Extraído de: Metropolitan Tabernacle Pulpit, Volume 36
Charles Haddon Spurgeon — 28 de dezembro de 1890
Texto bíblico: Isaías 63:10
“Mas eles se rebelaram e entristeceram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles.” — Isaías 63:10
Este é um caso terrível. Quando Deus se torna inimigo de um homem e luta contra ele, este homem está em condição desesperadora. Contra outros inimigos podemos contender com alguma esperança de sucesso, mas não contra o Onipotente. A inimizade de outros é uma aflição; porém a inimizade de Deus é destruição. Se Ele se torna nosso inimigo, então tudo se volta contra nós. As estrelas em seus cursos pelejam contra nós, e as pedras do campo entram em aliança para o nosso tropeço. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” Mas, se Deus é contra nós, quem será por nós? Estas palavras soam como um dobre fúnebre: “Ele se lhes tornou em inimigo, e pelejou contra eles.”
Isto nos mostra que Deus não é indiferente ao pecado. Os homens podem tentar persuadir a si mesmos de que Deus não se importa; de que para Ele nada significa a maneira como os homens agem, quer transgridam ou guardem suas leis. Os homens podem argumentar que Ele é “benigno até para com os ingratos e maus”, e que o mesmo sucede tanto ao justo quanto ao perverso; e assim, de fato, parece por enquanto. Nossa visão curta pode até assegurar-nos de que os ímpios prosperam e levam vantagem; mas isso é apenas nossa cegueira. Deus odeia o pecado agora e sempre. Ele não seria Deus se não o odiasse. Deus é movido por justa indignação contra toda espécie de mal: isso desperta sua ira no Espírito.
Alguns creem em um Deus impassível; mas certamente o Deus da Bíblia jamais é descrito dessa maneira. Ele é representado nas Sagradas Escrituras segundo a maneira dos homens; mas de que outra forma poderia Ele ser representado aos homens? Se fosse representado segundo a maneira de Deus, você e eu nada compreenderíamos da descrição; porém, como Ele nos é apresentado nas Escrituras, o Senhor percebe o pecado, sente o pecado, ira-se contra o pecado, é provocado, e seu Espírito Santo é entristecido pela rebelião dos homens. Permitam-me ler novamente o solene texto: “Mas eles se rebelaram e entristeceram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles.”
Deus é sempre o mesmo, mas seus atos variam. Ele não muda, e ainda assim é representado em nosso texto como alguém que se volta. Ele muda em sua ação, embora não mude em seu propósito. Muitas vezes Ele deseja uma mudança, embora jamais mude sua vontade. Ele é sempre o mesmo Deus, mas nem sempre nos mostra o mesmo aspecto de seu caráter. Às vezes manifesta misericórdia; em outras ocasiões, justiça: Ele é tão plenamente Deus em um caso quanto no outro. Em certo momento cria um mundo; em outro momento o destrói: contudo continua sendo o mesmo Jeová. Uma mudança em sua dispensação exterior não indica qualquer mudança em sua disposição interior. Ele é o Deus imutável de quem lemos: “Ele se lhes tornou em inimigo.”
Tendo dito estas duas ou três coisas como um início proveitoso, convido-os a considerar este versículo extraordinariamente solene com grande reverência e temor. Que o Espírito Santo nos ajude! A ideia corrente hoje é: “Nunca pregue nada que seja assustador ou terrível. Se o fizer, ganhará uma reputação tão má quanto a de Spurgeon.” Ora, eu não me envergonho minimamente de ter má reputação por pregar contra a maldade do pecado e declarar sua punição certa. Que tenho eu a ganhar com tal pregação? Receberei o aplauso dos homens?
Não! Toda a corrente do agrado desta geração corre na direção oposta. Que o pregador diga aos homens que eles podem viver como quiserem e que, no fim, tudo dará certo, e isso lhes agradará. A salvação universal é uma doutrina muito popular entre as pessoas “cultas”. Não quero nenhuma de suas popularidades. Pregarei a vocês, enquanto esta língua se mover em minha cabeça, a verdade de Deus, quer ela ofenda, quer agrade; e o Dia declarará quem mais amou suas almas — aqueles que podiam bajular, ou aqueles que falaram a verdade desagradável. Nosso texto contém muito pouco, aparentemente, que possa ministrar conforto a alguém; contudo, estou persuadido de que, se com coração reverente vocês derem ouvidos ao que ele ensina, isso os conduzirá a um consolo mais seguro do que jamais encontrarão nas filosofias dos homens; sim, trará sua consciência a um estado de descanso diante de Deus, pelo qual vocês bendirão a Deus enquanto viverem.
