Gn 5.24: “E andou Enoque com Deus e já não era; pois Deus o tomou para si”.
São várias as desculpas e razões nas quais os homens de mente depravada amiúde insistem para não prestar obediência aos justos e santos mandamentos de Deus. Porém, talvez uma das objeções mais frequentes que fazem seja esta: que os mandamentos de nosso Deus não são praticáveis porque são contrários à carne e ao sangue; por conseguinte, Ele é um Deus severo, “ceifando onde não semeou e ajuntando onde não espalhou”.
Descobrimos que esses eram os sentimentos nutridos por aquele mau e negligente servo mencionado no capítulo 25 do Evangelho de São Mateus e, sem dúvida, são os mesmos sentimentos cultivados pela geração má e adúltera de hoje.
O Espírito Santo, já prevendo isso, teve o cuidado de inspirar homens santos da Antiguidade para que registrassem exemplos de muitos homens e mulheres piedosos que, mesmo sob a dispensação do Antigo Testamento, foram capazes de alegremente tomar sobre si o jugo de Cristo e considerar o seu serviço como perfeita liberdade.
A grande lista de santos, confessores e mártires registrada no capítulo 11 de Hebreus prova abundantemente essa verdade. Que grande nuvem de testemunhas nos foi apresentada ali! E todas por causa de sua fé, embora algumas tenham brilhado mais intensamente do que outras.
O protomártir Abel lidera o grupo. Em seguida, temos Enoque, não somente porque ele é o próximo na ordem dos relatos bíblicos, mas também devido à sua elevada piedade; dele se fala de maneira extraordinária nas palavras do texto.
Temos aqui um relato conciso, mas muito completo e glorioso, tanto de seu comportamento neste mundo quanto do modo triunfante de sua entrada no outro. O primeiro aspecto está contido nestas palavras: “Enoque andou com Deus”. O segundo, nestas: “ele já não era, pois Deus o tomou para si”.
Ele já não era; ou seja, não foi mais encontrado. Não foi levado da maneira comum; não viu a morte, pois Deus o trasladou (Hb 11.5).
Quem foi esse Enoque não transparece de forma tão explícita. Para mim, ele parece ter sido alguém de caráter público; suponho isso da mesma forma que Noé foi um pregador da justiça.
E, se dermos crédito ao apóstolo Judas, ele era um ardente pregador, pois Judas cita uma de suas profecias, na qual Enoque diz:
“Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para convencer todos os ímpios acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.” (Jd 14–15)
Porém, tenha Enoque sido uma pessoa pública ou comum, o fato é que ele deu um nobre testemunho por meio de suas vívidas profecias.
E observo que foi uma demonstração da maravilhosa sabedoria de Deus trasladar Enoque e Elias sob a dispensação do Antigo Testamento, para que, posteriormente, quando se afirmasse que o Senhor Jesus foi levado ao céu, isso não parecesse de todo inacreditável aos judeus, visto que eles mesmos confessavam que dois de seus próprios profetas haviam sido transportados centenas de anos antes.
Porém, não é meu intento deter-me mais em acréscimos e observações acerca desta breve, mas abrangente, descrição da piedade de Enoque. O que tenho em vista é discorrer, na medida em que o Senhor me capacitar, sobre um assunto momentoso e de grande importância: quero falar sobre o “andar com Deus”.
E “Enoque andou com Deus”. Se isso puder ser dito de você e de mim após a nossa morte, certamente não teremos razão alguma para nos queixarmos de ter vivido em vão.
Desenvolvendo o assunto proposto, pretendo:
Empenhar-me em mostrar o que está implícito nas palavras “andou com Deus”.
Prescrever alguns meios pelos quais os crentes, devidamente obedecendo-os, possam conservar e sustentar seu andar com Deus.
Apresentar algumas razões que nos incentivem, caso nunca tenhamos andado com Deus, a começar agora e caminhar com Ele.
Tudo será encerrado com uma palavra ou duas de aplicação.
Primeiro, tenho de mostrar o que está implícito nas palavras “andou com Deus” ou, em outras palavras, o que devemos entender por andar com Deus.
Isso significa que o poder predominante da hostilidade do coração de uma pessoa foi removido pelo bendito Espírito de Deus.
