20:44

 


A Morte do Justo 

Pregado em 1º de julho de 1681 por 
John Owen

Isaías 57.1-2

"O justo perece, e ninguém considera; e os homens misericordiosos são levados, sem que alguém entenda que o justo é retirado por causa do mal que há de vir. Ele entrará na paz; descansarão em suas camas, cada um que andou na sua retidão."


Este é um texto que a providência de Deus tem pregado de modo severo a esta congregação. Não posso olhar para a frente, não posso olhar para trás, sem ver as pegadas da morte. Ela esteve aqui, esteve ali, à direita e à esquerda. Às vezes Deus expõe as obras da sua providência pela sua palavra; e às vezes expõe a sua palavra pelas obras da sua providência. Ajustar a palavra de Deus e as obras de Deus, de modo que uma interprete a outra, é a suma e a substância de toda a nossa sabedoria aqui neste mundo.

Deus expõe neste dia as suas obras pela sua palavra. O mundo está cheio de confusão, cheio de sinais do desprazer de Deus, cheio de juízos, cheio de terror; mas o mundo nada entende de tudo isso. Trazei estas obras de Deus à palavra de Deus, e as compreendereis. Compreenderemos que o mundo está cheio de pecado e provocação, que Deus está desagradado, que ele está retirando o repouso dos homens — sacudindo tudo por dentro e por fora. Os que não conhecem a palavra de Deus nada entendem destas obras, e são tomados por uma multidão de pensamentos vãos. Ele expõe as suas obras pela sua palavra.

E às vezes Deus expõe a sua palavra pelas suas obras, como o faz neste dia. Ele expõe este texto; de modo que nas obras de Deus podemos ver, clara como num espelho, a mente e o sentido do Espírito Santo: "O justo perece, e ninguém considera; e os homens misericordiosos são levados, sem que alguém entenda que o justo é retirado por causa do mal que há de vir."

A verdade geral destas palavras é esta: que quando Deus está trazendo males, males angustiantes, sobre uma igreja, sobre um povo, no caminho ordinário da sua providência, ele retira de antemão muitos dos que são mais eminentes e mais úteis. Quando de modo especial "o justo perece, e os homens misericordiosos são levados", é uma época em que Deus está certamente trazendo males. Assim, quando Deus estava trazendo males sobre Jerusalém e a terra de Judá (Jr 24), ele recolheu todos os figos bons e os pôs de lado. Muitos deles morreram, alguns foram para o cativeiro; mas todos os que eram bons e seriam restaurados, Deus os retirou do meio deles; e então veio a desolação universal. "O justo perece." Josias é um exemplo disso — alguns pensam que o profeta (embora muito antes) tinha um respeito particular a ele neste texto: "Josias perecerá; será levado." Com que propósito? "Para que eu traga o mal", diz Deus. "Vai em teu caminho. Perecerás e serás morto; porém irás ao teu sepulcro em paz, para que eu traga o mal." Eu próprio tenho falado isso muitas vezes, e ouvi outros dizerem: o arrebatamento, o recolhimento — como diz a palavra ("Serão recolhidos") — de tantos ministros, muitos deles na plenitude de suas forças, na plenitude de seus trabalhos, e nos melhores de seus desígnios para Deus, tem sido um sinal de que havia males por vir. E não é assim apenas com os ministros; mas também com outros nesta congregação, de maneira mais eminente do que jamais experimentei em todo o curso de minha vida — tantas pessoas de santidade, valor e utilidade sendo levadas e recolhidas de uma pobre sociedade em tão pouco tempo! Este é o propósito geral do texto.

Abrirei um pouco as palavras em particular.

É uma descrição dupla das pessoas de que se fala: 1. Com referência ao seu estado e condição diante de Deus; são "homens justos"; 2. Com respeito ao seu estado e condição para com os homens; são homens úteis, "homens misericordiosos", de quem se fala.

Primeiro, com referência ao seu estado diante de Deus: "O justo perece." Sei que a palavra é frequentemente usada para o homem que é moralmente justo, um homem reto entre os homens. Mas a partir do que se segue no versículo 2, como veremos daqui a pouco, prefiro entender que o homem justo aqui é um homem justificado — um homem que é justo e aceito por Deus; um homem reto, isto é, um homem justificado pelo sangue de Cristo. Essa é a sua primeira descrição, quanto ao seu estado com referência a Deus, de quem fala: ele é uma pessoa justificada.

Segundo, com respeito ao seu estado e condição para com os homens. Fala de "homens misericordiosos" — homens de benignidade, homens de bondade, homens bons, homens úteis, que exercem bondade na terra, que são peculiarmente os homens amáveis e desejáveis no mundo. O apóstolo faz uma distinção entre um homem justo e um homem bom (Rm 5.7): "Dificilmente alguém morreria por um homem justo" (por um homem justificado); "porém por um homem bom" (alguém que é benigno, bondoso, útil, misericordioso) "talvez alguém ousasse morrer." Tais são as pessoas aqui mencionadas — um homem justificado, e um homem de benignidade e bondade.

