A Morte do Justo
Pregado em 1º de julho de 1681 por John Owen
Isaías
57.1-2
Este é um texto que a providência de Deus tem pregado de modo severo a esta congregação. Não posso olhar para a frente, não posso olhar para trás, sem ver as pegadas da morte. Ela esteve aqui, esteve ali, à direita e à esquerda. Às vezes Deus expõe as obras da sua providência pela sua palavra; e às vezes expõe a sua palavra pelas obras da sua providência. Ajustar a palavra de Deus e as obras de Deus, de modo que uma interprete a outra, é a suma e a substância de toda a nossa sabedoria aqui neste mundo.
Deus expõe neste dia as suas obras pela sua palavra. O mundo está cheio de confusão, cheio de sinais do desprazer de Deus, cheio de juízos, cheio de terror; mas o mundo nada entende de tudo isso. Trazei estas obras de Deus à palavra de Deus, e as compreendereis. Compreenderemos que o mundo está cheio de pecado e provocação, que Deus está desagradado, que ele está retirando o repouso dos homens — sacudindo tudo por dentro e por fora. Os que não conhecem a palavra de Deus nada entendem destas obras, e são tomados por uma multidão de pensamentos vãos. Ele expõe as suas obras pela sua palavra.
E às vezes Deus expõe a sua palavra pelas suas obras, como o faz neste dia. Ele expõe este texto; de modo que nas obras de Deus podemos ver, clara como num espelho, a mente e o sentido do Espírito Santo: "O justo perece, e ninguém considera; e os homens misericordiosos são levados, sem que alguém entenda que o justo é retirado por causa do mal que há de vir."
A verdade geral destas palavras é esta: que quando Deus está trazendo males, males angustiantes, sobre uma igreja, sobre um povo, no caminho ordinário da sua providência, ele retira de antemão muitos dos que são mais eminentes e mais úteis. Quando de modo especial "o justo perece, e os homens misericordiosos são levados", é uma época em que Deus está certamente trazendo males. Assim, quando Deus estava trazendo males sobre Jerusalém e a terra de Judá (Jr 24), ele recolheu todos os figos bons e os pôs de lado. Muitos deles morreram, alguns foram para o cativeiro; mas todos os que eram bons e seriam restaurados, Deus os retirou do meio deles; e então veio a desolação universal. "O justo perece." Josias é um exemplo disso — alguns pensam que o profeta (embora muito antes) tinha um respeito particular a ele neste texto: "Josias perecerá; será levado." Com que propósito? "Para que eu traga o mal", diz Deus. "Vai em teu caminho. Perecerás e serás morto; porém irás ao teu sepulcro em paz, para que eu traga o mal." Eu próprio tenho falado isso muitas vezes, e ouvi outros dizerem: o arrebatamento, o recolhimento — como diz a palavra ("Serão recolhidos") — de tantos ministros, muitos deles na plenitude de suas forças, na plenitude de seus trabalhos, e nos melhores de seus desígnios para Deus, tem sido um sinal de que havia males por vir. E não é assim apenas com os ministros; mas também com outros nesta congregação, de maneira mais eminente do que jamais experimentei em todo o curso de minha vida — tantas pessoas de santidade, valor e utilidade sendo levadas e recolhidas de uma pobre sociedade em tão pouco tempo! Este é o propósito geral do texto.
Abrirei um pouco as palavras em particular.
É uma descrição dupla das pessoas de que se fala: 1. Com referência ao seu estado e condição diante de Deus; são "homens justos"; 2. Com respeito ao seu estado e condição para com os homens; são homens úteis, "homens misericordiosos", de quem se fala.
Primeiro, com referência ao seu estado diante de Deus: "O justo perece." Sei que a palavra é frequentemente usada para o homem que é moralmente justo, um homem reto entre os homens. Mas a partir do que se segue no versículo 2, como veremos daqui a pouco, prefiro entender que o homem justo aqui é um homem justificado — um homem que é justo e aceito por Deus; um homem reto, isto é, um homem justificado pelo sangue de Cristo. Essa é a sua primeira descrição, quanto ao seu estado com referência a Deus, de quem fala: ele é uma pessoa justificada.