I. Primeiro, MEU TEXTO PERTENCE AOS PRÓPRIOS FILHOS OFENSORES DO SENHOR. Permitam-me tentar encontrá-los e aplicar-lhes este texto. Há alguns do próprio povo de Deus — pessoas realmente convertidas, salvas — que, apesar disso, degeneraram a tal estado de pecado que o Senhor se tornou seu inimigo. Se vocês lerem este capítulo, verão que é assim. Permitam-me começar pelo versículo sete: “As benignidades do Senhor mencionarei, e os louvores do Senhor, segundo tudo quanto o Senhor nos concedeu, e a grande bondade para com a casa de Israel, que lhes fez segundo as suas misericórdias e segundo a multidão das suas benignidades. Porque dizia: Certamente eles são meu povo, filhos que não mentirão; assim ele se fez seu Salvador. Em toda a angústia deles, ele foi angustiado, e o anjo de sua presença os salvou; pelo seu amor e pela sua compaixão ele os remiu; tomou-os e os conduziu todos os dias da antiguidade. Mas eles se rebelaram e entristeceram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo.”
Vejam, queridos amigos: outrora estavam no colo do amor; outrora repousavam no seio do favor; outrora conheciam a simpatia de Cristo; outrora podiam cantar sobre benignidades e multidão de misericórdias; mas rebelaram-se. Não é algo chocante que o povo favorecido de Deus venha a desviar-se? Não é triste que aqueles que comeram o pão do céu tenham fome das cinzas deste mundo; que homens que repousaram no seio de Cristo, ainda assim, procedam traiçoeiramente contra Ele e provoquem sua ira? Contudo, assim é — tristemente assim; temos visto isso em outros. Deus conceda que não seja assim conosco!
Estas pessoas, depois de provarem todo esse amor e todo esse favor, tornaram-se rebeldes. Ele os chama de “rebeldes”. Não eram meramente filhos que cometeram um erro, filhos que caíram por insensatez, mas “rebelaram-se”. Acaso o filho de Deus chega alguma vez a esse estado? Sim, filhos têm se rebelado. Davi assim pecou, e muitos outros vergonhosamente se rebelaram contra seu Deus. Não posso dizer até onde um homem que provou da graça de Deus pode ir no pecado; mas peço-lhes: não façam experiência disso. Antes, mantenhamo-nos o mais longe possível do pecado. Contudo, parece que aqueles para com quem o Salvador tinha tamanha simpatia que, em toda a aflição deles, ele mesmo era afligido, ainda assim “rebelaram-se e entristeceram o seu Espírito Santo”.
Bem, então, o que aconteceu? Agora chegamos realmente ao texto: “Ele se lhes tornou em inimigo, e pelejou contra eles.” Esta é a história em muitos casos. Ele envia aflição. Sobre a colheita do homem vêm o gafanhoto devorador, a locusta e o pulgão destruidor. Sobre seus negócios vêm a praga e a ruína. Ele não consegue entender; pois onde tudo parecia ir bem, agora todos os assuntos dão errado. Tudo o que obtém é como dinheiro derramado em um saco cheio de furos. Sendo ele filho de Deus e tendo se tornado rebelde, entristeceu o Espírito de Deus, e o castigo cai sobre ele. Talvez seja abatido por uma enfermidade dolorosa. Talvez um filho querido lhe seja tirado. A aflição entra na família de uma forma ou de outra: não a aflição de Jó, que o provou para a glória de Deus; mas a aflição de Jacó, que foi afligido em sua família porque aquela família havia se contaminado com o pecado. Deus é zeloso e trata severamente seus filhos desviados.
Ele lhes envia aflição; mas pior do que isso, torna-se seu inimigo e luta contra eles ao reter os consolos do Espírito Santo. Ah, como antes desfrutavam de um sermão! Era cheio de graça e verdade. Agora não o desfrutam mais. O mesmo pregador; outras pessoas são edificadas tanto quanto antes; mas eles não. Tal homem vai orar; porém não sente o Espírito intercedendo dentro dele. Lê a Bíblia, e ela lhe parece letra morta. Busca a companhia de cristãos, mas a convivência deles lhe é enfadonha e não lhe traz consolo algum. Deus fechou as janelas do céu. Fez os anjos cessarem de trazer bênçãos pelo caminho da escada dourada. Deus tornou-se seu inimigo e luta contra ele.
