a herança?

É o próprio Deus.

Somos herdeiros de Deus — não apenas das promessas, dos compromissos da aliança e de todas as bênçãos pertencentes ao povo escolhido, mas herdeiros do próprio Deus.

“O Senhor é a minha porção”, diz a minha alma.

“Este Deus é o nosso Deus para todo o sempre.”

Oh, que privilégios pertencem aos filhos de Deus!


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22:52

 
C.H. Spurgeon

Adoção — O Espírito e o Clamor
Por: Charles Haddon Spurgeon.

“E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.” — Gálatas capítulo 4 verso 6

   Não encontramos nas Escrituras a doutrina da Trindade em Unidade apresentada em termos formais, como aqueles usados no Credo Atanasiano; mas essa verdade é constantemente assumida, como se fosse um fato bem conhecido na igreja de Deus. Mesmo que não seja frequentemente apresentada em palavras exatas, ela aparece em toda parte de forma implícita, sendo mencionada incidentalmente em conexão com outras verdades, de maneira tão clara quanto se estivesse expressa em uma fórmula definida.

   Em muitas passagens essa verdade é apresentada de forma tão evidente que precisaríamos ser deliberadamente cegos para não percebê-la. No capítulo presente, por exemplo, encontramos menção clara de cada uma das três Pessoas divinas. “Deus”, isto é, o Pai, “enviou o Espírito”, isto é, o Espírito Santo; e aqui Ele é chamado de “o Espírito de seu Filho”.

   Não encontramos apenas os nomes, pois cada Pessoa divina é mencionada como atuando na obra da nossa salvação. Veja o versículo quatro: “Deus enviou o seu Filho.” Depois observe o versículo cinco, que fala do Filho redimindo aqueles que estavam debaixo da lei; e então o próprio texto revela o Espírito vindo ao coração dos crentes e clamando: “Aba Pai.”

   Assim, não temos apenas os nomes separados, mas também certas operações específicas atribuídas a cada Pessoa; portanto, fica claro que há aqui a personalidade distinta de cada uma. Nem o Pai, nem o Filho, nem o Espírito podem ser apenas uma influência ou um simples modo de existência, pois cada um age de maneira divina, mas com uma esfera própria e um modo distinto de atuação.

   O erro de considerar uma pessoa divina apenas como uma influência ou emanação geralmente é dirigido contra o Espírito Santo. Mas sua falsidade é claramente vista nas palavras: “clamando: Aba Pai.” Uma influência não poderia clamar; esse ato exige uma pessoa que o realize.

   Embora possamos não compreender completamente a maravilhosa verdade da Unidade indivisível e da personalidade distinta da Trindade divina, ainda assim vemos essa verdade revelada nas Escrituras Sagradas; portanto, nós a aceitamos como uma questão de fé.

   A divindade de cada uma dessas Pessoas também pode ser percebida no texto e em seu contexto. Não duvidamos da união amorosa de todas na obra de libertação.

   Reverenciamos o Pai, sem o qual não teríamos sido escolhidos nem adotados — o Pai que nos gerou novamente para uma viva esperança pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos.

   Amamos e reverenciamos o Filho, por cujo preciosíssimo sangue fomos redimidos, e com quem estamos unidos em uma união mística e eterna.

   E adoramos e amamos o Espírito divino, pois é por meio dele que fomos regenerados, iluminados, vivificados, preservados e santificados. É também por meio dele que recebemos o selo e o testemunho em nossos corações, pelos quais somos assegurados de que realmente somos filhos de Deus.

   Assim como Deus disse antigamente: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, também as Pessoas divinas deliberam juntas e todas cooperam na nova criação do crente.

   Não devemos deixar de bendizer, adorar e amar cada uma dessas exaltadas Pessoas, mas devemos humildemente nos curvar diante do único Deus — Pai, Filho e Espírito Santo.

“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; como era no princípio, agora é, e sempre será, por todos os séculos. Amém.”

   Tendo observado esse fato tão importante, vamos agora ao próprio texto, esperando desfrutar da doutrina da Trindade enquanto refletimos sobre nossa adoção, nessa maravilhosa graça da qual cada uma das Pessoas divinas participa.

