O Evangelho
Tal assertiva deve determinar, como ficará evidente, o conteúdo do evangelho de Deus. Se ele é as boas novas sobre a promessa, isto é, sobre uma positiva garantia de Deus para a descendência de Abraão, os herdeiros da promessa, que o Senhor irá conferir uma grande bênção e uma gloriosa herança a eles, segue-se que o conteúdo do evangelho deve estar sempre em coerência com o conteúdo da promessa; e aquele que declarar qualquer coisa além de suas preciosas dádivas não esta pregando o evangelho, mas vãs filosofias de homens. Deve ser dessa maneira a certeza da promessa; a tal ponto que aquele que muda esta certeza numa oferta incerta e condicionada está corrompendo a promessa e o evangelho de Deus. Finalmente, aquele que apresenta a matéria como se a promessa de Deus fosse feita a todos os homens, ou a um número incerto de pessoas, não esta pregando o evangelho e está fazendo de Deus um mentiroso. O Senhor não cumpre a promessa exceto para aqueles a quem ela foi feita, isto é, para a descendência de Abraão, os herdeiros de acordo com a eleição da graça.

Agora, o conteúdo da promessa, de acordo com a Escritura, é Cristo todas suas riquezas de salvação e bênção. Pois, o conteúdo é promessa que Deus levantaria um Salvador da descendência de Davi; que essa descendência iria levar sobre si os pecados de Seu povo; e que Deus iria fazê-Lo ressurgir dos mortos e dar Lhe a glória, exaltando-O no trono de Seu pai Davi, e Lhe dando os confins da terra como Sua possessão. Ele é a Semente prometida. A promessa, consequentemente, em concordância com a Bíblia, implica a garantia de retidão e paz, de perdão e filiação, de libertação e santificação, de vida eterna e glória, da incorruptível e indefinível herança que não acaba. Isso envolve Cristo e todos que Nele estão, posto que serão herdeiros do mundo, herdeiros do novo reino celestial, onde habitarão no tabernáculo de Deus para todo o sempre.

Desta forma, a promessa implica ainda o presente do Espírito Santo, primeiro a Cristo, depois àqueles que pertencem a Ele, e pelo Espírito todas as bênçãos de Cristo podem ser realizadas na igreja. Assim, é um erro apresentar o assunto, como se Deus tivesse simplesmente prometido a bênção objetiva da salvação para a descendência de Abraão, ou mesmo para os homens de maneira geral, como se dependesse de seus consentimentos para a promessa ser cumprida neles. Definitivamente, o dom do Santo Espírito está incluído na promessa. Ele é promessa de Deus, é a promessa de que Deus derramará Seu Espírito sobre toda carne. E através do Espírito, Ele efetivamente coloca a salvação em Cristo no coração de todo o Seu povo, por meio da regeneração, do chamado, da fé, da justificação, da santificação, da perseverança e da glorificação. Através do Espírito, eles são trazidos das trevas para a luz, e são mantidos no poder de Deus até a salvação que é para ser revelada no final dos tempos. Tudo isso está incluído na promessa, isto é, na declaração positiva por parte de Deus de que Ele, certamente, irá honrar estas bênçãos e bem-aventuranças da salvação em todo o Seu povo.

Esta promessa é, ao mesmo tempo, o conteúdo do evangelho. É o evangelho de Deus, evangelho que Ele sozinho é o Autor e que Ele proclama. Só Ele é capaz de declará-lo, ainda que revelado e pregado por meio de homens. Como seu conteúdo é o evangelho referente a Seu Filho, o Evangelho de Cristo, assim somente o Senhor Jesus pode ser pregado na proclamação desse evangelho. Por essa razão, é também o evangelho da glória do Deus bendito, através do qual e pelo qual Cristo, a glória dessa bênção, é revelado. Foi por esse evangelho que Deus deu a Cristo e a todos que Lhe pertencem a Sua própria glória.

Essa glória do Deus bendito, através da glória de Cristo e da igreja da qual Ele é o cabeça, deve ser realizada no evangelho. É o evangelho do Reino, pois o Reino do céu, em sua realização final e espiritual, é o fim da promessa que precisa ser proclamada. É o evangelho da graça de Deus, posto que todas as obras Dele, em nome da realização da promessa, são uma manifestação de Sua soberana graça, soberana em sua concepção, soberana em sua manifestação objetiva de Cristo, soberana em sua aplicação ao Seu povo. É o evangelho da paz, uma vez que nele o Senhor dos céus publica paz e leva boas novas. E, finalmente, é o evangelho da nossa salvação, posto que ele declara a plenitude da nossa salvação do pecado e da morte, e nossa entrada na gloriosa liberdade de filhos de Deus.

Chegamos, pois, à conclusão, com base na Palavra de Deus, a qual sozinha pode ser a nossa luz, que o evangelho é notícia agradável a respeito da promessa da nossa salvação, verdadeira promessa de Deus de que Ele nos livra de todos os pecados e culpas, da corrupção e da morte, e nos leva para a mais alta, ou melhor, para a mais humanamente inconcebível felicidade de Seu prometido Reino Celestial. O evangelho declara:
(1) que Deus, objetivamente, realiza, em e através de Cristo Jesus, de Sua humilhação e exaltação, toda a plenitude da Sua salvação;
(2) que Deus, subjetivamente, realiza e aplica todas as bênçãos da salvação através do Espírito da promessa;
(3) que Ele realiza sua obra de salvação em quem Ele quer, isto é, em Seu povo, os eleitos, aqueles que creem em Cristo, os humildes e de coração quebrantado, os cansados e oprimidos, todos aqueles que pranteiam em Sião.
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Extraído de: O Evangelho – por Herman Hoeksema
Tradução de Rev. Pedro Corrêa Cabral
Fonte (original): "The Gospel"

Reforma Radical

    A Bíblia emprega, com frequência, dois termos que estão proximamente relacionados tanto em seus respectivos significados como, também, em suas sonoridades, no original grego. São os vocábulos espangelia e evangelion, o primeiro significando "promessa," e o segundo "evangelho." Que tais termos são semelhantes em nossas mentes fica evidente com maior razão pela expressão comum, frequentemente usada e empregada pelas nossas confissões, a saber, "a promessa do evangelho". Tal expressão salienta que o evangelho contém uma promessa.