Talvez isso seja difícil de ouvir para alguns; no entanto, nossa experiência diária confirma o que as Escrituras afirmam em muitas passagens: que a mente carnal, a mente do homem natural não convertido — ou melhor, tudo aquilo que nele permanece não regenerado — é inimizade; não apenas possui inimizade, mas é a própria inimizade contra Deus. Portanto, ela não está sujeita à lei de Deus, nem, de fato, pode estar.
Realmente, é de admirar que alguma criatura — especialmente o homem, essa adorável criatura feita à imagem e semelhança de seu Criador — possua qualquer inimizade, muito menos uma inimizade predominante, contra esse mesmo Deus em quem vive, se move e existe.
Mas, ai de nós! Assim é.
Nossos primeiros pais contraíram essa hostilidade quando, por ocasião da queda, separaram-se de Deus ao comer do fruto proibido. E esse amargo e maligno contágio passou e se espalhou por toda a sua descendência.
Essa inimizade veio à tona quando Adão procurou esconder-se entre as árvores do jardim. Ao ouvir a voz do Senhor Deus, em vez de correr ao seu encontro com o coração aberto, dizendo: “Aqui estou!”, ele não desejava mais comunhão com Deus.
Sua hostilidade tornou-se ainda mais evidente na desculpa que apresentou ao Altíssimo:
“A mulher que me deste por companheira, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi.”
Na prática, Adão responsabilizava Deus. Era como se dissesse:
“Se Tu não me tivesses dado esta mulher, eu não teria pecado contra Ti; portanto, és o culpado da minha transgressão.”
E essa mesma inimizade permanece no coração dos filhos de Adão.
De tempos em tempos, encontram algo contra o que se insurgir diante de Deus, dizendo ainda: “Que fazes Tu?”
Isso leva o homem a ridicularizar tudo o que rivaliza com seus próprios desejos em oposição a Deus.
Como observa o erudito Dr. Owen em seu excelente tratado sobre o pecado interior, essa disposição é semelhante à dos assírios com respeito a Acabe: “Atirai somente contra o rei” (1Rs 22).
Da mesma forma, atacam tudo o que possui aparência de verdadeira piedade, assim como os assírios investiram contra Josafá apenas porque ele vestia trajes reais.
Essa inimizade se revelou no amaldiçoado Caim, que odiou e assassinou seu irmão Abel porque este era amado e particularmente favorecido por Deus.
E essa mesma inimizade governa e prevalece em cada homem gerado da descendência de Adão. Desde cedo, a aversão à oração e aos deveres santos já pode ser observada nas crianças e, com muita frequência, também nos adultos, mesmo quando foram abençoados com uma educação religiosa.
Todo esse pecado e impiedade manifestos, que como um dilúvio têm inundado o mundo, são apenas riachos que fluem desta fonte horrivelmente contaminada; quero dizer, da inimizade do coração humano, desesperadamente corrupto e enganoso.
Aquele que não pode reconhecer essa verdade ainda não conhece, de modo salvífico, nem as Sagradas Escrituras nem o poder de Deus. Pois todo aquele que a compreende prontamente admitirá que, antes que se possa dizer que alguém anda com Deus, esse poder predominante da hostilidade do coração deve ser destruído.
Pessoas que mantêm entre si ódio e inimizade irreconciliáveis não costumam andar juntas nem desfrutar da companhia uma da outra.
Observem bem o que digo: o poder dessa hostilidade predominante deve ser removido, embora a sua essência nunca seja totalmente eliminada até que curvemos definitivamente a cabeça e entreguemos o espírito.
O apóstolo Paulo, falando claramente de si mesmo — e não do tempo em que era fariseu, mas já como verdadeiro cristão — lamenta que, quando queria fazer o bem, o mal estava presente com ele. Não dominava sobre ele, mas se opunha e resistia às suas boas intenções, de modo que não podia fazer as coisas que desejava na perfeição que o novo homem almejava.
É a isso que ele chama de “o pecado que habita em mim”.
