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Paulo, chamado para ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão  Sóstenes, à  igreja de  Deus  que  está  em  Corinto,  aos  santificados  em Cristo Jesus, chamados para serem santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: Graça seja convosco, e paz, da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Sempre dou graças a Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus; porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo o conhecimento, assim como o testemunho de Cristo foi confirmado entre vós;  de  maneira que nenhum dom vos falta, enquanto aguardais a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos confirmará até o fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor. Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que sejais concordes no falar, e que não haja dissensões entre vós; antes sejais unidos no mesmo pensamento e no mesmo parecer. Pois a respeito de vós, irmãos meus, fui informado pelos da família de Cloé que há contendas entre vós. Quero dizer com isto, que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo; ou, Eu de Apolo; ou Eu sou de Cefas; ou, Eu de Cristo. Será que Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado  por  amor  de  vós?  Ou  fostes  vós  batizados  em  nome  de Paulo? Dou graças a Deus que a nenhum de vós batizei, senão a Crispo e a Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. É verdade, batizei também a família de Estéfanas, além destes, não sei se batizei algum outro. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não  em  sabedoria de palavras,  para  não  se  tornar  vã  a  cruz  de  Cristo.  (I Corintios 1:1-17)

Quando  lemos  os  primeiros  capítulos  da  carta  aos  Corintios, encontramos uma imagem ambígua da igreja. Não poderia ser de outra maneira: o que o apóstolo descreve é a igreja real, com suas contradições e paradoxos. Há uma tensão entre o que a igreja aspira ser e o que a igreja é na realidade. Há uma distância entre o que a igreja é agora e o que chegará a ser  algum  dia.  A  igreja em Corinto não escapava desta ambigüidade, como se torna evidente desde os primeiros versículos da carta.

A saudação de Paulo: A ambivalência da igreja

Paulo, chamado para ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão  Sóstenes, à  igreja  de  Deus  que  está  em  Corinto,  aos  santificados  em Cristo Jesus, chamados para serem santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: Graça seja convosco, e paz, da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. (I Corintios 1:1-3)

A  carta  começa,  como  era  costume  então,  com  a  apresentação  e  a  saudação  de  quem escreve. Paulo se apresenta primeiro a si mesmo como o escritor da carta e logo apresenta e  saúda  aos  corintios, os destinatários da  carta. Finalmente, o apóstolo apresenta  sua mensagem,  resumindo  em  seu  desejo  para  os  corintios:  graça  e  paz  de  Deus  e  nosso Senhor Jesus Cristo.

Em nove das treze introduções das suas cartas, Paulo se apresenta como apóstolo de Cristo pela vontade  de  Deus  ou  por  mandamento  de  Deus.  Na  saudação  inicial  desta carta, ainda que Paulo inclua Sóstenes na sua saudação à igreja, só aplica a si mesmo o título de “apóstolo de Jesus Cristo”, enquanto que a Sóstenes o chama de irmão.

Há muita confusão na igreja atual sobre a palavra “apóstolo”. No Novo Testamento este termo é usado em três sentidos. Em somente um versículo se aplica a todos os crentes, em João 13:16, onde Jesus disse que aquele que é enviado não é maior do que quem o enviou.  A  palavra  “enviado”  é traduzida do  grego  apóstolo.  Jesus  declara  que os cristãos estão  comprometidos  com  a  missão  apostólica  da  igreja  no  mundo.  Nesse  sentido  geral, todo cristão é um apóstolo.

O segundo uso da palavra  se aplica  aos  cristãos  como  enviados  da  igreja.  Em  II Corintios  8:23 e em Filipenses 2:25, Paulo descreve  a  Epafrodito  como  seu  apóstolo  ou enviado.  Os  “apóstolos da  igreja”  no  Novo  Testamento  eram  o  que  hoje  chamamos missionários, mensageiros do evangelho enviados para uma igreja em particular com uma missão específica.

O  uso  mais  freqüente  do  termo  “apóstolo”  no  Novo  Testamento  é  no  seu  sentido restrito, aplicado aos doze apóstolos de Jesus. A este grupo reduzido se somou o apóstolo Paulo, provavelmente Tiago e talvez mais alguns. Não eram apóstolos da igreja, mas sim apóstolos de Cristo, mensageiros que Ele havia elegido e chamado.

Paulo, igualmente aos doze, recebeu este chamado de Jesus Cristo de forma direta e pessoal.  Como eles,  também  era  testemunho  da  ressurreição.  É  certo  que  não  havia conhecido  Jesus  Cristo em  sua  existência  terrena;  tão  pouco  teve  o  enorme  privilégio  de passar  esses  três  anos formativos  com  os  discípulos  de  Jesus.  No  entanto,  o  Cristo ressuscitado lhe apareceu pessoalmente; sem essa experiência da ressurreição de Cristo, Paulo não poderia ter sido um apóstolo.

Paulo se refere aos seus antecedentes como apóstolo no capítulo 9 da mesma carta aos  Corintios,  e reitera  o  mesmo  conceito  no  capítulo  15,  ao  enumerar  as  aparições  de Jesus depois da ressurreição. Em 15:8, disse: “Por último, como a um abortivo, apareceu a mim”.  Ainda  que  se trata  de  uma  aparição  peculiar  de  Cristo,  posteriormente  a  sua ascensão, Paulo reclama a validez desta circunstância para respaldar seu nome na lista dos apóstolos.

Podemos  dizer  com  toda  firmeza  que  na  atualidade  não  há  na  igreja  apóstolos  de Jesus Cristo,  porque  ninguém  teve  uma  aparição  do  Cristo  ressuscitado.  Existem  líderes, bispos, evangelistas,  pioneiros,  missionários  e  plantadores  de  igrejas  aos  quais  podemos nos referir como ministros apostólicos. É válido dar-lhes o qualificativo “apóstolo” (adjetivo), porem  não  lhes corresponde  o  título  de  “apóstolo”  (substantivo).  Há  uma  diferença fundamental entre aqueles primeiros apóstolos e qualquer mensageiro do evangelho que os tem sucedido.

A  igreja  primitiva  compreendeu  muito  bem  esta  diferença.  Quando  morreu  o  último apóstolo, a  igreja  sabia  que  se  iniciava  uma  etapa  nova,  a  era  pos-apostólica. Uma das melhores evidencias  disto  é  o  testemunho  do  bispo  Ignácio  da  Síria,  a  quem  os  eruditos localizam  ao redor  de  110  DC,  quando  já  tinham  morrido  os  apóstolos.  Ignácio  foi condenado a morte por ser cristão e ia a caminho de Roma, fazia seu martírio. Durante a travessia, escreveu uma série de cartas às igrejas, algumas das quais chegaram ate nós. Nelas Ignácio repete com freqüência este conceito: “Não lhes dou ordem ou mandamento como fizeram Pedro e Paulo, porque eu não sou apóstolo para condenar os homens”. Ainda que era bispo, Ignácio enfatizava que não era apóstolo nem tinha a mesma autoridade que eles. É de se esperar que nós entendamos este conceito com a mesma claridade.

Se  houvesse  hoje  pessoas  com  a  mesma  autoridade  que  aqueles  primeiros apóstolos, deveríamos  agregar  seus  ensinamentos  ao  novo  Testamento  e  toda  a  igreja estaria comprometida a os aceitar e obedecer. Porem ninguém tem a autoridade comparável à  dos  doze  e Paulo.  Devemos  distinguir  entre  os  apóstolos  da  igreja,  dos  quais  existem muitos ao redor do mundo hoje, e aqueles apóstolos de Cristo.

A igreja pertence ao mesmo tempo ao céu e a terra

Paulo escreve “à igreja de Deus que está em Corinto”. Quando escreve aos tessalonicenses saúda “à igreja dos tessalonicenses em Deus”. Ambas descrições são verdadeiras. A igreja vive  tanto “em Deus”  com  “no  mundo”,  ainda  que  tenha  se  tornado  muito  difícil  manter  o equilíbrio.  Houve uma  época  em  que  a  igreja  se  apartou  totalmente  do  mundo.  Com  a pretensão de estar só em Deus, se isolou em um ambiente nostálgico. Em outras ocasiões, os cristãos cometem o erro oposto e se comprometem a tal ponto com o secular que perdem a identidade única que teen de estar ou pertencer a Deus.

A  igreja  não  foi  chamada  nem  para  se  excluir  nem  para  se  assemelhar  totalmente com o mundo. Não temos liberdade para nos retirarmos do mundo, nem tão pouco para nos confundirmos com ele. Nas palavras de Jesus, devemos estar no mundo porem não sermos parte do mundo. Precisamos lembrar continuamente que a igreja pertence a dois âmbitos: ao céu e a terra.

A igreja é santa e está em processo de santificação

A igreja tem dois estados em relação com a santidade; um é atual e o outro potencial. Por um lado, os cristãos já são santos, no sentido de ter sido separado para Deus. Por outro lado, são chamados para ser santos, a desenvolver uma vida de santidade.