   Que, sob o ensino do Espírito Santo, sejamos conduzidos a uma doce comunhão com o Pai, por meio de seu Filho Jesus Cristo, para a glória dele e para o nosso benefício.

Três coisas são claramente apresentadas em nosso texto:
A dignidade dos crentes — “sois filhos”.
A consequente habitação do Espírito Santo — “porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho”.
O clamor filial — “Aba Pai”

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23:56

A Interpretação das Escrituras

Por: Arthur Walkington Pink

Tiago 1.13: “...Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta”. Esses versículos parecem uma flagrante contradição; contudo, o crente sabe que não é esse o caso, ainda que não saiba explicar o que está acontecendo. Por isso, o significado desses versículos precisa ser esclarecido. E isso não é difícil de fazer. É evidente que a palavra “tentar” não é usada com o mesmo sentido em ambas as passagens.

A palavra “tentar” possui um significado primário e um secundário. Primariamente, significa fazer uma experiência, provar, testar. Secundariamente, significa seduzir, incitar para o mal.

Sem sombra de dúvida, o termo é usado em Gênesis 22.1 no sentido primário, porque, mesmo que Deus não tenha interferido até o último momento, Abraão não cometeu pecado ao sacrificar Isaque, uma vez que foi Deus quem ordenou que o fizesse.

Quando lemos que Deus tentou Abraão nessa ocasião, não devemos entender que Deus o incitou para o mal, como Satanás o faz; antes, devemos compreender que Ele testou a lealdade do patriarca, suprindo-lhe uma oportunidade de comprovar o seu temor de Deus, sua fé nEle e seu amor a Ele.

Quando Satanás tenta, apresenta-nos uma sedução com o objetivo de provocar nossa queda; mas, quando Deus nos tenta ou testa, Ele tem como objetivo o nosso bem-estar. Toda prova é, assim, uma tentação, porque serve para manifestar aquilo que está no coração, quer seja santo, quer seja impuro.

Cristo foi “tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hebreus 4.15). A sua tentação foi real; contudo, não houve conflito dentro dEle, como acontece conosco, entre o bem e o mal. A Sua santidade inerente repeliu as ímpias sugestões de Satanás como a água repele o fogo.

Devemos considerar como motivo de grande alegria quando “cairmos em várias tentações” ou “várias provas”, uma vez que são meios de mortificar nossos apetites, testam nossa obediência e constituem oportunidades de provar a suficiência da graça de Deus. É evidente que não somos exortados a nos regozijar nas instigações para o pecado.

Outro caso: “O SENHOR está longe dos perversos” (Provérbios 15.29); contudo, em Atos 17.27, somos informados de que Deus “não está longe de cada um de nós”, palavras dirigidas a uma audiência pagã.

Essas duas afirmações parecem contraditórias — sim, a não ser que sejam interpretadas como de fato são. Temos, então, de averiguar em que sentido Deus está “longe” dos perversos; isso é o que queremos dizer com “interpretação”.

É necessário traçar uma distinção entre a presença poderosa e providencial de Deus e a Sua presença aprovadora. Quanto à Sua essência espiritual, ou onipresença, Deus está sempre próximo de todas as Suas criaturas, porque Ele “enche os céus e a terra” (Jeremias 23.24), sustentando-lhes a existência, preservando-lhes a alma com vida (Salmo 64.9) e concedendo-lhes as misericórdias do Seu cuidado.

Mas, visto que os perversos estão longe de Deus em suas afeições (Salmo 73.27), dizendo no coração: “Retira-te de nós! Não desejamos conhecer os teus caminhos” (Jó 21.14), a graciosa presença de Deus está longe deles: Ele não Se manifesta a eles, não tem comunhão com eles, não lhes ouve as orações (“os soberbos, ele os conhece de longe”, Salmo 138.6), não os socorre quando têm necessidade de socorro e ainda lhes haverá de dizer: “Apartai-vos de mim, malditos” (Mateus 25.41).