Conheci casos em que verdadeiros filhos de Deus (sei que eram verdadeiros filhos de Deus, pois retornaram, e nunca perderam a vida de Deus, mesmo quando estavam afastados dele) chegaram a este ponto: Deus lutava contra eles em suas orações, e pareciam orar como um homem gritando dentro de um grande caldeirão de cobre, onde cada som ecoa em seus ouvidos como trovão. Eu lhes advirto, vocês que são povo de Deus: atentem para o que fazem; pois Deus, que os ama, tratará severamente com vocês se pecarem contra Ele. Lembrem-se daquele texto: “De todas as famílias da terra, somente a vós vos conheci; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniquidades.” Como tenho dito muitas vezes: se um homem visse um menino na rua quebrando janelas ou fazendo travessuras, talvez pouco lhe dissesse; mas, se fosse seu próprio filho, lhe daria uma forte repreensão e o mandaria para casa; e assim sucede quando o Senhor apanha seus próprios filhos pecando. Ele pode deixar o pecador comum continuar em seu pecado até que o juízo seja executado; mas, quanto a seus próprios filhos, eles não podem transgredir impunemente. “Ele se lhes tornou em inimigo, e pelejou contra eles.”
Em tais ocasiões, se ainda prosseguem em algum trabalho cristão de utilidade, são atingidos por grande esterilidade, e sua obra fica sem eficácia. Eu me entristeceria profundamente se minhas palavras trouxessem esmagamento aos mais sensíveis dentre o povo de Deus; contudo, sei que é assim. Se o pregador abandona seu Deus, seu Deus o deixará pregar em vão. Se o professor abandona o Salvador, o Salvador abandonará o professor e o deixará fracassar com as crianças. O que geralmente acontece com um ministro quando Deus se foi? Bem, em vez de ir a Deus, humilhar-se e clamar por misericórdia, ele decide comprar um novo órgão. Isso resolverá o problema. Mas o novo órgão, por mais que o toquem, afinal não produz grande coisa. Então ele recorrerá a entretenimentos sensacionais, a um concerto no domingo à noite — violinos ou qualquer outra coisa semelhante.
Se Deus não o ajudar, ele estará na mesma condição de Saul, filho de Quis. Tentará primeiro a música; e, se isso não lhe trouxer auxílio, irá à feiticeira de En-Dor — agora chamada “teologia moderna” — e buscará socorro ali. Deus tenha misericórdia de nós, se algum dia fizermos isso! Não desejo sucesso no ministério se Deus não mo der; e oro para que vocês, que trabalham para Deus, não desejem qualquer sucesso senão aquele que vem do próprio Deus, pelo modo do próprio Deus; pois, ainda que pudessem amontoar, como a areia do mar, convertidos produzidos por meios estranhos e anticristãos, eles desapareceriam como a areia do mar assim que outra maré subisse.
Ó filho de Deus, não tente viver sem Deus! Não introduza novas invenções para remendar a brecha que o seu pecado abriu. Se o Senhor se torna seu inimigo e luta contra você, curve-se diante dele e confesse seu erro.
Deixo este ponto após fazer uma solene pergunta. Estou falando a algum homem ou mulher cristã para quem este texto é tristemente verdadeiro? Não é o pecado a causa da sua tristeza? Suplico-lhes: não tratem esta questão com leviandade. É algo extremamente solene ter Deus lutando contra você. Diga-lhe: “Mostra-me por que contendes comigo.” Mas não se desespere. Se o Senhor tivesse a intenção de destruí-lo, teria dito severamente: “Está entregue aos ídolos; deixai-o.” Abandonar completamente um homem é o ultimato de Deus para os sem esperança; porém açoitar o errante de volta ao seu Senhor é amor disfarçado.