Verdadeiramente, não posso deixar de fazer a aplicação; pois Deus, falando a nós pela sua providência neste momento, é nosso dever aplicá-la ao nosso caso, à pessoa que Deus tirou recentemente desta congregação — um homem justificado; como poderia fazê-lo com muitos outros que nos precederam. Estive com ele no dia anterior à sua morte, e o encontrei no exercício da fé sobre um princípio tão nobre quanto jamais desejaria viver e morrer — aquela visão que Deus lhe havia concedido da glória da sua sabedoria, da sua justiça, da sua graça, do seu amor e da sua misericórdia, todos manifestados em Jesus Cristo para a salvação da sua alma. Não conheço ato de fé mais glorioso. E são a substância das palavras com que ele se expressou; como, de fato, havia feito muitas vezes antes, quando eu conversava com ele acerca do seu estado espiritual; pois era uma pessoa que não temia o seu pastor, nem se esquivava de comunicar-lhe os seus pensamentos. E não posso deixar de lhe atribuir o outro caráter — "um homem misericordioso."

Vejo os rostos de muitos nesta congregação que me falaram dele como alguém cheio de bondade, amor, benignidade; sempre pronto a servir a todos em todas as suas necessidades, perguntando como poderia servir ao mais humilde, e a qualquer outro, com grande condescendência, mansidão e humildade. Considero pequeno o que disse, mas era-lhe devido; e não acrescentarei mais do que isto: é um exemplo de Deus levando um homem justo, e de Deus recolhendo um homem misericordioso.

E é do nosso conhecimento que o mesmo caráter, tanto de fidelidade quanto de utilidade, pode ser aplicado de modo eminente a várias outras pessoas desta congregação que nos foram tiradas. Peço a Deus que sejamos "seguidores daqueles que pela fé e pela paciência herdam as promessas"; que todos nós, que professamos ser justificados diante de Deus, tenhamos o cuidado de ser misericordiosos — isto é, bondosos, benignos e úteis; não egoístas, não vivendo para nós mesmos, mas prontos a servir uns aos outros, prontos a servir todos os membros da congregação, e todos os outros, conforme tivermos oportunidade. Se somos pessoas justificadas, tratemos de ser bons, de ser misericordiosos, bondosos e benignos.

Mas continuemos com as palavras. O que se diz deste homem justo? Ele "perece." Absolutamente? Não; nenhum homem justo perece eternamente. O profeta, no versículo seguinte, remove tal objeção; pois ali ele divide este homem nas suas duas partes essenciais. O que diz de seu estado? "Ele entrará na paz." Aí está a sua alma. E o que será do seu corpo? Irá ao sepulcro. Se o homem justo perece, será apenas uma dissolução — quanto às suas almas, irão para o descanso; quanto aos seus corpos, irão ao sepulcro. Digo que ele não perece absolutamente, nem quanto à alma nem quanto ao corpo; mas o profeta usa essas expressões para que não seja excluído nenhum homem justificado, por qualquer modo ou meio que chegue à morte, embora possa parecer perecer, ser cortado. Alguns morrem em sua juventude, no início de sua utilidade; alguns morrem em plena utilidade; alguns morrem sob fortes dores; alguns podem morrer pela espada — tudo o que tem aparência de perecer. Esta expressão abrange qualquer modo ou tempo em que Deus se agrada de tirar um homem justo deste mundo.

Além disso, diz-se que um homem justo perece e é recolhido por causa da ajuda e do amparo que deveria ter prestado à igreja, à cidade e ao lugar onde vivia. Ele pereceu e se foi. O homem justo perece, e o homem misericordioso é levado. São recolhidos. Há uma ênfase na ocasião. Há um tempo em que o homem justo assim perece e o homem misericordioso é assim levado; e todos podemos dar exemplos disso em pessoas próximas, em amigos e conhecidos, de que assim tem sido.

Para prosseguir um pouco mais: qual é o propósito disso? qual é o resultado desta dispensação de Deus ao fazer perecer os homens justos e misericordiosos?

Ora, diz ele: 1. "Ninguém considera." E 2. "Sem que alguém entenda que eles são retirados por causa do mal que há de vir." O sentido é que nessas estranhas e maravilhosas dispensações de Deus, são muito poucos os que consideram seja a causa, seja o fim delas: ninguém pondera ao considerar a causa; ninguém a considera a respeito do fim — o fato de serem "retirados por causa do mal que há de vir." E essa é a dolorosa verdade que estas palavras nos ensinam, a saber, que quando Deus afasta e recolhe os homens justos e misericordiosos para abrir caminho à entrada de grandes males, angústias e destruição, poucos ou nenhum considerará a causa ou o fim disso.