Quanto aos justos, Deus está graciosamente perto deles (Salmos 34.18; 145.18).

FONTE: A Interpretação das Escrituras — Capítulo 1, página 4 — Arthur Walkington Pink

15:30

Robert Murray M'Cheyne
Robert Murray M'Cheyne 
Salmo 51:17 

     Nenhum outro salmo expressa tão plenamente a experiência pela qual passa a alma que tem sido guiada ao arrependimento: sua humilde confissão de pecado (v. 3,4 e 5); seu desejo intenso de ser perdoado pelos méritos do sangue de Cristo (v. 7); sua ansiedade para que o Senhor lhe conceda um coração puro (v.10); sua vontade de oferecer algo a Deus por todos seus benefícios.

    Diz o salmista que ele ensinará aos prevaricadores o caminho de Deus; diz que seus lábios, pela graça de Deus, se abrirão para proclamar os louvores a Deus; manifesta que oferecerá a Deus um espírito quebrantado e humilhado (vs. 16,17). Vem assim dizer que, do mesmo modo que tem oferecido (seguindo os ritos mosaicos) numerosos cordeiros imolados em ações de graça a Deus, também agora oferecerá a Ele, como um cordeiro imolado, seu coração quebrantado. Cada um que tem pedido o mesmo perdão de Deus e que chegou, no passado, à mesma resolução de oferecer a Deus um coração quebrantado, poderá receber de graça esta bênção hoje.

      1. O coração natural é um coração não ferido, não quebrantado.

    A lei de Deus, suas misericórdias, as aflições que acontecem não quebrantam o coração natural. Ouve falar da Lei de Deus, de Suas misericórdias e continua impassível. É mais duro que uma pedra. Nada há no universo tão duro. “Ouvi-me, vós que sois de coração obstinado (duro), que estais longe da justiça” (Is. 46:12). “Nós já percorremos a terra, e eis que toda a terra está agora repousada e tranqüila” (Zc. 1:11). “Naquele dia esquadrinharei a Jerusalém com lanternas, e castigarei os homens que estão apegados à borra do vinho (“assentados sobre as suas fezes” - outra versão), e dizem no seu coração: O Senhor não faz bem nem faz mal”. (Sofonias 1:12). “... endureceram os seus rostos mais do que a rocha; não quiseram voltar’ (Jr. 5:3). “Levantai-vos, mulheres que viveis despreocupadamente, e ouvi a minha voz; vós, filhas, que estais confiantes...” (Is. 32:9-11).

     Por quê? Por que é tão duro o coração natural?

     Primeiro: Porque há um véu sobre ele. Porque o coração do homem natural se acha coberto por um espesso véu. Não crê na Bíblia, nem nos escritos da Lei, nem na ira que há de vir; um trágico véu cobre seus olhos. 

   Segundo: Porque Satanás é dono do coração natural. Satanás levalhe a semente perniciosa tão prontamente como possa.

    Terceiro: Porque o homem natural está morto em seus delitos e pecados. Os mortos não ouvem, não sentem; carecem de sentimentos e sensibilidade espiritual.

   Quarto: Porque se tem construído uma barreira de despreocupação que lhe será mortal. O coração natural confia mais em qualquer refúgio falso, refúgio de mentira, como diz a Bíblia. Confia em rezas ou em esmolas.

    Peça a Deus que o livre da maldição de um coração morto, não quebrantado, não contrito e humilhado. 

    Primeiro, porque não passará muito tempo tranqüilo em sua falsa confiança; você se achará sobre lugares escorregadios e as ondas do oceano rugindo sob seus pés.

    Segundo, porque Deus lhe demonstrará a eternidade com todo o seu infortúnio. Se você se voltar agora, há esperança certa de perdão. Cristo está pronto a perdoar. Mas depois, na eternidade, Seu juízo cairá sobre você.

     2. O coração despertado é um coração ferido, porém não quebrantado, não roto.

a.  A lei inflige a primeira ferida. Quando Deus se dispõe a salvar uma alma a leva primeiramente a preocupar-se com seus pecados. “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas que estão escritas neste livro da lei, para praticá-las” (Gl. 3: 10). “Outrora, sem lei, eu vivia; mas sobrevindo o preceito, reviveu o pecado, e eu morri” (Rm.6:21). A vida e o coração de cada um adquirem então tremendas cores.

b.    A majestade de Deus produz a segunda ferida. O pecador recebe a sensibilidade que lhe faz sentir a grandeza e a santidade dAquele contra quem tem pecado. “Pequei contra ti, contra ti somente” (v.4).

c.   A terceira ferida procede de sua própria incapacidade para melhorar a si mesmo. Neste estado, todavia, o coração não tem sido quebrantado; o coração se levanta contra Deus. Primeiro, pelo rigor da Lei: “Se não fosse tão exigente... !”. Segundo, porque a fé é o único caminho da salvação e ela é um dom de Deus: “Queria merecer a salvação e ganhá-la”. Terceiro, porque Deus é soberano e pode, ou não, salvar segundo a Sua vontade. Isto é o que há num coração não quebrantado. Não existe outro estado e situação mais miserável.

     Aprendamos que uma coisa é ser despertado, e outra muito diferente é ser salvo.

     3. O coração do crente é um coração quebrantado em dois aspectos.

    Tem sido quebrantado de sua própria justiça e de sua própria possibilidade de justificar-se. Quando o Espírito Santo leva uma alma à cruz, esta se desespera de justificar-se pelos seus próprios méritos e justiça. Todo o seu fardo, todas as suas próprias justiças e suas próprias opiniões se derramam como um líquido que se perde ao romper-se o frasco que o contém.

    Primeiro, porque a obra de Cristo se mostra tão perfeita tanto quanto a sabedoria e o poder de Deus. O pecador vê na obra da cruz a justiça de Deus. “Maravilho-me ao pensar que houve um tempo em que busquei outros caminhos de salvação. Pensando podê-los obter com minhas obras, certamente que com todas as minhas forças me lancei a eles. Maravilho-me ao pensar que o mundo não tem compreendido, nem tem aceitado que o único caminho da salvação é a justiça de Cristo” (David Brainerd).

     Segundo. A graça de Cristo tem tanto esplendor!

   Quão maravilhoso é, que toda a justiça de Cristo, tão excelsa e divina, seja oferecida gratuitamente ao pecador!

     Maravilhoso é que eu, que fui deliberadamente negligente, que menosprezei a Cristo, que odiei Sua obra, que coloquei obstáculos ao Seu chamado levantando entre Ele e mim verdadeiras montanhas, tenha sido objeto de Seu amor e, apesar de tudo, tenha Ele vindo a mim, passando sobre todas elas!

“... para que te lembres, e te envergonhes, e nunca mais fale a tua boca soberbamente, por causa do teu opróbrio, quando eu te houver perdoado tudo quanto fizeste, diz o Senhor Deus” (Ez. 16:63). Você tem este coração quebrantado e contrito diante da visão da cruz de Cristo? Não será uma olhada ao seu próprio coração, ou ao coração do inferno, mas ao coração de Cristo, o que realmente quebrantará seu coração. Peça que Deus lhe dê um coração quebrantado assim!

     O orgulho e a jactância estão excluídos. A Ele seja a glória; digno é o Cordeiro!

    Todas as batalhas e os esforços da alma que busca sua própria justificação têm de ser tirados e desprezados.

    O coração quebrantado tem visto desfeito seu amor para com o pecado - Quando um homem crê em Cristo, percebe que agora o pecado o aborrece. Primeiro, porque o separa de Deus, abrindo entre ele e Deus um grande abismo que arrasta o homem à condenação do inferno.

      Segundo, porque o pecado levou Cristo, o Senhor da glória, à cruz; foi um “grande fardo” que pesou sobre Sua alma, que O fez suar, sangrar e morrer. Terceiro, porque é o sofrimento do coração de Cristo agora. Toda a minha infelicidade se deve ao fato de ser um pecador. Agora o crente se lamenta e chora por haver pecado contra quem tanto o ama: “Então recordarás teus caminhos e todas as coisas nas quais tens vivido impiamente e te aborrecerás de ti mesmo”.


FONTE: Revista Os Puritanos.  ATRAVÉS DE: Monergismo .com

13:50
Herman Hanko
Mas, o Que é a Fé Reformada? - Herman Hanko

   Como a fé reformada é a verdade a respeito de Deus, ela ensina - assim como Calvino - que Deus é o único Deus, absolutamente soberano em todas as Suas obras e caminhos. Ele faz tudo de acordo com Sua boa vontade e realiza todo o Seu soberano propósito. A fé reformada ensina que Deus é o Criador do céu e da terra. Ele sustenta todas as coisas pela Palavra de Seu poder e rege todas as criaturas pelo Seu soberano poder. Logo, todas as criaturas somente efetuam a Sua vontade. Esta não é apenas uma verdade para as estrelas que Ele move em seus cursos no firmamento. Não é apenas uma verdade para o besouro em seu caminho pela calçada. Ela é verdade também no coração dos reis. "Pois o coração do rei", Salomão diz, "é como um rio controlado pelo Senhor; Ele o dirige para onde quer" - Pv 21v1.

   A fé reformada crê em um Deus soberano. A fé reformada crê, como Isaías proclama, que até mesmo a Síria - a potência mundial da época - era uma serra e um machado na mão do Senhor, para serrar e talhar conforme Ele desejava (v. Is 10v15). A fé reformada ensina que embora nosso Senhor Jesus Cristo foi entregue por Pilatos, Herodes e pelas mãos ímpias dos judeus, mesmo assim foi de acordo com o determinado conselho e presciência de Deus (v. At 2v23). A fé reformada crê, como o profeta Amós reconheceu, que se existe mal na cidade, o Senhor o fez (v. Am 3v6). Esta é a fé reformada. O Senhor é soberano. O Senhor realiza toda a Sua boa vontade. O Senhor faz o que Lhe apraz em cima nos céus e em baixo na terra. O Senhor põe reis em seus tronos e os tira segundo a Sua vontade.

   A fé reformada exige a resposta para esta questão confrontadora: É nossa doutrina essa que contempla a soberania do Senhor dos céus e da terra? Esta é, afinal, a questão que enfrentamos. Por acaso, nós desejamos, adoramos, servimos e colocamos nossa confiança na soberania de Deus? Ou é satisfatório para nós termos um ídolo impotente diante da soberana vontade do homem? Nós estamos servindo algo que é incapaz de salvar aqueles a quem ele deseja trazer para o céu: Um Deus que implora, um Cristo que implora enquanto o homem é soberano para fazer o que lhe apraz? Este tipo de Deus eu não preciso e não quero. Eu preciso de um Deus que pode salvar um desamparado, depravado e pecador corrupto. Se eu não tiver este tipo de Deus, não há esperança alguma.

   A fé reformada acredita - e Calvino ensinava - que Deus é soberano sobre todo o trabalho da salvação, do começo ao fim. O homem não contribui em nada. A fé reformada crê - e Calvino ensinava - que desde a eternidade, antes da fundação do mundo e antes dos fundamentos da criação terem sido estabelecidos, Deus escolheu para Si mesmo - sem qualquer consideração aos trabalhos ou méritos humanos - um povo que Ele deu à Cristo (v. Ef 1v4). Estes foram destinados para serem d'Ele e foram destinados a viver com Ele em eterna glória no mundo vindouro.

   Deus soberanamente determinou aqueles que seriam os réprobos (v. Rm 9v22). Ele determinou como manifestação de Sua justiça que os réprobos revelariam esta justiça quanto aos seus pecados eternamente no inferno.

   Deus, como soberano Senhor, deu Seu filho, não para morrer por todos os homens, mas para morrer pelas Suas ovelhas (v. Mt 1v21). Ele fez expiação por aqueles que foram dados à Ele pelo Pai (v. Jo 6v37). Assim, Ele por Sua obediência perfeita na cruz, conquistou para Seus eleitos - que são preciosos aos Seus olhos - a plenitude da salvação eterna.

   A fé reformada ensina que o Espírito de Cristo - que é o Senhor exaltado à direita de Deus - é irresistível em Seu poder salvífico. Este Espírito passa por toda a extensão da vasta criação. Ele conhece quais são os eleitos por quem Cristo morreu, e por quem Ele derramou Seu sangue. Ele entra em seus corações, subjuga sua resistência, demole as paredes de sua rebelião e vence seu amargo ódio e inimizade contra Deus. Ele saqueia as cidadelas da sua incredulidade. Movendo-se em seus corações, Ele faz de pecadores, santos. De blasfemos, Ele cria aqueles cujas bocas exaltarão a Deus. Através de um poder irresistível e poderoso Ele os transforma e liberta da escravidão do pecado.

   A fé reformada crê e ensina - assim como Calvino ensinava - que o homem é totalmente depravado (v. Rm 3). Ele é tão depravado que não é somente incapaz de fazer nenhum bem, mas também, nem se quer deseja o bem. Ele é incapaz de querer o bem. Ele é incapaz buscar o bem. Ele é incapaz de procurar por isto. Ele não tem nenhum desejo por isto. Tudo o que ele tem é ódio e amargura, um ódio eterno e implacável por tudo o que é bom e tudo o que vem de Deus. Sua salvação depende em sua totalidade do trabalho soberano e irresistível do Espírito.

   A fé reformada ensina - e Calvino ensinava - que "uma vez filho de Deus, sempre filho de Deus" (v. Fp 1v6). Assim como o próprio Senhor disse em João 10 verso 28: "Ninguém as poderá arrancar da minha mão". Podemos até cair profundamente no pecado, desviar-nos para muito longe do caminho dos mandamentos de Deus, porém, ainda assim seremos mantidos seguros pela poderosa mão de nosso Salvador - que nos preserva e nos mantém. Ele irá mais uma vez, mesmo que seja através do castigo, restaurar-nos em arrependimento e confissão. Então, cairemos de joelhos e clamaremos por perdão, enquanto o Espírito nos guiará à cruz. Em seguida, mais uma vez, nos apegaremos ao corpo ensanguentado de nosso Salvador.

   A fé reformada ensina que a salvação é uma obra de Deus desde o princípio até sua definitiva e perfeita conclusão, na ressurreição do corpo e na vida eterna no céu.

   A fé reformada ensina que a fé - pela qual nós nos unimos a Cristo - não vem de nós mesmos, ela é um presente de Deus (v. Ef 2v8). Deus não apenas nos dá o capacidade para crer, mas também opera em nós o próprio ato de crer. A fé reformada ensina que, por este motivo, o evangelho não é um convite, não é uma proposta, não é uma expressão do amor universal de Deus, não é uma oferta de um Salvador suplicante. Ao invés disso, ela é - assim como Paulo disse em Romanos 1 verso 16 - "O poder de Deus para a salvação".

   A fé reformada não crê que Deus ama todos os homens, nem que todos os homens são objetos do Seu favor e de Sua graça. Bem pelo contrário, Deus se ira com o ímpio todos os dias, assim como o salmista diversas vezes expressa (v. Sl 7v11 etc.) A fé reformada crê, assim como o sábio expressa em Provérbios 3 verso 33, que "a maldição do Senhor está sobre a casa dos ímpios, mas ele abençoa o lar dos justos". A fé reformada acredita que não há nada além de ódio, nada além de maldição para os ímpios. E Deus os coloca - assim como Asafe canta em Salmos 73 verso 18 - em lugares escorregadios de destruição.

   A fé reformada ensina - e Calvino ensinava - que todas as coisas são para a salvação dos eleitos por quem Cristo morreu (v. Rm 8v28). A fé reformada ensina estas doutrinas pois elas sustentam que Deus é Deus! Que Ele faz toda a Sua boa vontade. Que Ele é o único soberano e o Santo de Israel a Quem pertence todo o louvor, a glória e o poder para sempre. Esta é a fé reformada. E somente ela é a fé reformada.