E é também a isso que se refere a expressão grega phronēma sarkos que, usando as palavras do nono artigo de nossa igreja, descreve aquilo que alguns chamam de sabedoria da carne, outros de sensualidade, e outros ainda de desejos desordenados, os quais permanecem mesmo naqueles que já foram regenerados.
Entretanto, esse poder é destruído em toda alma verdadeiramente nascida de Deus e vai sendo gradualmente enfraquecido à medida que o crente cresce na graça e o Espírito de Deus exerce cada vez mais domínio sobre o seu coração.
Em segundo lugar, andar com Deus significa não apenas que o poder da inimizade que domina o coração do homem foi removido, mas também que a pessoa foi efetivamente reconciliada com Deus Pai por meio da justiça e da expiação todo-suficientes de seu amado Filho.
“Podem dois caminhar juntos se não houver entre eles acordo?” (Am 3.3).
Jesus é a nossa paz, bem como aquele que realizou a nossa reconciliação.
Quando somos justificados pela fé em Cristo, então, e somente então, temos paz com Deus; e, consequentemente, somente a partir desse momento podemos dizer que andamos com Ele.
Andar com alguém é um sinal e uma prova de amizade; ou, pelo menos, demonstra que, após alguma divergência, houve reconciliação e restauração da amizade.
Esta é a grande mensagem que os ministros do Evangelho proclamam.
A nós foi confiado o ministério da reconciliação. Como embaixadores de Deus, devemos rogar aos pecadores, em nome de Cristo, que se reconciliem com Deus.
E quando eles atendem a esse gracioso convite e são verdadeiramente conduzidos, pela fé, a um estado de reconciliação com Deus, então, e somente então, podem dizer que começaram a andar com Ele.
Em terceiro lugar, andar com Deus implica estabelecer uma firme e permanente comunhão e amizade com Ele, ou aquilo que as Escrituras chamam de “o Espírito Santo habitando em vós”.
Foi isso que nosso Senhor prometeu quando disse aos seus discípulos que o Espírito Santo estaria neles e com eles; não como um viajante que chega para passar uma noite e parte na manhã seguinte, mas para fazer deles a sua morada e estabelecer sua habitação em seus corações.
Creio que é isso que o apóstolo João queria que compreendêssemos quando fala de permanecer em Cristo e andar como Ele andou.
E é isso que particularmente significam as palavras do nosso texto:
“E andou Enoque com Deus.”
Ou seja, ele manteve e cultivou uma santa, firme, habitual, segura e ininterrupta comunhão e amizade com Deus, por meio de Jesus Cristo.
Para resumir o que foi dito nesta parte do primeiro tópico geral, andar com Deus consiste especialmente em:
um constante curvar-se diante da vontade divina;
uma habitual dependência de seu poder e de suas promessas;
uma voluntária dedicação de todo o nosso ser à sua glória;
um exame frequente de seus preceitos em tudo o que fazemos;
e uma disposição constante de agradá-lo em todos os nossos sofrimentos.
Assim acontece com aqueles que andam com Deus. Eles prosseguem, como diz o salmista, “de força em força” ou, na linguagem do apóstolo Paulo, “somos transformados de glória em glória na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”.
De fato, em certo sentido, a vida divina não admite acréscimo nem decréscimo. Quando alguém nasce de Deus, para todos os efeitos, é filho de Deus; e, ainda que viva até a idade de Metusalém, continuará sendo filho de Deus.
Porém, em outro sentido, a vida divina admite declínios e progresso. Por isso encontramos o povo de Deus culpado de apostasia e de haver abandonado o primeiro amor. É também por isso que ouvimos falar de crianças, jovens e pais em Cristo.
Nesse sentido, o apóstolo Paulo exorta Timóteo: “Que o teu progresso seja manifesto a todos”; e o que aqui é exigido de Timóteo em particular, o apóstolo Pedro impõe a todos os cristãos em geral: “Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”.
Pois a nova criatura cresce em estatura espiritual e, embora toda pessoa regenerada seja uma nova criatura, algumas serão mais conformadas à imagem divina do que outras e, após a morte, serão admitidas a maiores graus de bem-aventurança.
Por não observarem essa distinção, algumas almas piedosas — cujos corações são melhores do que seu entendimento — e também homens corruptos, réprobos quanto à fé, têm inadvertidamente incorrido em princípios antinomistas, negando qualquer crescimento da graça no crente ou quaisquer sinais da graça declarados nas Escrituras da verdade.
De tais princípios, e especialmente das práticas que deles resultam, possa o Senhor dos senhores nos livrar!
Do que foi dito, podemos agora compreender o que está contido nas palavras “andar com Deus”, a saber: que foi removida de nós, pelo poder do Espírito de Deus, a inimizade que prevalecia em nossos corações; que agora vivemos reconciliados e unidos a Deus pela fé em Jesus Cristo; que possuímos e cultivamos uma firme comunhão e amizade com Ele; e que fazemos progresso diário em nosso relacionamento com Deus, a fim de sermos cada vez mais conformados à sua imagem.
Como isso é feito, ou, em outras palavras, por quais meios os crentes cultivam e mantêm esse andar com Deus, é o que vamos considerar em nosso segundo tópico geral.
Em primeiro lugar, os crentes mantêm seu andar com Deus por meio da leitura de sua santa Palavra.
“Examinai as Escrituras, porque são elas que testificam de mim”, diz nosso bendito Senhor.
E o nobre salmista declara: “A tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho”, estabelecendo isso como característica do homem piedoso, que “tem o seu prazer na lei do Senhor e nela medita de dia e de noite”.
“Aplica-te à leitura”, diz Paulo a Timóteo.
E Deus disse a Josué: “Não cesse de falar deste Livro da Lei”.
Pois tudo quanto outrora foi escrito, para o nosso ensino foi escrito.
A Palavra de Deus é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, sendo plenamente suficiente para tornar todo filho de Deus perfeitamente habilitado para toda boa obra.
Se nos ensoberbecermos em nosso conhecimento da Bíblia e deixarmos de fazer da Palavra escrita de Deus nossa única regra de fé e conduta, rapidamente ficaremos expostos a toda sorte de enganos e em grande perigo de naufragar na fé e na boa consciência.
Nosso bendito Senhor, embora possuísse o Espírito de Deus sem medida, ainda assim sempre foi guiado pelo “Está escrito” e com ele combateu o diabo.
A isso o apóstolo chama de “a espada do Espírito”.
Dela não podemos dizer, como Davi disse da espada de Golias, que não há outra semelhante.
As Escrituras são chamadas de os vivos oráculos de Deus; não apenas porque são geralmente usadas para criar uma nova vida em nós, mas também porque a mantêm e a desenvolvem em nossas almas.
O apóstolo Pedro, em sua segunda epístola, chega a preferi-las até mesmo à experiência de ter visto Cristo transfigurado no monte.
Pois, depois de dizer: “Essa voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo”, acrescenta:
“Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração.”
Isto é, até que deixemos este corpo e possamos contemplar Jesus face a face.
Até lá, devemos vê-lo e com ele conversar por meio do espelho de sua Palavra.
Devemos fazer de seu testemunho o nosso conselheiro e, diariamente, como Maria, sentar-nos aos pés de Jesus e, pela fé, ouvir sua voz.
Então descobriremos, por feliz experiência, que as Escrituras são verdadeiramente espírito e vida, alimento e bebida para nossas almas.
Em segundo lugar, os crentes devem conservar e sustentar seu andar com Deus por meio da oração secreta.
O espírito da graça vem sempre acompanhado pelo espírito de súplica.
Ele é o próprio fôlego de vida da nova criatura, o sopro da vida divina por meio do qual a centelha do fogo santo é acesa na alma por Deus e não apenas mantida, mas também alimentada até tornar-se uma chama.
A negligência da oração secreta tem frequentemente aberto a porta para muitas enfermidades espirituais e sido acompanhada de consequências fatais.
Não que nosso Senhor deseje que estejamos constantemente de joelhos ou trancados em nossos quartos, negligenciando os deveres da vida diária. O que ele quer dizer é que nossas almas devem ser mantidas em constante atitude de oração.
Assim, seremos capazes de dizer, como disse um piedoso homem em seu leito de morte, na Escócia, a seus amigos:
“Se estas cortinas ou estas paredes pudessem falar, contariam a vocês que doce comunhão mantive aqui com o meu Deus.”
Ó, a oração! A oração!
“Oração, leitura, tentação e meditação”, diz Lutero, “fazem um ministro”. E também produzem e aperfeiçoam um cristão.
A meditação para a alma é o que a digestão é para o corpo.
O santo Davi compreendeu isso; por isso estava constantemente ocupado em meditar, mesmo durante as vigílias da noite. Também encontramos Isaque saindo ao campo ao entardecer para meditar.
A meditação é uma espécie de oração silenciosa, por meio da qual a alma é frequentemente levada, por assim dizer, para fora de si mesma em direção a Deus e, em certa medida, participa da experiência daqueles espíritos bem-aventurados que, por uma espécie de intuição imediata, contemplam continuamente a face de nosso Pai celestial.
Ninguém, exceto essas felizes almas acostumadas a essa ocupação divina, pode dizer quão bendita promotora da vida espiritual é a meditação.
“Enquanto eu meditava”, diz Davi, “ateou-se o fogo”.
E, enquanto o crente medita nas obras e na Palavra de Deus, especialmente na obra das obras, na maravilha das maravilhas, no mistério da piedade — “Deus manifestado em carne”, o Cordeiro de Deus morto pelos pecados do mundo —, ele frequentemente sente acender-se o fogo do amor divino e vê-se constrangido a usar sua língua para falar da ternura de Deus para com a sua alma.
Sejam assíduos na meditação todos vocês que desejam conservar e manter um íntimo e constante andar com o Deus Altíssimo.
Em quarto lugar, os crentes cultivam seu andar com Deus observando atentamente a maneira providencial pela qual Deus trata com eles.
Toda cruz traz consigo uma mensagem, e cada dispensação particular da providência divina possui um propósito a cumprir na vida daqueles a quem é enviada.
Se os crentes desejam conservar seu andar com Deus, devem, de tempos em tempos, ouvir o que o Senhor lhes está dizendo por meio da voz de sua providência.
Assim encontramos o servo de Abraão quando foi buscar uma esposa para Isaque. Ele permaneceu atento e vigilante à providência divina, e foi assim que encontrou aquela que estava destinada a ser esposa de seu senhor.
“Uma pequena indicação da providência”, diz o piedoso Bispo Hall, “é suficiente para alimentar a fé.”
E creio que parte de nossa felicidade no céu consistirá em olhar para trás e recordar os diversos elos da corrente dourada que nos conduziu até lá.
Da mesma forma, creio que aqueles que mais desfrutam do céu aqui na terra costumam recordar, especialmente em seus últimos momentos, a maneira como Deus os conduziu por meio de suas providenciais dispensações.
Em quinto lugar, para andar bem com Deus, seus filhos devem estar atentos não somente às obras da providência divina fora deles, mas também às operações do bendito Espírito em seus corações.
“Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.”
São aqueles que renunciam a si mesmos para serem guiados pelo Espírito Santo, da mesma forma que uma criança entrega a mão para ser conduzida por seus pais.
Não há dúvida quanto a isso: precisamos nos converter e nos tornar como crianças.
E, embora seja o cúmulo do falso entusiasmo pretender ser guiado pelo Espírito sem a Palavra escrita, é dever de todo cristão ser guiado pelo Espírito em perfeita harmonia com a Palavra de Deus.
Portanto, rogo a vocês, ó cristãos, que atentem para os movimentos do bendito Espírito de Deus em suas almas e que sempre submetam suas impressões e influências ao teste da infalível Palavra de Deus.
Se elas não estiverem de acordo com a Palavra, rejeitem-nas como enganosas e ilusórias.
Tomando essa precaução, vocês seguirão um caminho seguro entre dois extremos perigosos que ameaçam esta geração: o entusiasmo fanático, de um lado, e o deísmo ou completa incredulidade, do outro.
Em sexto lugar, aqueles que desejam manter uma santa caminhada com Deus devem acompanhá-lo diligentemente nas ordenanças por Ele estabelecidas.
Por isso está registrado que Zacarias e Isabel “eram justos diante de Deus, andando irrepreensivelmente em todos os mandamentos e preceitos do Senhor”.