É parte do desprazer de Deus, parte do seu juízo, que não sejamos mais despertados por isso. Que Deus tenha misericórdia desta pobre igreja, ou estaremos perdidos! Se não vemos a causa e o fim desta dispensação de Deus para conosco — a menos que o Senhor se digne a nos conceder um senso mais profundo do que ainda alcançamos —, terei receio do "mal que há de vir", que se aproxima de um desfecho mais triste do que estamos prontos a pensar. "Ninguém considera" — muito poucos o farão. De fato, quantas tristes palavras temos ouvido de toda sorte de pessoas acerca dos que recentemente nos foram tirados: "Ah, meu irmão! Ah, minha irmã! Ah, a sua utilidade enquanto estavam entre nós!" — e podemos baixar a cabeça por um dia, por uma noite; mas isso não é ponderar. Falo ao remanescente desta congregação o que Deus certamente nos exige, para que esta queixa não se encontre verdadeira a nosso respeito — que ninguém considera a causa e o fim; o que é o presságio mais triste dos males mais angustiantes.

Mal é uma palavra abrangente para tudo o que o é. Exige-se de nós que tomemos real conhecimento do desprazer de Deus nisso — que Deus está desagradado; não com aqueles que ele levou. Estava Deus desagradado com alguns dos melhores brotos dentre nossos irmãos? Estava Deus desagradado com eles? Não. Mas devemos tomar conhecimento do desprazer de Deus para conosco. Quando a mão de Deus está levantada, se os homens não querem ver, ele diz: "Eles verão." Verdadeiramente, tenho quase vergonha, e estou pronto a corar ao olhar para os rostos dos homens, ao considerar que repreensões Deus nos tem dado. Nosso Pai cuspiu em nosso rosto; mostrou o seu desprazer, não apenas neste caso, mas em nove ou dez que poderia mencionar — pessoas eminentes em graça, que ele nos tirou; de modo que não sei como não deveríamos nos envergonhar de que nosso Pai está desagradado conosco. Que o Senhor nos ajude a ponderar isso! Se o ponderássemos, coraríamos.

Quais são as causas do desprazer de Deus para conosco?
Se Deus está desagradado conosco, quais são as causas?
Não sei que ele me tenha dado repreensão maior, em todo o curso do meu ministério, do que o fato de eu ter estado labutando em vão para descobrir as causas da retirada de Deus sem nenhum sucesso. Não direi nada delas agora, embora seja bom que as meditemos. Nosso dever é abandonar todas as nossas pretensões vãs e toda a nossa segurança, e considerar qual é a causa de Deus estar desagradado conosco como congregação, e tomar vergonha de nós mesmos.

E então, sejamos humilhados conjuntamente por essas causas, e estejamos nos convertendo de todo o coração de tudo o que tenha sido uma provocação aos olhos da sua glória. Sem isso, o meu próprio amor por esta congregação me fará aplicar-lhe aquela palavra: "A vós conheci de todas as congregações de Londres de maneira peculiar, e portanto vos castigarei por todas as vossas iniquidades." Fomos elevados ao céu pelos privilégios — e como Deus nos humilhará não sei. Mas é tempo de considerarmos as causas deste desprazer de Deus, testificado tão abertamente contra nós, de nos humilharmos por elas e de nos voltarmos para o Senhor. É tempo — e tempo urgente — de o fazer. Oh, bem-aventurado é o que contribui com qualquer coisa para esse fim!

Que o Senhor levante alguns e derrame o seu Espírito sobre eles, para que sejam úteis a esse propósito; para que nos ajudemos a salvar a nós mesmos, a esta nação em que vivemos, e ao restante das igrejas desta terra! O Senhor pode derramar tal espírito sobre alguns que suscite tal espírito de arrependimento pelo pecado e de humilhação diante de Deus que seja útil para esse fim e propósito. A primeira acusação é: "Ninguém considera." E creio, e por isso falo, que se estas coisas não forem ponderadas do modo que declarei, ou para esse propósito, é evidência de que o mal virá e nos alcançará no fim; pois assim está dito: "O justo perece, e os homens misericordiosos são levados por causa do mal que há de vir."

Por que são eles retirados por causa do "mal que há de vir"?

Primeiro, para que Deus possa trazer o mal. "Deixarei alguns quando o mal vier para serem exercitados; pode ser um homem velho, pode ser um jovem. Basta esperar que eu tenha recolhido alguns para mim mesmo. Não posso trazer o mal até que essas luzes se apaguem e os figos bons sejam levados. Não posso", diz Deus, "trazer o mal sobre Jerusalém até então." E são retirados para que o mal venha.

Segundo — que é a aceitação mais geral — são retirados para que não vejam o mal; como Josias foi levado pela espada para que não visse o mal. A morte pela espada não tem nenhum mal em comparação com o mal que Deus trará sobre um povo ou nação quando vier em juízo. "Josias não verá o incêndio da cidade e do templo, não verá mulheres comendo os seus próprios filhos" etc. O que é perecer pela espada em comparação com todas as tentações que acompanham tais males? O Senhor os levará, de modo que não verão o que tem mal, ira e angústia. Eles "são retirados por causa do mal que há de vir."

📺 Assista a este sermão em vídeo:
👉 Assistir Agora