Neste  sentido,  a  igreja  se  parece  muito  ao  antigo  povo  de  Israel.  No  Antigo Testamento, uma e outra vez se nomeia Israel como nação santa. Era a nação escolhida por Deus. No entanto, não era uma nação de pessoas santas senão mais bem ao contrário. Por isso, Deus constantemente os instava a voltar-se a Ele e a serem santos. A igreja hoje tem a mesma ambigüidade: já é santa e, ao mesmo tempo, Deus a chama para ser santa.

A igreja invoca a Deus e é chamada por Ele

Há uma  reciprocidade  nestes  chamados,  que  poderíamos  denominar  de  “objetivo”  e “subjetivo”. Primeiro Deus nos chama para ser santos e logo nos chama a Ele para que nos faça santos. Somente quando invocamos a Deus para que Ele realmente seja Deus em nós, temos esperança de chegar a ser o que realmente devemos ser.

Podemos dizer da igreja o que John Newton dizia de si mesmo. Havia sido traficante de escravos e logo que se converteu chegou a ser pastor e escritor de hinos, um dos quais é o tão conhecido “Maravilhosa graça”. Newton dizia: “Não sou o que devo ser, não sou o que quero ser, não sou o que um dia espero ser; mas graças a Deus não sou o que fui antes, e é pela graça de Deus que sou o que sou”. Essa é a realidade do “já” mas “ainda não” na vida individual do cristão, e é a verdade da igreja também.

A  igreja  é  o  povo  santo  de  Deus,  foi  comprada  pelo  sangue  precioso  de  Cristo  e santificada pelo Espírito Santo. No entanto, Cristo ainda não apresentou diante do trono sua noiva sem manchas nem rugas. Há uma tensão inevitável entre a realidade essencial e a realidade  atual, entre o humano e  o  divino,  entre  o  “já”  e  o  “ainda  não”.  Para  manter  o equilíbrio  é  fundamental  recordar que  vivemos  entre  dois  momentos  chaves  na  história: entre  a  primeira  e  a  segunda  vinda  de Cristo.  A  história  da  igreja  transcorre  entre  o  que Cristo fez quando veio e o que fará quando vier outra vez, entre o “já” do Reino inaugurado e o “ainda não” do Reino consumado.

Esta tensão entre a igreja real e ideal se vive muito especialmente em relação com a unidade da igreja. Em um sentido, há só uma igreja, a igreja de Deus, Sua igreja universal. No  entanto,  a  igreja cristã  ainda  não  é  uma,  e  mais  bem  se  encontra  dividida.  Essa  é  a realidade, e devemos aprender a viver nela, ao mesmo tempo em que aceitamos a unidade essencial da igreja de Cristo.


Ação de graças: A identidade da igreja

Sempre dou graças a Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus; porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo o conhecimento, assim como o testemunho de Cristo foi confirmado entre vós;  de  maneira  que  nenhum  dom  vos  falta,  enquanto  aguardais a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos confirmará até o fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor. (I Corintios 1:4-9) Antes de admoestar ou criticar a igreja por sua desunião, sua imoralidade, seus litígios, sua má conduta na Ceia do Senhor... Paulo da graças por eles, com toda sinceridade, porque sabe que Deus está operando neles.

É sempre melhor ressaltar o positivo antes do negativo, e dar graças pelo bom antes de começar a corrigir ou criticar. Paulo da graças tanto pelo que a igreja já é como pelo que um dia chegará a ser; dá graças as Deus pela graça presente e também pela glória futura da igreja. O  apóstolo  harmoniza a  ambigüidade  da  igreja  porque  sua  perspectiva  combina passado, presente e futuro dos crentes.

O passado se expressa na graça que foi dada aos corintios em Cristo Jesus. Por Ele foram enriquecidos  em  toda  palavra  e  conhecimento,  tanto  para  a  salvação  como  para  o serviço. O “conhecimento” (gnosis) é neste caso o conhecimento recebido pela iluminação divina.  Em  outras palavras,  os  corintios  crentes  tinham  sido  capacitados  para  conhecer  a Deus por meio de Cristo. Também foram enriquecidos em toda “palavra” (logos), termo que alude a comunicação dessa revelação.

O presente se reflexa no versículo sete, quando o apóstolo declara que aos crentes não lhes falta nenhum carisma ou dom. Posto que foram enriquecidos em tudo, agora não lhes  falta  nada.  Isto não  quer  dizer  que  todos  os  cristãos  têm  os  dons;  mais  adiante,  no capítulo 12, o apóstolo explica que o Espírito Santo é quem distribui os dons a cada crente na  congregação.  Cada  igreja local  pode  ter  a  certeza  de  que  tem  recebido  tudo  o  que precisa.

Finalmente Paulo se move até o futuro. Essa igreja que foi enriquecida e à qual não falta nada está, no entanto, esperando ansiosamente a vinda de Cristo. Ainda que a igreja em  Corinto  havia  sido enriquecida  em  tudo,  estava  muito  longe  de  ser  perfeita,  como qualquer leitor da carta poderia se dar conta. Por isso Paulo vê o futuro, quando Cristo a confirmará definitivamente e a apresentará irrepreensível ante Deus.

Não há contradição entre esses três aspectos da identidade da igreja. Foi enriquecida no  passado, não  lhe  falta  no  presente  nenhum  dom  espiritual,  e  no  entanto  espera  sua perfeição final. Paulo conclui no versículo nove com uma declaração maravilhosa: Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor. (I Corintios 1:9)

Deus  nos  chamou  (passado  aoristo  no  grego)  para  ter  comunhão  com  Seu  Filho  Jesus Cristo. Nossa  experiência  presente  como  cristão  é  que,  dia  a  dia,  podemos  viver  em comunhão  com Jesus  Cristo.  Deus  é  fiel  e  por  Sua  fidelidade  podemos  ter  confiança  no futuro. Ele manterá suas promessas. A  identidade  da  igreja  se  encontra  nessa  tensão  entre  o  passado,  o  presente  e o futuro. Mantenhamos essa perspectiva, e demos graças a Deus porque o que somos, e o que seremos, o devemos a Sua graça e fidelidade.

A apelação de Paulo: Unidade da igreja

Rogo-vos,  irmãos,  em  nome  de  nosso  Senhor  Jesus  Cristo,  que  sejais concordes no falar, e que não haja dissensões entre vós; antes sejais unidos no mesmo pensamento e no mesmo parecer. Pois a respeito de vós, irmãos meus,  fui  informado  pelos  da  família  de  Cloé  que  há  contendas  entre vós. Quero dizer com isto, que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo; ou, Eu de Apolo; ou Eu sou de Cefas; ou, Eu de Cristo. Será que Cristo está dividido? Foi Paulo  crucificado  por  amor  de  vós?  Ou  fostes  vós  batizados  em  nome  de Paulo? Dou graças a Deus que a nenhum de vós batizei, senão a Crispo e a Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. É verdade, batizei também a família de Estéfanas, além destes, não sei se batizei algum outro. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não  em  sabedoria  de  palavras,  para  não  se tornar  vã  a  cruz  de  Cristo.  (I Corintios 1:10-17)

Depois da ação de graças, Paulo faz aos corintios uma apelação comovedora. Depois de agradecer a Deus  pelo  enriquecimento  dos  corintios  em  Cristo,  lhes  faz  um  chamado urgente, por causa da dolorosa divisão que há entre eles. Acaba de lhes escrever sobre sua comunhão e agora tem que os exortar pela sua falta de comunhão. Contudo, Paulo segue se dirigindo a eles como irmãos e irmãs. Quiçá o faz de propósito, para os lembrar que pertencem à família de Deus e que com seu comportamento, em alguma medida estão contradizendo sua identidade.

Paulo apela em nome de Cristo

No versículo dez, a palavra em grego significa literalmente que Paulo apela a eles através do  nome de Jesus  Cristo.  Paulo  não  estava  só  declarando  sua  autoridade  apostólica  ou falando  em nome de  Jesus  Cristo.  Os  exortava  no  único  nome  que  todos  os  cristãos invocam e no qual todos foram batizados. Essa era a base para sua apelação.

Paulo apela à unidade

Em um só versículo,  existem  várias  expressões  que  reforçam  a  apelação  do  apóstolo  à unidade. O  último  verbo  que  usa  é  muito  interessante.  Em  grego  é  o  verbo  catarizo, que fazia alusão a remendar ossos quebrados ou rede de pescar. É um verbo que denota a ação de reparar algo quebrado. No caso dos corintios, é a comunhão que tinha sido quebrada e Paulo sabe que eles a irão reparar.

Paulo apela diante da desunião

Tinham falado a Paulo sobre as discussões e divisões que havia entre os corintios. Este é o único dado que Paulo tem a respeito da situação. O versículo doze explica em que consiste o problema. No grego, a expressão que se traduz “sou de“ indica uma aliança ou pertencer a alguém.  Os  membros da  igreja  estavam  declarando  sua  aliança  ou  lealdade  a  diferentes apóstolos. Parece  ainda  que uma  destas  facções  reclamava  uma  união  particular  e  exclusiva com  Cristo.  Alguns comentaristas  têm  interpretado  que  esta  única  frase,  “eu  pertenço  a Cristo”, é um recurso retórico de Paulo para causar impacto. Mas as quatro expressões são idênticas  em  sua  estrutura gramatical  e  mais  bem  parece  indicar  que  este  quarto  grupo reclamava  uma  união  especial com  Cristo,  talvez  porque  eram  os  que  O  haviam  visto ou ouvido pessoalmente. Sugere-se  que entre  estes  grupos  havia  distintas  teologias  em  competição.  Na realidade, no texto não há nenhuma evidência deles. A divisão parece dever-se mais bem a personalidades em conflito do que a princípios ou correntes doutrinárias diferentes. Paulo se sente profundamente afetado por esse conflito e insiste com os corintios que ele é irmão deles assim como eles o são dele. Ele não é um mestre nem eles o pertencem e, portanto, eles não têm nenhum direito de fazer estas alianças que os dividem entre si. Ao  final  do  capítulo  3  da  mesma  carta,  Paulo  afirma  que  se  alguém pertence a alguém na igreja cristã, são os líderes quem pertencem a igreja, e não esta aos líderes.

Paulo apela ao essencial

Há  um  matiz  de  urgência  na  apelação  de  Paulo,  e  com  razão.  A  atitude  partidarista  ou separatista dos corintios tem implicações muito sérias. Esses desacordos, disse Paulo, são teologicamente  ofensivos  porque  contradizem  os  fundamentos  do  evangelho  em  três sentidos: contradizem a pessoa de Cristo, a cruz de Cristo e o significado do batismo em Cristo. Em outras palavras, Cristo era quem ficava ofendido e negado por todos os grupos. Paulo  mostra  que  essa conduta  é  inaceitável  por  meio  de  três  perguntas  retóricas, cada uma das quais se responde negativamente. Acaso está Cristo dividido? É sua primeira pergunta. Acaso há mais de um Cristo? Acaso fracionaram Cristo? Logicamente que não. Seria uma idéia ridícula. Existe um só Cristo, indivisível. A  segunda  pergunta  retórica  do  apóstolo  é:  Foi  Paulo  crucificado  por  vocês?  Em outras palavras, acaso vocês estão confiando em Paulo e sua crucificação para ser salvos? Aqueles que declaram pertencerem a Paulo estão supondo que ele é quem os redimiu. Só a idéia era absurda. Cristo, não Paulo, é quem foi crucificado por eles. E em terceiro lugar, acaso foram batizados no nome de Paulo? Há alguma razão para ter uma aliança especial com algum ser humano por causa do batismo?

Com  esta  argumentação,  Paulo  enuncia  três  verdades  essenciais  do  evangelho.  A primeira é que Cristo é um só e indivisível: há só um Cristo, há só uma cabeça do corpo de Cristo.  A  segunda verdade  é  que  Cristo  foi  crucificado  por  nós  e  como  conseqüência pertencemos só a Ele. A terceira afirmação tem relação com o batismo cristão. O batismo é testemunho de nossa aliança com Cristo e de nossa exclusiva lealdade a Ele. Paulo desenvolve o conceito do batismo com toda claridade em Romanos 6. Fomos batizados na morte e ressurreição de Cristo; a fé é “interna” e o batismo é a demonstração “externa” de que estamos unidos a Cristo em Sua morte e ressurreição. Em outras palavras, Sua morte é nossa morte e Sua ressurreição é nossa. Todos nós somos batizados em Cristo e só nEle. Paulo  sustenta  que,  com  sua  atitude  sectária,  os  corintios  negavam  as verdades essenciais  do  evangelho  porque  davam  a  líderes  humanos  a  posição  que  só  Cristo  tem. Sacrificavam  o  nome  de  Cristo,  em  cuja  morte  e  ressurreição  haviam  sido  batizados,  em troca pelo nome de um ser humano que só os havia batizado fisicamente. O apóstolo se mostra  agradecido de  não  haver  batizado  a  nenhum  deles,  salvo  a Crispo,  a  Gaio,  e  a  família  de  Estéfanas. Ninguém  mais  poderia  dizer  que  havia  sido batizado em seu nome.

O que Paulo enfatiza é que não tem importância alguma quem é o que batiza. O que realmente importa é em quem somos batizados: em Cristo mesmo. Obviamente, Paulo não diminui a importância do batismo. Sabe que foi instituído por Jesus e que é parte integral da Grande Comissão. Como se depreende de  Romanos  6,  o  apóstolo  tinha  uma  percepção profunda do batismo. Quanto a sua tarefa, Paulo se define como evangelista. É um pioneiro, chamado por Deus para levar a mensagem aos lugares onde ainda não havia sido pregado. Paulo afirma que sua pregação não foi com palavras de sabedoria humana “para não fazer vã a cruz de Cristo”. Descobrimos aqui uma dobre renuncia por parte do apóstolo. Renunciou à sabedoria do mundo para pregar a “loucura” da cruz. Ademais Paulo renunciou à retórica e confiou só no poder do Espírito Santo.

O que fazer com as diferenças?

Há uma tensão iniludível entre o que a igreja é e o que deve ser, entre o que a igreja já é e o que  chegará a ser.  Vivemos esta tensão em nossas congregações, tal  como  ocorria  na igreja em Corinto. A situação é especialmente evidente na desunião entre cristãos. Sem duvida há uma só igreja de Cristo, mas não mostramos e nem desfrutamos dessa unidade. A igreja é um povo santo de Deus, comprada pelo precioso sangue de Cristo e santificada pelo Espírito Santo.  No  entanto,  a  realidade  ambígua  da  igreja  é  um  desafio  para  que  busquemos santidade e procuremos unidade em torno da essência do evangelho da cruz de Cristo. Quando  há  diferenças  sobre  temas  teológicos  sérios, o Novo Testamento não só permite como ordena  a  separação  da  igreja.  Em  sua  carta,  o  apóstolo  João expõe com claridade as doutrinas que não devem ser toleradas dentro da igreja: aquelas que negam a humanidade de Jesus Cristo ou negam ao evangelho da graça gratuita por meio da cruz. Quem as sustenta merecem uma maldição ou juízo de Deus. Com a mesma severidade se expressa Paulo na carta aos Gálatas. As falsas doutrinas sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo  de  nenhuma maneira podem ser aceitas. Sobre estes assuntos deve aplicar-se a disciplina na igreja, até a excomunhão, porque são verdades centrais do evangelho. Em compensação, o que devemos fazer sobre os assuntos que são secundários, mas causam divisão? Há muitos temas que nos dividem. Ainda que todos creiamos no Pai, no Filho e no Espírito Santo, entramos em pleitos por muitos temas: a quantidade de água que se necessita para batizar alguém, a interpretação das profecias, porque cremos que certas profecias foram ou irão ser cumpridas. Até nos dividimos por questões culturais em relação a liturgia. Todos cremos nos dons, cremos que a igreja é o corpo carismático de Cristo e cremos nos ministérios de todos os crentes. No entanto, discutimos sobre quais são os dons mais importantes e como são recebidos.

Há inumeráveis polemicas sobre assuntos secundários. Como diferenciamos o primário do secundário, o central e o marginal? Sugiro uma norma que pode ajudar quando queremos dialogar entre cristãos bíblicos, isto  é,  entre  cristãos  que  consideram  a  Bíblia  como  máxima  autoridade. Se estivermos igualmente dispostos a submeter-nos à autoridade das Escrituras e chegarmos a decisões diferentes sobre um tema, então devemos concluir que esse é um assunto secundário. Se as escrituras  não  são  claras  para  nos  levar  a  uma  conclusão  única,  significa  que  esse assunto não é  central  ao  evangelho  e  que  sobre  esse  tema  devemos  aceitar  e  respeitar nossas diferenças. Estes  são  temas  aos  quais  chamamos de adiáfora,  isto  é, assuntos que não são essenciais senão marginais. Um breve epigrama que vem do século XVII, e que se adjudica a Ruperto Meldinius, é de muita ajuda neste terreno. Traduzido do latim, expressa:

No essencial, unidade.
No que não é essencial, liberdade.
Em todas as coisas, caridade.

Não tem dúvida de que a igreja pode ser uma comunidade mais harmoniosa e uma esfera mais feliz se nos esforçarmos por viver com este critério. Não deveríamos brigar por assuntos doutrinais secundários. Muito menos brigar por zelos, por ambição ou por questões de personalidade, como ocorreu na igreja em Corinto e ocorre hoje em muitos lugares. Pergunto-me que aconteceria com as divisões eclesiásticas se  pudéssemos  pensar  sobre  isto  de  maneira  honesta.  Muitas  das  nossas divisões respondem mais a diferenças culturais que teológicas. Outras, mais a temperamentos que a princípios  doutrinários.  E  muitas  são  causadas  por  ambições  pessoais  mais  do  que  por ambição em Cristo. Examinemos  nossas  motivações.  Tenhamos  cuidado,  ao  pregar  e  batizar,  de não estimular às pessoas a se sentirem mais leal a nós do que ao Senhor. Isto era o que havia horrorizado  Paulo. Substituir o nome de Cristo pelo nosso próprio nome é contradizer o evangelho. O apóstolo culmina o capítulo 1 com um chamado à humildade. Pede que ninguém se jacte em outros seres humanos e muito menos em si mesmo: “O que se gloria, glorie-se no Senhor” (1:31). Esse é o essencial. Que  nosso  anelo  seja  estar  cada  vez  mais  centrados  em  Jesus  Cristo,  tanto  em
nossa doutrina como em nossa vida.

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FONTE: Livro, "SINAIS DE UMA IGREJA VIVA" - JOHN STOTT

16:03 1
“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais  se  faziam  pelos  apóstolos.  E  todos  os  que  criam  estavam  juntos,  e tinham  tudo  em  comum.  E  vendiam  suas  propriedades  e  bens,  e  repartiam com  todos,  segundo  cada  um  havia  de  mister.  E,  perseverando  unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos  os  dias  acrescentava  o  Senhor  à igreja  aqueles  que  se  haviam  de salvar.” (Atos 2:42-47)

Nós  os  cristãos  estamos  unidos  não  só  por  nosso  compromisso  com  Jesus  Cristo,  como também  por  nosso  compromisso  com  a  igreja  de  Jesus  Cristo.  Precisamos  ter  a  mesma perspectiva da igreja que Jesus tinha, e redescobrir a visão de uma igreja viva, renovada pelo  Espírito  Santo,  tal  como  foi  nos  seus  primeiros  tempos.  O  propósito  de  Deus  não  é salvar indivíduos  e  perpetuar  seu  isolamento.  Deus  se  propôs  edificar  a  igreja,  uma comunidade nova e redimida. Planejou-a na eternidade passada, a está levando a cabo no processo histórico do presente, e será aperfeiçoada na eternidade que virá. A igreja esta no centro do plano de salvação. Cristo morreu não só para nos redimir de  toda  iniqüidade,  mas  também  para  reunir  e  purificar para  si  mesmo  um  povo entusiasmado pelas boas obras. Assim diz a Palavra: 

“O  qual  se  deu  a  si  mesmo  por  nós  para  nos  remir  de  toda  a  iniqüidade,  e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” (Tito 2:14)

Na  eternidade,  Deus  nos  reunirá  aos  redimidos  por  Cristo  como  um  só  povo,  do  qual  o apóstolo João teve uma antecipação extraordinária:

“Depois  destas  coisas  olhei,  e  eis  aqui  uma  multidão,  a  qual  ninguém  podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos; e  clamavam  com  grande  voz,  dizendo:  Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro.” (Apocalipse 7:9-10)

Neste  livro  tomaremos,  como  base  para  nossa  reflexão  sobre  a  igreja,  os  capítulos  da primeira carta de Paulo aos Corintios. Antes, a título de introdução, daremos uma olhada na igreja primitiva, como a descreve Lucas no livro de Atos.

Como é uma igreja viva?

É natural que para responder esta pergunta, voltemos ao relato de Pentecostes no livro de Atos. É bom que sejamos realistas na leitura. Costumamos ver a igreja primitiva com uma atitude idealista, romântica. Nos maravilhamos com seu ímpeto evangelístico, seu impacto transformador no mundo. Falamos dela com admiração, como se não tivesse defeito; nos esquecemos as heresias, as hipocrisias, as rivalidades e imoralidades que perturbavam a igreja  primitiva  tanto  quanto  a perturba  hoje.  Contudo,  existe  algo  evidente:  essa  igreja primitiva  em  Jerusalém  foi profundamente  renovada  pelo  Espírito  Santo.  Qual  era  a evidência da presença e do poder do Espírito Santo? Se pudermos responder esta pergunta, poderemos também responder outra: Qual é a evidência da presença do Espírito Santo na igreja de hoje? Lucas descreve quatro marcas de uma igreja cheia do Espírito. Esses são traços que deveriam caracterizar a toda igreja aberta para a presença e o poder do Espírito Santo.

Ensinamento apostólico

Esta primeira característica é surpreendente e não muitas congregações a teriam em conta hoje. A igreja viva é uma igreja que está aprendendo, uma comunidade que estuda. A primeira coisa que Lucas disse sobre esta igreja renovada pelo Espírito é que ela perseverava na doutrina dos apóstolos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos” (Atos 2:42).

Poderíamos  dizer  que,  no  dia  de  Pentecostes,  o  Espírito  Santo  abriu  uma  escada para  a igreja.  Os  mestres  da  escola  eram  os  apóstolos,  a  quem  Jesus  tinha  escolhido  e treinado: e havia três mil estudantes... na realidade, meninos do jardim de infância. Estes recém nascidos para a fé, convertidos e cheios do Espírito Santo, não estavam dedicados a desfrutar de uma experiência mística que os fizera se esquecer ou de arrazoar sobre o que criam.  Pelo comentário, perseveravam na doutrina dos apóstolos e queriam aprender tudo o que fosse possível. Tinham fome da verdade e queriam sentar-se aos pés dos apóstolos e absorver seus ensinamentos.

A plenitude do Espírito Santo é incompatível com o antiintelectualismo. O Espírito de Deus é Espírito de verdade. Esse foi um dos títulos que Jesus mesmo o deu ao Espírito. Se quisermos estar cheios do Espírito, sua verdade será importante para nós.

Aqueles  crentes  primitivos  não  pensaram  que  bastava  para  eles  a  presença  do Espírito Santo em seu interior para conhecer a verdade. Não deram por certo que, por haver recebido a plenitude do Espírito Santo, este era o mestre que precisavam, e que poderiam prescindir dos mestres humanos. Não foi assim na igreja primitiva. Os novos crentes sabiam que Jesus havia nomeado aos apóstolos para que fossem mestres da igreja, e procuravam aprender todo o possível e perseveravam na sua doutrina.

Como se aplica isto à igreja de hoje? O que significa para nós perseverar na doutrina dos  apóstolos, ser  fiel  em  conservar  seus  ensinamentos?  Entendemos  que  já  não  há apóstolos na igreja. Pode haver ministérios apostólicos, como os que realizam missões, os plantadores  de  igreja,  os  líderes. Estas  pessoas  exercem  ministério  apostólico  mas  não podemos os chamar apóstolos. Ninguém na igreja atual tem uma autoridade comparada a de  Paulo,  Pedro  ou  qualquer  dos  apóstolos  de Jesus Cristo.  Eles  tinham  uma  autoridade única para ensinar em nome de Jesus e ninguém tem essa autoridade hoje. Então, se não há apóstolos na igreja contemporânea, como nós podemos nos submeter aos ensinamentos dos  apóstolos?  Seus  ensinamentos  chegaram  até  nós  pela  Bíblia.  O Novo  Testamento  é precisamente  isso:  os  ensinamentos  dos  apóstolos.  Esta  é  a  única  classe de  sucessão apostólica  em  que  cremos,  a  continuidade  da  doutrina  apostólica  por  meio  do Novo Testamento.

Uma igreja cheia do Espírito é uma igreja bíblica, uma igreja neo-testamentária, uma igreja apostólica.  Nela  se  ensina  as  Escrituras.  Os  pais  ensinam  a  Bíblia  aos  filhos.  Os membros da igreja lêem e refletem sobre as Escrituras todos os dias. O Espírito de Deus dirige o seu povo a submeter-se à Palavra de Deus, e quando o faz, essa igreja se remova com a presença do Espírito Santo.

Comunhão e ajuda mútua

A  segunda  marca  de  uma  igreja  viva  que  descobrimos  na  leitura  de  Atos  é  o  amor  e  o cuidado mútuo entre os crentes. Se a primeira marca é o estudo, a segunda é a comunhão. A  palavra comunhão  que  utilizam  algumas  versões  é  a  tradução  de  koinonía.  Este termo  descreve  aquilo que  temos  em  comum,  o  que  compartilhamos  como  crentes  em Cristo. Isto se refere a duas verdades complementares.

Em primeiro lugar, compartilhamos a graça de Deus. O apóstolo João começa sua primeira  carta com  estas  palavras:  “Nossa  comunhão  é  com  o  Pai  e  com  o  Filho,  Jesus Cristo...” Paulo fala da comunhão que temos com o Espírito Santo. A comunhão autêntica é uma  comunidade  trinitária. Nós os crentes participamos em comum no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

Há um segundo aspecto da koinonía. Também temos em comum o que damos. Este é o aspecto que Lucas dá ênfase. Em suas cartas, Paulo usa esta mesma palavra, koinonía, para  referir-se  a  uma oferta  que  estavam  dando  as  igrejas.  O  adjetivo  koinónico  significa “generoso” e, nesta passagem, Lucas descreve a generosidade dos cristãos primitivos:

“E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.” (Atos 2:44-45)

Esta  passagem  nos  perturba.  Preferimos  salta-la  para  evitar  o  desafio  que  ela  encerra. Devemos  imitar  literalmente  estes  crentes?  Quis  Jesus  que  todos  seus  seguidores vendessem suas possessões e repartissem o que obtivessem delas? Sem dúvida, o Senhor chamou a alguns de seus discípulos a uma pobreza voluntária total. Esse é o chamamento que fez ao jovem rico, por exemplo. A ele, Jesus disse expressamente que vendesse tudo e o desse aos pobres. Este foi também o chamado de Francisco de Assis, na idade média, e provavelmente é o chamado de Madre Tereza, em Calcutá. Eles nos recordam que a vida não  consiste  na  abundância  dos  bens  que  possuímos. Mas  não  todos  os  discípulos  de Cristo são chamados a isso. A proibição da propriedade privada é uma doutrina marxista, não cristã. Mesmo na igreja em Jerusalém, a decisão de vender as propriedades e dar tudo foi uma questão voluntária. Quando passamos para o versículo 46, lemos que os crentes se reuniam  “em  suas  casas”.  Quer  dizer,  continuavam  tendo  casa  e  propriedades pessoais. Pelo visto, não haviam vendido todas as casas, seus móveis e suas propriedades! Contudo alguns tinham casas, e os crentes se reuniam nelas.

Não  obstante,  não  devemos  evadir  do  desafio  destes  versículos.  Alguns  suspiram com alívio porque não sugeri que devemos vender tudo e repartir-lo. Mas, mesmo que não seja nosso chamado particular, todos fomos chamados a nos amarmos mutuamente como faziam aqueles cristãos.

O primeiro fruto do Espírito Santo é o amor. Em particular, a igreja primitiva cuidava dos  pobres,  e  compartilhava  com  eles  parte  de  suas  possessões.  Esta  atitude  deve caracterizar  a  igreja  em  todos  os  tempos.  A  comunhão,  a  disposição  de  compartilhar, generosa  e  voluntariamente,  é  um  princípio  permanente.  A  igreja  deveria  ser  a  primeira entidade no mundo na qual se abolisse a pobreza. Conhecemos as estatísticas. O número de  gente  que  vive  na  miséria,  sem  cobrir  as  necessidades  básicas  para  sobreviver,  é aproximadamente de um bilhão. A média dos que morrem de fome cada dia é de dez mil pessoas. Como podemos viver com estas estatísticas? Nós cristãos que vivemos em países mais ricos devemos ajustar nosso estilo de vida e viver com mais simplicidade. Não porque cremos  que  isto  vai  solucionar  os  problemas  macroeconômicos  do  mundo,  senão por solidariedade com os pobres. Uma igreja cheia do Espírito é uma igreja generosa. A generosidade tem sido sempre uma característica do povo cristão porque nosso Deus é um Deus generoso. Por isso, outra palavra  que  expressa  a  atitude  de  generosidade  é  a  palavra  “graça”.  Se  Ele  da  tudo  de graça, se nosso Pai é generoso, Seus filhos também devem ser generosos.

Adoração prazerosa e reverencia

Os  primeiros  cristãos  não  eram  só  fieis  em  conservar  os  ensinamentos  dos  apóstolos  na comunhão uns com os outros. Também se reuniam uns com os outros. Também se reuniam e participavam juntos “no partir do pão, e nas orações” (Atos 2:42).

“E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração” (Atos 2:46)

O partir o pão se refere, sem dúvida, a Ceia do Senhor. Provavelmente, além dos símbolos do corpo e do sangue de Cristo na igreja primitiva havia também uma ceia compartilhada, um ágape. As orações que se mencionam aqui não são as orações privadas mas sim as reuniões de oração.

Existem dois aspectos da vida de adoração da igreja primitiva que são desejáveis em uma igreja renovada. Aqueles cristãos mostravam equilíbrio nos dois sentidos. Por um lado a adoração era formal e informal. Isso deduzimos do versículo 46, onde nos é dito que adoravam nas casas e no templo. É interessante que os primeiros cristãos continuaram  adorando  no  templo.  Não abandonaram  de  imediato  a  igreja  institucional; queriam  reforma-la  de  acordo  com  o evangelho.  Seguramente  não  participavam  dos sacrifícios  do  templo,  porque  entendiam  que  os sacrifícios  já  haviam  sido  cumpridos definitivamente com a morte e ressurreição de Cristo. No entanto, continuaram participando das reuniões de oração no templo. Estas reuniões tinham certa formalidade, mas os cristãos as suplementavam com reuniões mais informais e espontâneas nos lares.

Creio que aqui há uma lição importante para a igreja contemporânea. Algumas igrejas são demasiadas  conservadoras.  Resistem  a  mudanças,  parecem  feitas  de  cimento;  seu lema  parece ser  a  expressão  litúrgica,  ‘para  sempre, pelos  séculos  dos  séculos, amém...’ Nesse tipo de congregação os adultos precisam escutar os jovens, e estes deveriam estar representados na direção da igreja. Não é necessário que estejamos sempre de acordo com eles, porém devemos escutá-los com respeito. Os jovens, por sua vez, entenderam que a maneira com que Deus transforma a igreja institucional é mais pela reforma paciente do que pela revolução violenta.

Não precisamos nos opor ao formal através do informal; cada um é apropriado no seu momento. Precisamos  os  serviços  dignos  e  solenes  no  templo,  mas  também  precisamos nos encontrar nos lares, onde podemos ser mais informais e espontâneos. A adoração se enriquece tanto com a dignidade como com a espontaneidade. 

Um segundo aspecto do equilíbrio que guardava a adoração na igreja primitiva era sua  atitude  de  gozo  e  ao  mesmo  tempo  reverente.  A  palavra  que  traduz  “alegria”  no versículo  46  descreve  gozo  exuberante.  Deus  havia  enviado  seu  Filho  ao  mundo,  agora havia derramado Seu Espírito em seus corações... Como não iram estar alegres! O fruto do Espírito Santo é amor, e também é alegria.

Podemos  imaginar  naqueles  crentes  um  gozo  muito  menos  inibido  do  que  as tradições costumam  nos  permitir.  Algumas  reuniões  de  adoração  parecem  mais  funerais. Todos estão vestidos de preto, ninguém sorri, ninguém diz nada, tocam-se hinos com muita lentidão e toda atmosfera é lúgubre. Por que? Alegremos-nos no Senhor! Cada reunião deve ser uma celebração alegre.

Contudo,  a  adoração  da  igreja  primitiva  também  se  caracterizava  pela  reverência. Seus  cultos  não  eram  irreverentes.  Se  em  algumas  reuniões  o  ambiente  é  funerário,  em outros  é  demasiado  leviano.  Não  refletem  a  presença  solene  e  soberana  de  Deus.  Os primeiros  cristãos  não  conheciam  esse  erro.  Quando  o  Espírito  Santo  renova  a  igreja,  a enche de alegria e também de reverência ante Deus.

Evangelização contínua

Finalmente  uma  igreja  viva  é  uma  igreja  evangelizadora.  Até  aqui,  temos  considerado  no estudo, a comunhão e a adoração. Lucas nos diz que a igreja era fiel e perseverava nas coisas. Esses eram os feitos característicos da igreja, cheia do Espírito Santo desde o dia de Pentecostes: aprendiam dos apóstolos, ajudavam uns aos outros, adoravam a Deus. Se a passagem  terminasse  aqui,  esta seria  uma  igreja  incompleta.  Não  há  referência  sobre  o mundo, sua necessidades, sua alienação de Deus. Sempre é um risco tomar um versículo isolado.  Atos  2:42  é  um  versículo  favorito  e  clássico  e  se  tem  feito  muitas  mensagens  e discursos sobre esta passagem. No entanto, se somente se faz referência ao versículo 42, todas  essas  mensagem  ficam  desequilibradas.  Não  há  ali  uma  descrição  completa  e harmônica  da  igreja.  Não  poderíamos  pensar  em  uma  igreja como  uma  comunidade ocupada  unicamente  de  si  mesma,  como  se  tivessem  abandonado  o  mundo  necessitado que está do lado de fora. Somente quando chegamos ao final da passagem se completa a perspectiva:

“E  todos  os  dias  acrescentava  o  Senhor  à  igreja  aqueles  que  se  haviam  de salvar”. (Atos 2:47)

Nesta breve referência podemos aprender alguns pontos sobre a evangelização. O primeiro é que o Senhor mesmo acrescentava os que haviam de ser salvos. O Senhor Jesus inclui cada dia novos crentes à igreja. Certamente, Jesus Cristo delega aos ministros e líderes da igreja a tarefa de admitir aos novos membros da igreja mediante o batismo. Porém somente Ele  pode os admitir na  igreja invisível,  quando se arrependem e  confiam em Jesus como Salvador e Senhor.

O ensinamento, o testemunho diário dos membros da igreja e sua vida de amor aos demais, são os meios que Deus usa para fazer chegar Sua mensagem ao mundo. Porém quem salva e incorpora novos membros a Sua igreja é Jesus Cristo.

Vivemos em uma época que confia muito no ativismo e na tecnologia. Sem dúvida, há de se fazer uso de toda tecnologia que o Senhor tem nos dado. Porém temos que humilhar-nos  diante  de  Deus  e reconhecer  que  somente  Cristo  pode  abrir  os  olhos  dos  cegos, destapar os ouvidos dos surdos e dar vida às almas mortas. A igreja hoje necessita ser mais humilde.

Um  segundo  ponto  sobre  a  evangelização  é  que  Jesus  fazia  duas  coisas,  e  estas devem sempre  estar  juntas.  Acrescentava  cada  dia  à  igreja  os  que  iam  ser  salvos,  quer dizer, não os acrescentava sem serem salvos nem os salvava sem os acrescentar a igreja. Salvação e pertencer à igreja são dois atos que vão juntos.

Em  terceiro  lugar,  Jesus  fazia  isto  cada  dia.  O  Senhor  fazia  crescer  dia  a  dia  a comunidade. A evangelização não é um assunto ocasional, deve ser algo contínuo. Quando a igreja esta cheia do Espírito Santo, se abre ao mundo necessitado de Deus e então as pessoas podem ser acrescentadas cada dia à igreja. Existem congregações que não têm tido um novo convertido nos últimos dez anos; e se chegassem a ter um, não saberiam o que fazer com ele, tão extraordinário é o fenômeno! Cultivemos a expectativa de que o Senhor acrescente diariamente novos membros à igreja.

Relações renovadas

Os  quatro  sinais  da  igreja  ,  que  vemos  na  igreja  primitiva,  todas  têm  a  ver  com  nossas relações.

O primeiro que se menciona é a relação com os apóstolos. Os cristãos se dedicavam a receber e conservar os ensinamentos dos apóstolos. Também estavam relacionados entre si:  perseveravam  na  comunhão,  se  amavam  uns  aos  outros,  se  cuidavam  mutuamente. Certamente,  se  relacionavam  com  Deus.  O  adoravam  no  templo  e  nas  casas,  formal  e informalmente,  com  alegria  e  com  reverência.  Finalmente  os  primeiros  cristãos  estavam relacionados com o mundo fora da igreja, e por isso cada dia chegava mais pessoas que recebiam o evangelho de Jesus Cristo.

Faz  um  tempo,  escutei  um  grupo  de  jovens  que  havia  visitado  todas  as  igrejas  da cidade mas não tinham encontrado nenhuma que realmente lhes satisfizesse. Deixaram de buscar e se denominaram a si mesmos de “cristãos desligados”.

Quando perguntei o que tinham estado procurando, o que entendiam que deveria ser a  igreja, mencionaram  quatro  pontos.  Aqueles  jovens  não  tinham  ideia  de  que  estas qualidades estavam escritas no livro de Atos; disseram que estavam buscando uma igreja que tivesse pregação bíblica, onde a Palavra fosse exposta e que tivesse aplicação prática.

Em segundo lugar, buscavam uma igreja que tivesse comunhão real, onde os membros se cuidassem  mutuamente  e  se  apoiassem.  Em  terceiro  lugar,  buscavam  uma  igreja  que adorasse,  na  qual  fosse  uma  realidade  a  presença  de  Deus.  Em  quarto  lugar,  estavam buscando uma igreja que tivesse um ministério para o mundo.

O que aqueles jovens buscavam, como tantos outros, era nada menos que uma igreja viva, verdadeiramente  renovada,  uma  igreja  que  mostrasse  exatamente  as  quatro características que vimos que a igreja primitiva tinha.

O  Espírito  Santo  veio  em  Pentecostes  e  Ele  não  deixou  a  igreja.  Nossa responsabilidade  não  é  esperar  que  o  Espírito  Santo  volte,  mas  antes  reconhecer  Sua soberania na igreja. Devemos nos humilhar ante Ele, buscar sua plenitude, sua direção e Seu poder. Quando isso ocorrer, nossa igreja se aproximará a esse maravilhoso ideal que nos apresenta o livro de Atos: o ensinamento apostólico, a comunhão uns com os outros, a adoração viva, e a evangelização continua.

Oremos por nossas igrejas, para que se renovem e cumpram o propósito para o qual Cristo fundou Sua igreja!


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FONTE: Livro, "SINAIS DE UMA IGREJA VIVA" - JOHN STOTT

21:04

O que Paulo escreveu acerca dos judeus não crentes de seu tempo poderia ser dito, creio, com respeito a alguns crentes de hoje: “Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento”. Muitos têm zelo sem conhecimento, entusiasmo sem esclarecimento. Em outras palavras, são inteligentes, mas faltam-lhes orientação. Dou graças a Deus pelo zelo. Que jamais o conhecimento sem zelo tome o lugar do zelo sem conhecimento! O propósito de Deus inclui os dois: o zelo dirigido pelo conhecimento, e o conhecimento inflamado pelo zelo. É como ouvi certa vez o Dr. John Mackay dizer, quando era presidente do Seminário de Princeton: “A entrega sem reflexão é fanatismo em ação, mas a reflexão sem entrega é a paralisia de toda ação”. O espírito de anti-intelectualismo é corrente hoje em dia.

No mundo moderno multiplicam-se os programatistas, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer idéia não é: “É verdade?” mas sim: “Será que funciona?”. Os Jovens têm a tendência de ser ativistas, dedicados na defesa de uma causa, todavia nem sempre verificam com cuidado se sua causa é um fim digno de sua dedicação, ou se o modo como procedem é o melhor meio para alcançá-lo. Um universitário de Melbourne, Austrália, ao assistir a uma conferência na Suécia, soube que um movimento de protesto estudantil começara em sua própria universidade. Ele retorcia as mãos, desconsolado. “Eu devia estar lá”, desabafou, “para participar. O protesto é contra o que?” Ele tinha zelo sem conhecimento.

Mordecai Richler , um comentarista canadense, foi muito claro a esse respeito: “O que me faz Ter medo com respeito a esta geração é o quanto ela se apóia na ignorância. Ser o desconhecimento geral continuar a crescer, algum dia alguém se levantará de um povoado por aí dizendo Ter inventado... a roda”. Este mesmo espectro de anti-intelectualismo surge freqüentemente para perturbar a Igreja cristã. Considera a teologia com desprazer e desconfiança. Vou dar alguns exemplos.

Os católicos quase sempre têm dado uma grande ênfase no ritual e na sua correta conduta. Isso tem sido, pelo menos, uma das características tradicionais do catolicismo, embora muitos católicos contemporâneos (influenciados pelo movimento litúrgico) prefiram o ritual simples, para não dizer o austero. Observe-se que o cerimonial aparente não deve ser desprezado quando se trata de uma expressão clara e decorosa da verdade bíblica. O perigo do ritual é que facilmente se degenera em ritualismo, ou seja, numa mera celebração em que a cerimônia se torna um fim em si mesma, um substituto sem significado ao culto racional.

Por outro lado, há cristãos radicais que concentram suas energias na ação política e social. A preocupação do movimento ecumênico não é mais ecumenismo em si, ou planos de união de igrejas, ou questões de fé e disciplina; muito pelo contrário, preocupa-se com problema de dar alimento aos famintos, casa aos que não tem moradia; com o combate ao racismo, com os direitos dos oprimidos; com a promoção de programas de ajuda aos países em desenvolvimento, e com o apoio aos movimentos revolucionários do terceiro mundo. Embora as questões da violência e do envolvimento cristão na política sejam controvertidos, de uma maneira geral deve-se aceitar que luta pelo bem estar, pela dignidade e pela liberdade de todo homem, é da essência da vida cristã. Entretanto, historicamente falando, essa nova preocupação deve muito de seu ímpeto à difundida frustração de que jamais se alcançará um acordo em matéria de doutrina.

O ativismo ecumênico desenvolve-se com reação à tarefa de formulação teológica, a qual não pode ser evitada, se é que as igrejas neste mundo devam ser reformadas e renovadas, para não dizer, unidas. Grupos de cristãos pentecostais, muitos dos quais fazem da experiência o principal critério da verdade. Pondo de lado a questão da validade do que buscam e declaram, uma das características mais séria, de pelo menos alguns neo-pentecostais, é o seu declarado anti-intelectualismo. Um dos líderes desse movimento disse recentemente, a propósito dos católicos pentecostais, que no fundo o que importa” não é a doutrina, mas a experiência”. Isso equivale a por nossa experiência subjetiva acima da verdade de Deus revelada. Outros dizem crer que Deus propositadamente dá às pessoas uma expressão inteligente a fim de evitar a passagem por suas mentes orgulhosas, que ficam assim humilhadas. Pois bem. Deus certamente humilha o orgulho dos homens, mas não despreza a mente que ele próprio criou.

Estas três ênfases - a de muitos católicos no ritual, a de radicais na ação social, e a de alguns pentecostais na experiência - são, até certo ponto, sintomas de uma só doença, o anti-intelectualismo.
São válvulas de escape para fugir à responsabilidade, dada por Deus, do uso cristão de nossas mentes.
Num enfoque negativo, eu daria como substituto este trabalho “a miséria e a ameaça do cristianismo de mente vazia”. Mais positivamente, pretendo apresentar resumidamente o lugar da mente na vida cristã. Passo a dar uma visão geral do que pretendo abordar. No segundo capítulo, a título de introdução, apresentarei alguns argumentos - tanto seculares como cristãos - a favor da importância do uso de nossas mentes. No terceiro, constituindo a tese principal, descreverei seis aspectos da vida e responsabilidade cristãs, nos quais a mente tem uma função indispensável. Concluindo , procurarei prevenir contra o extremo oposto, também perigoso, de abandonar um anti-intelectualismo superficial para cair num árido super-intelectualismo. Não estou em defesa de uma vida cristã seca, sem humor, teórica, mas sim de uma viva devoção inflamada pelo fogo da verdade. Anseio por esse equilíbrio bíblico, evitando-se os extremos do fanatismo. Apressar-me-ei em dizer que o remédio para uma visão exagerada do intelecto não é nem depreciá-lo , nem negligenciá-lo, mas mantê-lo no lugar indicado por Deus, cumprindo o papel que ele lhe deu.

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FONTE: "Crer é também pensar - John R. W. Stott
Apenas um trecho do livro.

20:07 2
A PREDESTINAÇÃO 
 (Cinco afirmações incontestáveis) 
Rev. John Stott

 “A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por seu conselho, a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para honra. Por isso os que se acham dotados de um tão excelente benefício de Deus, são chamados segundo o propósito de Deus, por seu Espírito operando em tempo devido; pela graça obedecem à vocação; são justificados gratuitamente; são feitos filhos de Deus por adoção; são criados conforme à imagem de seu Unigênito Filho Jesus Cristo; vivem religiosamente em boas obras, e, enfim, chegam, pela misericórdia de Deus, à felicidade eterna”. (XVII Artigo de Religião – Predestinação e Eleição). 

 “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou, também justificou; aos que justificou também glorificou”. (Paulo aos Romanos.8:28-30). 

         Nestes dois versículos Paulo esclarece o que quis dizer no versículo 28 ao referir-se ao “propósito” de Deus, segundo o qual ele nos chamou e age para que tudo contribua para o nosso bem. Ele analisa o “bem” segundo os parâmetros de Deus, bem como o seu propósito de salvação, através de cinco estágios, desde que a idéia surgiu em sua mente até a consumação do seu plano na glória vindoura. Segundo o apóstolo, esses estágios são: presciência, predestinação, chamado, justificação e glorificação. 

Primeiro há uma referência a aqueles que Deus de antemão conheceu. Essa alusão a “conhecer de antemão”, isto é, saber de alguma coisa antes que ela aconteça, tem levado muitos comentaristas, tanto antigos como contemporâneos, a concluir que Deus prevê quem irá crer e que essa presciência seria a base para a predestinação. Mas isso não pode estar certo, pelo menos por duas razões. A primeira é que neste sentido Deus conhece todo mundo e todas as coisas de antemão, ao passo que Paulo está se referindo a um grupo específico. Segundo, se Deus predestina as pessoas porque elas haverão de crer, então a salvação depende de seus próprios méritos e não da misericórdia divina; Paulo, no entanto, coloca toda a sua ênfase na livre iniciativa da graça de Deus. 

Assim, outros comentaristas nos fazem lembrar que no hebraico o verbo “conhecer” expressa muito mais do que mera cognição intelectual; ele denota um relacionamento pessoal de cuidado e afeição. Portanto, se Deus “conhece” as pessoas, ele sabe o que passa com elas; e quando se diz que ele “conhecia” os filhos de Israel no deserto, isto significa que ele cuidava e se preocupava com eles. Na verdade Israel foi o único povo dentre todas as famílias da terra a quem Javé “conheceu”, ou seja, amou, escolheu e estabeleceu com ele uma aliança. O significado de “presciência” no Novo Testamento é similar. “Deus não rejeitou o seu povo [Israel], o qual de antemão conheceu”, isto é, a quem ele amou e escolheu (11:2). À luz deste uso bíblico John Murray escreve: “’Conhecer’... É usado em um sentido praticamente sinônimo de ‘amar’... Portanto, ‘aqueles que ele conheceu de antemão’... é virtualmente equivalente a ‘aqueles que ele amou de antemão”. Presciência é “amor peculiar e soberano”. Isto se encaixa com a grande declaração de Moisés: “Não vos teve o Senhor afeição, nem vos escolheu, porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo... mas porque o Senhor vos amava...”. A única fonte de eleição e predestinação divina é o amor divino. 

Segundo, aqueles que [Deus] de antemão conheceu, ou que amou de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos(29). O verbo predestinou é uma tradução de proorizõ que significa “decidiu de antemão” (BAGD), como se vê em Atos.4:28 (“Fizeram o que o teu poder e tua vontade haviam decidido de antemão que acontecesse”). É, pois, evidente que o processo de tornar-se um cristão implica uma decisão; antes de ser nossa, porém, tem de ser uma decisão de Deus. Com isso não estamos negando o fato de que nós “nos decidimos por Cristo”, e isso livremente; o que estamos afirmando é que, se o fizemos, é só porque, antes disso, ele já havia “decidido por nós”. Esta ênfase na decisão ou escolha soberana e graciosa de Deus é reforçada pelo vocabulário com o qual ela está associada. Por um lado, ela é atribuída ao “prazer” de Deus, a sua “vontade”, “plano” e “propósito”, e por outro lado, já existia “antes da criação do mundo” ou “antes do princípio das eras”. C. J. Vaughan resume esta questão nas seguintes palavras: 
Cada um que se salva no final só pode atribuir sua salvação, do primeiro ao último passo, ao favor e à ação de Deus. O mérito humano tem de ser excluído: e isto só pode acontecer voltando às origens do que foi feito e que se encontra muito além da obediência que evidencia a salvação, ou mesmo da fé a que ela é atribuída; ou seja, um ato de espontâneo favor da parte daquele Deus que antevê e pré-ordena desde a eternidade todas as suas obras. 

 Este ensino não pode se minimizado. Nem a Escritura nem a experiência nos autoriza faze-lo. Se apelarmos para a Escritura, veremos que no decorrer de todo o Antigo Testamento se reconhece ser Israel “a única nação na terra” a quem Deus decidiu “resgatar para ser seu povo”, escolhido para ser sua “propriedade peculiar”; e em todo o Novo Testamento se admite que os seres humanos são por natureza cegos, surdos e mortos, de forma que sua conversão é impossível, a menos que Deus lhes dê vista, audição e vida. 

 Nossa própria experiência confirma isso. O Dr. J. I. Packer, em sua excelente obra: O Evangelismo e a Soberania de Deus aponta que, mesmo que neguem isso, a verdade é que os cristãos crêem na soberania de Deus na salvação. “Dois fatos demonstram isso”, ele escreve. “Em primeiro lugar, o crente agradece a Deus pela sua conversão. Ora, por que o crente age assim? Porque sabe em seu coração que Deus foi inteiramente responsável por ela. O crente não se salvou a si mesmo; Deus o salvou. (…) Há um segundo modo pelo qual o crente reconhece que Deus é soberano na salvação. O crente ora pela conversão de outros... roga a Deus para que opere neles tudo quanto for necessário para a salvação deles”. Assim os nossos agradecimentos e a nossa intercessão provam que nós cremos na soberania divina. “Quando estamos de pé podemos apresentar argumentos sobre a questão; mas, postados de joelhos, todos concordamos implicitamente”. 

 Mesmo assim há mistérios que permanecem. E, como criaturas caídas e finitas que somos, não nos cabe o direito de exigir explicações ao nosso Criador, que é perfeito e infinito. Não obstante, ele lançou luz sobre o nosso problema de tal maneira a contradizer as principais objeções que são levantadas e a mostrar que a predestinação gera conseqüências bem diferentes do que se costuma supor. Vejamos cinco exemplos: 

         1.      Dizem que a predestinação gera arrogância, uma vez que (alega-se) os eleitos de Deus se gloriam de sua condição privilegiada. Mas o que acontece é justamente o contrário: a predestinação exclui a arrogância, pois afinal, não dá para entender como Deus pode se compadecer de pecadores indignos como eles! Humilhados diante da cruz, eles só querem gastar o resto de suas vidas “para o louvor da sua gloriosa graça” e passar a eternidade adorando o Cordeiro que foi morto. 

          2.      Dizem que a predestinação produz incerteza e que cria nas pessoas uma ansiedade neurótica quanto a serem ou não predestinadas e salvas. Mas não é bem assim. Quando se trata de incrédulos, eles nem se preocupam com a sua salvação – até que, e a não ser que, o Espírito Santo os convença do pecado, como um prelúdio para a sua conversão. Mas, se são crentes, mesmo que estejam passando por um período de dúvida, eles sabem que no final a sua única certeza consiste na eterna vontade predestinadora de Deus. Não há nada que proporcione mais segurança e conforto do que isso. Como escreveu Lutero ao comentar o versículo 28, a predestinação “é uma coisa maravilhosamente doce para quem tem o Espírito”. 

           3.      Dizem que a predestinação leva à apatia. Afinal, se a salvação depende inteiramente de Deus e não de nós, argumentam, então toda responsabilidade humana diante de Deus perde a razão de ser. Uma vez mais, isso não é verdade. A Escritura, ao enfatizar a soberania de Deus, deixa muito claro que isso não diminui em nada a nossa responsabilidade. Pelo contrário, as duas estão lado a lado em uma antinomia, que é uma aparente contradição entre duas verdades. Diferentemente de um paradoxo, uma antinomia “não é deliberadamente produzida; ela nos é imposta pelos próprios fatos... Nós não a inventamos e não conseguimos explicá-la. Não há como nos livrar dela, a não ser que falsifiquemos os próprios fatos que nos levaram a ela”. Um bom exemplo se encontra no ensino de Jesus quando declarou que “ninguém pode vir a mim, se o Pai... não o atrair” e que “vocês não querem vir a mim para terem vida”. Por que as pessoas não vão a Jesus? Será porque não podem? Ou é porque não querem? A única resposta compatível com o próprio ensino de Jesus é: “Pelas duas razões, embora não consigamos conciliá-las”. 

         4.      Dizem que a predestinação produz complacência e gera antinomianos. Afinal, se Deus nos predestinou para a salvação eterna, por que não podemos viver como nos agrada, sem restrições morais, e desafiar a lei divina? Paulo já respondeu esta questão no capítulo 6. Aqueles que Deus escolheu e chamou, ele os uniu com Cristo em sua morte e ressurreição. E agora, mortos para o pecado, eles renasceram para viver para Deus. Paulo escreve também em outro lugar que “Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença”. Ou melhor, ele nos predestinou para sermos conformes à imagem de seu Filho (29).

            5.      Dizem que a predestinação deixa as pessoas bitoladas, pois os eleitos de Deus passam a viver voltados apenas para si mesmos. Mas o que acontece é o contrário. Deus chamou um único homem, Abraão, e sua família apenas, não para que somente eles fossem abençoados, mas para que através deles todas as famílias da terra pudessem ser abençoadas. Semelhantemente, a razão pela qual Deus escolheu seu Servo, a figura simbólica de Isaías que vemos cumprida parcialmente em Israel, mas especialmente em Cristo e em seu povo, não foi apenas para glorificar Israel, mas para trazer luz e justiça às nações. Na verdade estas promessas serviram de grande estímulo para Paulo (como deveriam ser também para nós) quando ele, num ato de grande ousadia, decidiu ampliar sua visão evangelística para alcançar os gentios. Assim, Deus fez de nós seu “povo exclusivo”, não para nos tornarmos seus favoritos, mas para que fôssemos suas testemunhas, “para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.    

Portanto, a doutrina da predestinação divina promove humildade, não arrogância; segurança e não apreensão; responsabilidade e não apatia; santidade e não complacência; e missão, não privilégio. Isso não significa que não existam problemas, mas é uma indicação de que estes são mais intelectuais do que pastorais. 

 E o ponto que Paulo quer enfatizar no versículo 29 é, com toda certeza, pastoral. Tem a ver com dois propósitos práticos da predestinação de Deus. O primeiro é que nós devemos ser conformes [viver de conformidade com] à imagem de seu Filho. Ou, dito da forma mais simples possível, o eterno propósito de Deus para seu povo é que nos tornemos como Jesus. O processo de transformação começa aqui e agora, em nosso caráter e conduta, por meio da obra do Espírito Santo, mas só será completado e aperfeiçoado quando Cristo vier e nós o virmos, e quando nossos corpos se tornarem como o corpo de sua glória. O segundo propósito da predestinação de Deus é que, como resultado de nos tornarmos conformes à imagem de Cristo, ele passe a ser o primogênito entre muitos irmãos, desfrutando da comunhão da família como também da prerrogativa de ser o primogênito. 

 Vamos agora à terceira afirmação de Paulo: E aos que predestinou, também chamou (30a). O chamado de Deus é a aplicação histórica da sua predestinação eterna. Seu chamado chega às pessoas por meio do evangelho; quando esse evangelho é anunciado a elas com poder e elas lhe respondem com a obediência da fé, aí é que se sabe que Deus as escolheu. Assim a evangelização (o anúncio do evangelho), longe de se tornar supérflua em virtude da predestinação de Deus, é indispensável, pois é exatamente ela o meio proporcionado por Deus para que o seu chamado chegue às pessoas e desperte a sua fé. Fica, pois, evidente que aqui, quando Paulo fala do “chamado de Deus”, não se trata daqueles apelos generalizados do evangelho, mas sim da convocação divina que levanta os espiritualmente morto e lhes dá vida. Geralmente se chama isso de chamado “efetivo” de Deus. Aqueles a quem Deus dirige esse chamado (30) são os mesmos que “foram chamados de acordo com o seu propósito” (28). 

 Em quarto lugar, aos que chamou, também justificou (30b). O chamado efetivo de Deus capacita aqueles que o ouvem a crer; e aqueles que crêem são justificados pela fé. Como a justificação pela fé é um assunto dominante nos capítulos anteriores desta carta de Paulo, não há necessidade de se repetir o que já foi dito, a não ser talvez enfatizar que a justificação é muito mais do que simples perdão ou absolvição, ou mesmo aceitação; é uma declaração de que nós, pecadores, agora somos justos aos olhos de Deus, pois ele nos conferiu o status de justos, que na verdade trata-se da justiça do próprio Cristo. É “em Cristo”, em virtude da nossa união com ele, que nós fomos justificados. Ele se fez pecado com o nosso pecado, para que nós pudéssemos nos tornar justos com a sua justiça. 

 Quinto, aos que justificou, também glorificou (30c). Já por diversas vezes Paulo usou o substantivo “glória”. Trata-se essencialmente da glória de Deus, a manifestação do seu esplendor, a glória da qual todos os pecadores estão destituídos (3:23), mas que se regozijam na esperança de recobrar (5:2). Paulo promete também que se participarmos dos sofrimentos de Cristo iremos participar também da sua glória (8:17), e que a própria criação irá um dia experimentar a liberdade da glória dos filhos de Deus (8:21). Agora ele usa o verbo: aos que justificou, também glorificou. Nosso destino é receber corpos novos em um mundo novo, e ambos serão transfigurados com a glória de Deus. 

 Muitos estudiosos percebem que o processo da santificação, que ocorre entre a justificação e a glorificação, foi omitido no versículo 30. No entanto, ele está implícito ali, tanto na alusão a sermos conformados à imagem de Cristo, como na preliminar necessária para nossa glorificação. Pois “santificação é glória iniciada; glória é santificação consumada”. Além disso, tão certo é esse estágio final que, embora ainda se encontre no futuro, Paulo o coloca no mesmo tempo aoristo, como se fosse um fato passado, tal como tem usado para os outros quatro estágios que já são passado. É o assim chamado “passado profético”. James Denney escreve que “o tempo da última palavra é impressionante. É a mais ousada antecipação de fé que o próprio Novo Testamento contém”. 

 Vimos aqui, portanto, as cinco afirmações incontestáveis apresentadas por Paulo. Deus é retratado como alguém que se move irresistivelmente de um estágio ao outro; de uma presciência e predestinação eternas, através de um chamado e uma justificação históricos, para a glorificação final de seu povo em uma eternidade futura. Faz-nos lembrar uma cadeia composta de cinco elos inquebráveis.   

           
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 Stott, John, Romanos, 
ABU Editora, São Paulo, 2000, pp.300-306.

Reforma Radical

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