Todo cristão bem instruído considerará as ordenanças divinas não como algo desprezível, mas como canais por meio dos quais o infinitamente gracioso Jeová comunica sua graça à alma.
Ele as considerará alimento para os filhos de Deus e um dos seus mais elevados privilégios.
Regozijar-se-á em estar no lugar onde habita a glória de Deus e desejará aproveitar todas as oportunidades para anunciar a morte do Senhor Jesus até que Ele venha.
Em sétimo e último lugar, se você deseja andar com Deus, deve unir-se àqueles que também andam com Ele.
“Meu deleite está nos santos que há na terra”, diz Davi.
Sem dúvida, os primeiros cristãos conservaram seu vigor espiritual e seu primeiro amor porque permaneceram unidos em comunhão e amizade.
O apóstolo Paulo sabia muito bem disso e, por essa razão, exortava os cristãos a não abandonarem a sua congregação.
Pois como alguém poderá aquecer-se sozinho?
Se examinarmos a história da Igreja ou observarmos cuidadosamente os nossos dias, creio que veremos que, quando o poder de Deus floresce, as sociedades cristãs e a comunhão fraterna florescem na mesma proporção.
E, quando aquele declina, estas também diminuem e definham gradualmente.
Portanto, aqueles que desejam andar com Deus e viver uma vida piedosa devem reunir-se sempre que possível para estimular uns aos outros ao amor e às boas obras.
Passemos agora ao terceiro assunto geral proposto: apresentar algumas razões que levem todos a vir e andar com Deus.
Ó, que essa verdade influencie devidamente cada um de vocês quanto ao assunto que temos diante de nós!
Suponho que todos considerem uma grande honra ser admitido à intimidade de um príncipe terreno, desfrutar de sua confiança, conhecer seus segredos e receber sua atenção em todas as ocasiões.
Parece que Hamã pensava assim quando se vangloriava de haver sido “exaltado sobre os príncipes e servos do rei” (Et 5.11). Mais ainda:
“A rainha Ester a ninguém fez vir com o rei ao banquete que tinha preparado, senão a mim; e também para amanhã estou convidado por ela juntamente com o rei.”
Seja o que for que pensem sobre isso, Davi tinha profunda consciência da honra que acompanha aqueles que andam com Deus, a ponto de declarar:
“Prefiro estar à porta da casa do meu Deus a permanecer nas tendas da perversidade.”
Ó, que todos nós aprendamos a pensar como ele!
Em segundo lugar, assim como é honroso, andar com Deus também é extremamente agradável.
Posso afirmar com segurança que isso é verdade.
Embora eu tenha sido alistado sob o estandarte de Cristo há apenas alguns anos, encontrei mais verdadeira satisfação em um único momento de comunhão com Deus do que poderia encontrar em milhares de anos vivendo nos caminhos do pecado.
Não tem o Espírito Santo derramado abundantemente o amor de Deus em seus corações, enchendo-os de alegria indizível e cheia de glória?
Estou certo de que vocês responderão afirmativamente.
Reconhecerão espontaneamente que o jugo de Cristo é suave e seu fardo é leve; ou, para usar as palavras de uma de nossas antigas orações da Ceia do Senhor, que “o seu serviço é perfeita liberdade”.
Que motivos mais poderíamos desejar para nos encorajar a andar com Deus?
O próprio Cristo foi tratado dessa maneira.
E pode haver honra maior para uma criatura do que ser conformada ao eterno Filho de Deus?
Também é verdade que o povo de Deus é frequentemente afligido, tentado, privado de recursos e submetido a sofrimentos.
“O gloriam quantam et qualem!”, exclamou o sábio e piedoso Arndt ao inclinar a cabeça e entregar o espírito.
Se você ama a honra, o prazer e uma coroa de glória, venha buscá-los onde realmente podem ser encontrados.
Meus irmãos, vocês percebem que meu coração está cheio.
Quase diria que este assunto é grande demais para ser expresso e, ao mesmo tempo, grande demais para permanecer em silêncio.
Ao Pai, ao Filho — o bendito Jesus — e ao Espírito Eterno, sejam toda honra, glória e louvor, agora e para todo o sempre.



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