Segundo, com respeito ao seu estado e condição para com os homens. Fala de "homens misericordiosos" — homens de benignidade, homens de bondade, homens bons, homens úteis, que exercem bondade na terra, que são peculiarmente os homens amáveis e desejáveis no mundo. O apóstolo faz uma distinção entre um homem justo e um homem bom (Rm 5.7): "Dificilmente alguém morreria por um homem justo" (por um homem justificado); "porém por um homem bom" (alguém que é benigno, bondoso, útil, misericordioso) "talvez alguém ousasse morrer." Tais são as pessoas aqui mencionadas — um homem justificado, e um homem de benignidade e bondade.
Mas continuemos com as palavras. O que se diz deste homem justo? Ele "perece." Absolutamente? Não; nenhum homem justo perece eternamente. O profeta, no versículo seguinte, remove tal objeção; pois ali ele divide este homem nas suas duas partes essenciais. O que diz de seu estado? "Ele entrará na paz." Aí está a sua alma. E o que será do seu corpo? Irá ao sepulcro. Se o homem justo perece, será apenas uma dissolução — quanto às suas almas, irão para o descanso; quanto aos seus corpos, irão ao sepulcro. Digo que ele não perece absolutamente, nem quanto à alma nem quanto ao corpo; mas o profeta usa essas expressões para que não seja excluído nenhum homem justificado, por qualquer modo ou meio que chegue à morte, embora possa parecer perecer, ser cortado. Alguns morrem em sua juventude, no início de sua utilidade; alguns morrem em plena utilidade; alguns morrem sob fortes dores; alguns podem morrer pela espada — tudo o que tem aparência de perecer. Esta expressão abrange qualquer modo ou tempo em que Deus se agrada de tirar um homem justo deste mundo.
Além disso, diz-se que um homem justo perece e é recolhido por causa da ajuda e do amparo que deveria ter prestado à igreja, à cidade e ao lugar onde vivia. Ele pereceu e se foi. O homem justo perece, e o homem misericordioso é levado. São recolhidos. Há uma ênfase na ocasião. Há um tempo em que o homem justo assim perece e o homem misericordioso é assim levado; e todos podemos dar exemplos disso em pessoas próximas, em amigos e conhecidos, de que assim tem sido.
Para prosseguir um pouco mais: qual é o propósito disso? qual é o resultado desta dispensação de Deus ao fazer perecer os homens justos e misericordiosos?
Mal é uma palavra abrangente para tudo o que o é. Exige-se de nós que tomemos real conhecimento do desprazer de Deus nisso — que Deus está desagradado; não com aqueles que ele levou. Estava Deus desagradado com alguns dos melhores brotos dentre nossos irmãos? Estava Deus desagradado com eles? Não. Mas devemos tomar conhecimento do desprazer de Deus para conosco. Quando a mão de Deus está levantada, se os homens não querem ver, ele diz: "Eles verão." Verdadeiramente, tenho quase vergonha, e estou pronto a corar ao olhar para os rostos dos homens, ao considerar que repreensões Deus nos tem dado. Nosso Pai cuspiu em nosso rosto; mostrou o seu desprazer, não apenas neste caso, mas em nove ou dez que poderia mencionar — pessoas eminentes em graça, que ele nos tirou; de modo que não sei como não deveríamos nos envergonhar de que nosso Pai está desagradado conosco. Que o Senhor nos ajude a ponderar isso! Se o ponderássemos, coraríamos.
Por que são eles retirados por causa do "mal que há de vir"?
Primeiro, para que Deus possa trazer o mal. "Deixarei alguns quando o mal vier para serem exercitados; pode ser um homem velho, pode ser um jovem. Basta esperar que eu tenha recolhido alguns para mim mesmo. Não posso trazer o mal até que essas luzes se apaguem e os figos bons sejam levados. Não posso", diz Deus, "trazer o mal sobre Jerusalém até então." E são retirados para que o mal venha.
Segundo
— que é a aceitação mais geral — são retirados para que não
vejam o mal; como Josias foi levado pela espada para que não visse o
mal. A morte pela espada não tem nenhum mal em comparação com o
mal que Deus trará sobre um povo ou nação quando vier em juízo.
"Josias não verá o incêndio da cidade e do templo, não verá
mulheres comendo os seus próprios filhos" etc. O que é perecer
pela espada em comparação com todas as tentações que acompanham
tais males? O Senhor os levará, de modo que não verão o que tem
mal, ira e angústia. Eles "são retirados por causa do mal que
há de vir."
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