O homem sábio consegue ver por trás da máscara e compreender que é justamente porque Deus não quer destruí-lo com os ímpios que agora o coloca sob a disciplina de sua casa e o faz sentir que pecado e dor devem caminhar juntos na vida de um herdeiro do céu. Busque ao Senhor; clame a Ele; e confesse o seu pecado. A parábola do filho pródigo pertence muito mais a você do que a uma pessoa não convertida; pois você pode chamar Deus de “Pai”, e pode voltar a Ele como filho; porque você é filho dele, apesar de toda a sua vida dissoluta na terra distante e de todo o desperdício dos bens de seu Pai. Levante-se e vá a Ele imediatamente. Você conhece o caminho. Refaça-o. Você conhece o seu Pai: corra para Ele sem demora. Ponha a cabeça em seu peito e derrame sua confissão em lágrimas: “Pai, pequei”; e, antes que este culto termine, você receberá a plena absolvição do seu Senhor, e sentirá a si mesmo —
Deus logo retirará a vara quando você abandonar o pecado. E, se não retirar o castigo, você o suportará pacientemente e o bendirá porque o perdoou; pois isso é o principal. Em regra, o Senhor deixa de lutar contra o homem que deixa o pecado; mas, se não o fizer, prostre-se diante dele. Há uma gravura em um antigo livro curioso que representa um homem com um mangual tentando golpear outro; e o homem atacado corre para bem perto dele, de modo que o adversário não consegue atingi-lo. Corra para junto de Deus, e Ele não poderá golpeá-lo. O que Ele diz? “Que se apodere da minha força; e fará paz comigo.”
Isto é: aproxime-se diretamente de Deus, aquele que o tem ferido, e diga: “Senhor, submeto-me inteiramente a Ti. Pelas entranhas da tua compaixão, suplico-te: perdoa-me e restaura-me ao teu amor.” Ele não tem prazer em que você sofra; como seu filho amado, Ele deseja vê-lo feliz. Entristece-se porque você se afastou dele. Volte imediatamente, ó desviado; volte ainda agora. Que o Senhor o capacite a fazê-lo neste momento, por amor de Jesus!
II. O TEXTO TAMBÉM É VERDADEIRO PARA AQUELES QUE NÃO PODEM DIZER QUE SÃO O POVO DE DEUS, embora dessem os próprios olhos se pudessem dizê-lo. Muitos pecadores despertados sentem que se rebelaram e entristeceram o Espírito Santo de Deus; e agora sentem que Deus se tornou seu inimigo e luta contra eles enviando-lhes aflição. Sim, antes tudo lhes corria magnificamente, e sua prosperidade lhes servia de laço. Tinham muito dinheiro e, por isso, podiam frequentar todo lugar de divertimento e todo antro de vício. Agora lamentam um bolso vazio. Nesta noite, mal sabem onde encontrarão pouso. Um dia foram jovens cavalheiros; agora precisam viver entre mendigos. Sim, muitos e muitos homens foram lançados ao mais profundo abismo da miséria pela luxúria e pela embriaguez. Deus tornou-se seu inimigo, pois tudo lhes falha: tentaram conseguir emprego e não puderam; gastaram as botas andando de um lado para outro, e não conseguem trabalho.
Talvez eu fale aqui a alguma jovem cujo caminho esteve muito distante de Deus; e ela também caiu, em outro sentido. A saúde se foi. Ah, pobre daquela moça alegre! Aquele rubor febril em seu rosto revela que o verme está dentro do fruto. Pobre alma! Ela está definhando. Em breve partirá, e ainda está sem esperança. Deus tornou-se seu inimigo (assim ela pensa), e luta contra ela; pois o remédio não lhe aproveita; enquanto outras pessoas parecem ter sido curadas, ela permanece tão enferma quanto antes.
Há aqui pessoas contra quem Deus tem lutado ultimamente; e, quando Deus luta, não é brincadeira de criança, nem simples golpes leves: Ele luta de verdade. Talvez esteja lutando com alguns de vocês desta maneira: seus ânimos se foram. Antes vocês eram alegres como um grilo. Consideravam facílimo afastar toda preocupação. Ah, como eram joviais! E agora não conseguem sequer erguer a cabeça. Uma terrível depressão caiu sobre vocês, e já não conseguem olhar para cima. Talvez tenha sido através de um sermão; ou talvez estivessem sozinhos, pensando, e começaram a sentir desânimo, melancolia, infelicidade. Deus está lutando contra vocês, e, nas profundezas da alma, sentem o peso de seu desagrado.
Ou então estão em dificuldades financeiras. Antes, sua prosperidade era sua ruína. Vocês não poderiam ser salvos enquanto fossem ricos; e sua comodidade e despreocupação precisavam ser abaladas. Não havia como salvá-los sem incendiar o leito em que dormiam tão seguros. Deus está despedaçando toda a sua falsa alegria e fazendo-os enxergar a verdade das coisas.
Não me surpreenderia se Deus estivesse lutando contra alguns de vocês de outra maneira, de modo que suas frágeis noções de religião estejam todas desaparecendo. Antes vocês se vangloriavam: “Posso crer no Senhor Jesus Cristo quando eu quiser, e tudo ficará bem.” Houve um tempo em que julgavam ser algo tão fácil crer; mas agora já não acham isso tão simples. Ultimamente vocês têm pensado sobre salvação, e ela já não parece uma questão tão trivial quanto imaginavam. Agora vocês clamam: “Não consigo sentir. Pior ainda: não consigo crer, não consigo lembrar. Não consigo conter-me do mal; pareço possuído pelo diabo. Deus me ajude, pois não posso ajudar a mim mesmo.”
Deus parece não ajudá-los; ao contrário, faz com que sintam mais profundamente sua fraqueza do que jamais sentiram antes; e, quanto mais se esforçam para se tornar melhores, piores se tornam. “Ele se lhes tornou em inimigo, e pelejou contra eles.”
No progresso dessa batalha, talvez vocês tenham sofrido danos muito sérios. Alguns anos atrás veio a este Tabernáculo um homem que disse: “Fui arruinado num domingo de manhã. Entrei neste Tabernáculo pensando que era tão bom quanto qualquer comerciante num raio de cinquenta milhas daqui.” Disse ele: “Saí arruinado; porque fui levado a confessar que era tão mau quanto qualquer pessoa em Newington, ou num raio de mil milhas deste lugar.” É isso o que acontece quando Deus começa a lutar contra nossa justiça própria.
Eu mesmo pensava, quando criança, que era um menino bom e decente, até ver meu próprio coração. Eu era um excelente soldado até que Deus veio com seu machado de guerra, despedaçou meu escudo e arrancou todos os meus adornos; e ali fiquei, segundo minha própria percepção naquele tempo, o pior jovem que já levantara a mão contra Deus. Deus faz grande devastação com os ornamentos da justiça própria. Nossa falsa elegância logo se desfaz quando a verdade entra em confronto com ela.
Em tais momentos, quando Deus está lutando contra um homem, suas dores interiores parecem aumentar. Sua memória grita contra ele: “Lembre-se disto! Lembre-se daquilo! Lembre-se daquela outra coisa! Lembre-se daquela noite de pecado! Lembre-se daquele dia de rebelião!” Seus temores se levantam e caminham diante dele como fantasmas sombrios. Suas esperanças, que antes entoavam doces cantos de sereia, agora transformam suas canções em lamentações fúnebres. Suas expectativas falham. Os pensamentos do homem tornam-se uma caixa cheia de facas, cortando-lhe a alma em cada ponto.
Ó senhores, quando Deus cerca a cidade da Alma Humana (Mansoul), Ele coloca suas baterias contra cada porta. Sua artilharia é apontada contra cada parte do muro. Seus grandes projéteis explodem no centro do coração. O Senhor é homem de guerra; Jeová é o seu nome. Quando Ele sai para a batalha, será terrível para o homem contra quem Ele luta.
Ouço alguém dizer-me: “Você está fazendo uma descrição terrível.” Não estou descrevendo todos os que são salvos. Muitos vêm a Cristo muito prontamente, simplesmente confiam nele e imediatamente vivem. Mas, meu ouvinte, você não é desse tipo sensível. Você não quis vir. As lágrimas de uma mãe não puderam persuadi-lo; as exortações de seu professor não puderam levá-lo; até mesmo os tratamentos mais suaves de Deus não puderam empurrá-lo nem atraí-lo; e você viveu em pecado até que, finalmente, Deus o tomou eficazmente em suas mãos. Sua consciência foi despertada; você já não consegue continuar como está.
“Ah”, diz alguém, “eu não sinto isso.” Infelizmente! Eu gostaria que sentisse. Tenho de lidar com muitíssimas pessoas de espírito angustiado. Elas constantemente me procuram. Já as vi viajar muitas milhas para conversar comigo; pois parecem pensar que eu sei algo sobre essas feridas e contusões. E elas estão certas nisso, embora tal fato me traga grande labor entre os aflitos. Ó queridos corações, se Deus luta contra vocês, lancem suas armas ao chão! Arranquem essas plumas de seus chapéus!
Ao chão, diante dele! Rendam-se; e, quando se renderem, Ele não lhes fará mal algum; antes, inclinar-se-á sobre vocês, os levantará e os perdoará. A mulher apanhada em adultério na presença de Cristo é um exemplo do que Ele fará com vocês, apanhados no próprio ato de rebelião contra Ele. O terno Salvador disse: “Nem eu te condeno; vai-te, e não peques mais!”