     Entretanto, este relacionamento próximo entre "promessa" e "evangelho" tornar-se ainda mais claro e é visto numa diferente perspectiva, se nos debruçamos sobre a Escritura e descobrimos que, de acordo com ela, o evangelho é verdadeiramente o evangelho da promessa. Isso é diretamente expresso em Gl. 3:8 e em At. 13:32. O primeiro texto diz “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. Observe-se que na última expressão temos a promessa”.

    Agora, de acordo com o texto, quando a promessa foi feita a Abraão, o evangelho foi pregado a ele. O evangelho e a promessa são, assim, identificados desta maneira, ou seja, a entrega da promessa por Deus a Abraão é por si só a pregação do evangelho. No outro texto, At. 13:32-33 lemos “Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita a nossos pais como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus ...” Fica evidente que a promessa feita aos pais e cumprida em nós, seus filhos, é a mesma que está mencionada em Gálatas 3. Aqui fica igualmente claro que, da mesma forma que na passagem anterior, o apóstolo fala sobre a promessa, como sendo a pregação do evangelho, ou a proclamação das boas novas. O evangelho é, então, em sua essência, de acordo com seu conceito, o evangelho da promessa, e, neste sentido, chamamos a sua atenção, leitor, a fim de que tal evangelho seja divulgado em concordância com a verdade da Escritura.

    Muito frequentemente, a Bíblia fala da promessa. Algumas vezes, refere-se a ela no plural, para expressar as riquezas de suas implicações. Contudo, mais amiúde, ela fala no singular para denotar unidade e identidade, mas sempre é a mesma promessa: a promessa que é feita a Abel, a Enoque, a Noé, a Abraão, Isaque e Jacó. Assim, por mencionar estes santos da antiga dispensação, e tendo falado de suas vidas e suas mortes, ou arrebatamento pela fé, o capítulo 11 de Hebreus nos diz no versículo 13 “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra”. E tendo revisto a vida e a batalha pela fé de muitos que formam a nuvem de testemunhas, incluindo-os todos em sua visão, o autor da carta aos Hebreus finalmente afirma no versículo 39 “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa ...”

    Estas passagens deixam claro, em todas elas, que havia uma promessa dada aos santos a qual eles abraçaram e creram, e pela qual viveram e morreram, pela qual estavam dispostos a ser estrangeiros e peregrinos na terra, passar fome, ser exilados e presos, suportar o martírio, a zombaria e toda sorte de sofrimentos. Eles foram mortos a fio de espada e serrados pelo meio, andaram peregrinos vestidos peles de cabras, afligidos, destituídos de seus pertences e atormentados de todas as maneiras. Todavia, na grandeza da fé e severidade do sofrimento desses patriarcas, podemos ver refletida a beleza e a riqueza da promessa que eles tinham e enxergar muito além disso. Gálatas 3 é um clássico capítulo sobre a promessa. Ele enfatiza que tal promessa foi feita a Abraão e à sua descendência, e que a semente do patriarca é central e essencialmente Cristo (v. 16). É óbvio que Cristo, o Descendente, que é o cumprimento da promessa, é, ao mesmo tempo também, o principal receptor dela. Ela afirma que a Lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois da promessa a Abraão, não a pode anular (v. 17); mas Deus concedeu a herança a Abraão pela promessa (v. 18). Chega-se à conclusão que, se somos de Cristo, então somos descendência de Abraão e herdeiros de acordo com a promessa (v. 29).

     Quanto ao conteúdo dessa promessa, a Bíblia fala dela como a promessa do Espírito Santo, dada a Cristo (At. 2:33) e àqueles que são dele pela fé (Gl. 3:14); é a promessa de vida (1Tm. 4:8; II Tm. 1:1); a promessa da vida eterna (I Jo. 2:25); a promessa da volta de Cristo (II Pe. 3:4); a promessa de entrar no descanso de Deus (Hb. 4:1); a promessa de ser herdeiro do mundo (Rm. 4:13); a promessa de trazer o Salvador da raiz de Davi (At. 13:23). Por essa razão, a Escritura fala ainda do Espírito como o Espírito da promessa (Ef. 1:13); de filhos da promessa, isto é, de filhos que são nascidos da descendência da promessa, pelo poder e de acordo com ela e sobre os quais ela descansa (Rm. 9:8). A Bíblia chama a atenção para os herdeiros e coerdeiros da promessa, uma vez que nem todos os homens a receberam (Hb. 6:17, 11:9). E no início da Nova Aliança, a Escritura pontua em Atos 2:39 “Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar”.

    Nestas circunstâncias, é importante que entendamos claramente a natureza de uma promessa. Não é de forma alguma o mesmo que uma oferta. Nesta última acepção, a pessoa que faz a oferta declara sua disposição em fazer algo para ou a favor de quem a oferta é feita, mas para sua realização ela depende da disposição da outra parte, do seu consentimento. Entretanto, uma promessa é diferente. É uma declaração escrita ou verbal que compele à pessoa que a fez realizar ou desistir de realizar a coisa prometida. É, assim, um compromisso independente de qualquer dever ou obrigação por parte da pessoa a quem a promessa foi feita. