Paul Washer
Um dos maiores crimes cometidos pela presente geração cristã é a sua negligência para com o evangelho, e uma negligência tal, que todas as nossas mazelas surgem. O mundo perdido não é tão endurecido para com o evangelho quanto é ignorante dele porque muitos daqueles que o proclamam também são ignorantes quanto às suas verdades mais básicas. Os temas essenciais que compõem o núcleo do evangelho – a justiça de Deus, a depravação radical do homem, a expiação pelo sangue, a natureza da verdadeira conversão e a base bíblica para a certeza – estão ausentes de muitos púlpitos. As igrejas reduzem a mensagem do evangelho a algumas afirmações de credo, ensinam que a conversão é uma mera decisão humana e pronunciam a certeza da salvação a qualquer um que faça a oração do pecador.

O resultado desse reducionismo do evangelho é abrangente. Primeiro, ele endurece ainda mais o coração do não convertido. Poucos dos “convertidos” modernos sequer chegam a fazer parte da comunhão da igreja, e aqueles que o fazem frequentemente se desviam ou têm uma vida marcada pela carnalidade. Incontáveis milhões andam por nossas ruas e se sentam nos bancos das nossas igrejas inalterados pelo verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, convencidos ainda de sua salvação porque uma vez em suas vidas levantaram a mão em uma cruzada evangelística ou repetiram uma oração. Essa falsa sensação de segurança cria uma grande barreira que os impede de jamais ouvirem o verdadeiro evangelho.

Segundo, tal evangelho deforma a igreja, que vai de um corpo espiritual de crentes regenerados a um ajuntamento de homens carnais que professam conhecer a Deus, mas que por suas obras o negam. Com a pregação do verdadeiro evangelho, homens vêm à igreja sem precisar de entretenimento evangelístico, atividades especiais ou promessas de benefícios além dos oferecidos pelo evangelho. Aqueles que vêm o fazem porque desejam a Cristo e estão famintos por verdade bíblica, adoração sincera e oportunidade para servir. Quando a igreja proclama um evangelho inferior, ela se enche de homens carnais que têm pouco interesse nas coisas de Deus, sendo a manutenção de tais homens um fardo pesado sobre a igreja. A igreja então atenua as demandas radicais do evangelho em um moralismo conveniente, e a verdadeira devoção a Cristo dá lugar a atividades projetadas para suprir as necessidades de seus membros. A igreja se torna uma igreja baseada em eventos, em vez de centrar-se em Cristo, e cuidadosamente filtra ou repagina a verdade para que não ofenda a maioria carnal. A igreja deixa de lado as grandes verdades da Escritura e o cristianismo ortodoxo, tornando o pragmatismo (i.e., qualquer coisa que mantenha a igreja avançando e crescendo) a norma do dia.

Terceiro, tal evangelho minimiza evangelismo e missões a nada mais do que empreendimentos humanistas dirigidos por engenhosas estratégias de marketing, que são baseadas em um estudo cuidadoso da última moda. Após testemunharem por anos a impotência do evangelho antibíblico, muitos evangélicos parecem estar convencidos de que o evangelho não funcionará e que o homem de alguma forma se tornou um ser muito complexo para ser salvo ou transformado por uma mensagem tão simples e escandalosa. Há agora mais ênfase em entender nossa cultura decaída e seus modismos do que em entender e proclamar a única mensagem que tem poder de salvá-la. Como resultado, o evangelho é constantemente repaginado para corresponder às demandas que a cultura contemporânea considera mais relevantes. Esquecemo-nos que o verdadeiro evangelho sempre é relevante a todas as culturas porque é a palavra eterna de Deus para todo homem.

Em quarto lugar, tal evangelho traz descrédito ao nome de Deus. Pela proclamação de um evangelho inferior, os carnais e os não convertidos se achegam à comunhão da igreja e, graças à quase total negligência à disciplina bíblica da igreja, lhes é permitido que permaneçam sem correção ou reprovação. Isso suja a pureza e a reputação da igreja e faz com que nome de Deus seja blasfemado entre os incrédulos. No fim, Deus não é glorificado, a igreja não é edificada, o membro de igreja não convertido não é salvo e a igreja tem pouco ou nenhum testemunho para o mundo incrédulo.


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Artigo publicado no blog "Cristao Reformado".


FONTE: Paul Washer. O Poder do Evangelho e sua Mensagem. São José dos Campos: Fiel, 2013. pp. 9-10.
TRADUÇÃO: Vinícius Musselman Pimentel.
Reforma Radical

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