Querida alma, renda-se, renda-se, renda-se! Não apresente desculpas. Não ofereça atenuantes. Renda-se à onipotência de Deus, a qual, no seu caso, será amor onipotente. Ele feriu, e Ele curará. Ele despedaçou, e Ele atará suas feridas. “O Senhor mata e faz viver; Ele fere, e suas mãos curam.” Mas como poderia Ele dar vida aos que nunca foram mortos? Vocês que nunca foram feridos, vocês que nesta noite estiveram sentados aqui sorrindo em sua própria tranquilidade, o que a misericórdia pode fazer por vocês? Não se congratulem por sua paz; pois, no fundo da dolorosa experiência que descrevi, encontra-se o maravilhoso segredo de que essa luta de Deus contra os homens é uma luta contra o mal deles para o bem deles, a fim de que sejam salvos.
Deus luta contra o orgulho de vocês para que sejam humilhados; luta contra sua autoconfiança para que se envergonhem dela; e, quando sua guerra tiver cumprido seu propósito, Deus não será mais inimigo de vocês; mas vocês o encontrarão apagando seus pecados como uma nuvem, e suas iniquidades como uma espessa nuvem.
Encerro advertindo-os a vigiar cuidadosamente para que não caiam em pecado. É uma bênção ser perdoado; mas é uma bênção ainda maior ser guardado do pecado. Ah, quanta agonia, quanto estrago tenho visto ser trazido sobre indivíduos e famílias por atos de descuido que depois conduziram a atos de libertinagem! Mantenham-se longe até mesmo das formas menores de pecado, para que não entristeçam o Espírito a ponto de Ele se tornar seu inimigo e lutar contra vocês.
III. Por fim, ESTE TEXTO É TERRIVELMENTE SOLENE EM REFERÊNCIA ÀQUELES QUE MORREM IMPENITENTES. A respeito dos que morrem sem arrependimento, o que diremos? O que deve ser verdade acerca deles? Vocês — falo agora apenas daqueles que ouviram o evangelho, daqueles que estão assentados neste Tabernáculo, diante de quem o aviso e a promessa foram colocados — se morrerem impenitentes, tendo rejeitado deliberadamente o grande sacrifício de Cristo, morrerão sob terrível condenação. Jesus Cristo morreu, e vocês recusaram o mérito de seu sangue. Vocês, voluntária e perversamente, desprezaram a misericórdia de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo; e isso além de todos os seus outros pecados.
Agora, permitam-me perguntar: o que deve ser feito com o homem que não quer misericórdia quando ela lhe é apresentada? Se um criminoso condenado é convidado a confessar e receber perdão, e se recusa a fazê-lo, o que resta senão executar a sentença? Tanto a justiça quanto a misericórdia ultrajada exigem que assim seja. Quando um homem entra no outro mundo tendo morrido rejeitando Cristo e recusando a misericórdia divina, ele lutará contra Deus ali; e, conforme sua capacidade, será ali um pecador ainda maior do que foi aqui. Acaso Deus lhe dará prazer? Acaso o Senhor fará feliz tal rebelde? Ficará Ele de lado e dirá: “Recompensarei o rebelde. Ele entristeceu meu Espírito, mas eu o honrarei e recompensarei”? Agirá assim o Juiz de toda a terra?
Se vocês abrirem este Livro, não encontrarão entre estas duas capas um único raio de esperança para o homem que morre sem Deus e sem Cristo. Desafio qualquer homem que creia que este Livro é inspirado a encontrar em suas páginas sagradas algo além de completo desespero para o homem que nesta vida não aceita a misericórdia de Deus em Cristo Jesus.
Meu Senhor e Mestre disse: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.” Esta é a sua palavra, e ela permanece; e permanecerá para sempre. Nunca será revogada. Esta é a sentença final: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” Eu lhes ordeno, pelo Deus vivo: não o provoquem a isso. Não se lancem contra o fio da espada de Jeová.
Olhem imediatamente para Jesus crucificado — Jesus crucificado pelos culpados; Jesus que veio ao mundo, tomou nossa natureza e carregou nosso pecado e vergonha. Ele clama da cruz: “Olhai para mim e sereis salvos, vós, todos os confins da terra.” Não posso falar-lhes como um anjo do céu; mas falo como um pecador salvo do inferno; e imploro-lhes que creiam no Senhor Jesus Cristo, e serão salvos; “porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
Deus os
abençoe! Amém.
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