   Aquele que nega estas verdades não é reformado. Aquele que defende alguma outra ideia, não pode reivindicar a si mesmo o nome "reformado". Desde os dias do reformador de Genebra, nunca foi reformado ensinar nada além disto, não é agora, e nunca será até que o Senhor volte.

   Aqueles que afirmam ser reformados e ensinam o contrário, ou fazem isto por ignorância ou estão marchando sob uma bandeira falsa. Eles hasteiam a bandeira do exército de Sua Majestade em embarcações piratas. Eles fazem isto para que com engano possam espreitar aqui e ali e enganar a outros, levando-os à destruição. Estes são inimigos da fé reformada. Vamos ter certeza que nós entendemos isto.

   O Senhor foi muito claro quando disse aos Seus discípulos, há somente duas posições que vocês podem ocupar: Ou você é por Mim ou você está contra Mim (v. Mt 12v30) ou um ou outro. Não há terreno neutro. Não existe uma área "cinza" onde o homem pode ficar enquanto ele se decide. Ou você é pela fé reformada, ou você é contra ela. Ou você acredita nela e a ama com cada fibra de seu corpo, ou você se opõe a ela. A fé reformada requer por si mesma este tipo de exclusividade, pois ela afirma a exclusividade da Escritura e de um Deus soberano, que revelou a Si mesmo nas páginas da Sagrada Escritura.

   Em segundo lugar, a fé reformada é uma visão "do mundo e da vida": É a maneira como se olha para o mundo.

   A fé reformada ensina que um filho de Deus, um filho eleito que crê em Deus - que está no meio do mundo - deve usar as palavras de Jesus em João 17 verso 14 - "Embora no mundo, não são do mundo". Vamos deixar isto bem claro, que a doutrina e a vida andam juntas.

   Que tragédia é que no nosso século doutrinariamente analfabeto, em nossos tempos de negligência e indiferença doutrinária, as pessoas "piedosamente" tagarelam sobre o fato que a doutrina é insignificante. "Isto faz diferença apenas quanto à como se vive" - eles dizem. Por acaso, toda a fé reformada e toda a religião cristã é reduzida a um jogo moral? Esta é a posição que nós devemos tomar? Deus nos livre! Moralidade sem doutrina é igual a nada. O mundo - o mundo dos incrédulos, o mundo dos pagãos - tem produzido alguns dos homens mais morais de todos os tempos. A filosofia grega produziu homens de grande estatura moral. Isto é cristianismo? Isto é a fé reformada? Não. Doutrina e vida andam juntas. O que um homem acredita, determina sua vida, e se sua vida não está enraizada em sua fé, esta fé não significa absolutamente nada. De fato, o que um homem crê a respeito da verdade da Escritura é por si mesmo um estilo de vida. Isto é o que se entende por "antítese".

   É necessário enfatizar que se - como é tão defendido em nossos dias - Deus ama todos os homens, que todos os homens são alvos de Sua graça, que todos são alvos de Sua benevolência, bondade e graciosidade; se todos os homens são alvos de Sua "graça comum", e se todos são alvos de Seu amor revelado na cruz - onde Cristo morreu por todos os homens cabeça por cabeça - então não há lugar para nenhuma "antítese" entre o mundo e a igreja.

   Se Deus ama todos os homens, se Deus é gracioso para com todos os homens, se Deus é amável para com todos os homens, isto resulta em um certo tipo de bondade que você encontra no mundo em geral. Embora haja monstros de iniquidade, Stalins e Hitlers na história, de modo geral os homens têm muita bondade em si mesmos. Eles são homens da filantropia. Eles são homens capazes de produzir obras formidáveis no campo das artes: Pinturas encantadoras e composições musicais de glória insuperável. Eles são capazes de dar seus milhões aos trabalhos filantrópicos, tais como construir hospitais. Eles são capazes de lutar por boas metas neste mundo de pecado, metas tais como por exemplo, um mundo no qual a paz reine e as guerras sejam abandonadas. E até mesmo você encontrará no mundo, alguns homens bondosos que se opõem ao aborto, a homosexualidade e as corrupções da depravação sexual e perversidades. No entanto, se você atribuir todas estas coisas a obra da graça, bondade e benevolência de Deus através da operação universal de Seu Espírito e Sua bondade para com todos, então você verá que por este tipo de "graça comum", você destruirá o profundo abismo que Deus estabeleceu entre a igreja e o mundo. A graça comum constrói uma ponte sobre o abismo. A graça comum permite que o mundo inunde a igreja e a igreja se lance avidamente no mundo. Ela encoraja que a igreja se una com o mundo em todos os tipos de causas comuns. Quer seja no campo científico, no campo da filantropia, no campo da moralidade, no campo da política - no interesse de colocar certos homens nos cargos - no campo da economia ou qualquer outro, existe então uma abundância de espaço para cooperação e acordos. Há muitas ocasiões para o ímpio e o justo trabalharem juntos, lado a lado.

   A fé reformada pronuncia com toda a sua força um anátema, um anátema feroz a todo tipo de pensamento como este.

   "Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente? Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos? Pois somos santuário do Deus vivo. Como disse Deus: 'Habitarei com eles e entre eles andarei; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo'. Portanto, 'saiam do meio deles e separem-se', diz o Senhor"- 2 Co 6v14-17.

   Essa é a fé reformada: A faca cortante da antítese atravessa cada parte da vida do filho de Deus no mundo.

   Sim, nós estamos no mundo e o ímpio está no mundo. O ímpio trabalha próximo a nós nas fábricas e mora ao nosso lado, na mesma rua. Nós vamos ao mesmo supermercado, comemos a mesma comida e partilhamos da criação de Deus de forma igual e comum. Não existe nenhum questionamento sequer a respeito disso. Mas em cada parte de sua vida, sem exerção, o incrédulo vive partindo do princípio do ódio a Deus, o cristão vive partindo do princípio da vida de Cristo em seu coração. Paulo ainda fala sobre o fato que nosso choro é fundamentalmente diferente do choro do ímpio: "A tristeza segundo Deus não produz remorso, mas sim um arrependimento que leva à salvação, e a tristeza segundo o mundo produz morte" - 2 Co 7v10. Sua alegria é diferente da risada do mundo. Toda a sua vida é diferente, pois há vida em você, pelo poder do Espírito de Cristo, a vida do céu. Você é um cidadão do reino dos céus. Você está andando nesta vida como um peregrino e um estrangeiro na terra. Você é "indiferente" para as coisas deste mundo presente. Sua cidadania é a do alto. O alvo de sua jornada terrena é a casa de seu Pai. As coisas deste mundo somente chamam sua atenção na medida em que elas são necessárias para que você continue seu chamado como um peregrino e estrangeiro, em agradecimento ao Pai celestial. Você serve o Senhor Cristo por toda a sua vida e o reino d'Ele não é deste mundo. O reino Dele é do céu (v. Jo 18v36).

   A fé reformada tem tido como lema - desde os dias de João Calvino - o seguinte: "A igreja reformada é uma igreja se reformando". O que isto significa? Significa, em poucas palavras, que nenhuma igreja jamais pode ficar estagnada. Uma igreja estagnada é como uma poça de água parada: Esta logo é coberta com limo verde e começa a feder. Uma igreja não pode ficar estagnada. Ou ela se move para frente ou ela resvala para trás, um ou outro. A grande tragédia de nossos dias é que a igreja, a igreja nominal - que chama a si mesma de "igreja"- tem ido para trás. E ela tem ido tão longe para atrás, que não somente tem perdido qualquer senso do que significa ser "reformado", mas também tem perdido a noção do que significa ser igreja! Embora ela esteja estabelecendo estruturas, tenha poderosos programas - os quais tem custado milhões de libras - embora ela tenha voz ativa sobre todo o tipo de empreendimento social e erga a voz em protesto nos conselhos dos homens e nações, ela deixou de ser "igreja".

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FONTE: O que Significa Ser Reformado, por Herman Hanko
No site: Covenant Protestant Reformed Church (CPRC)

Reforma Radical

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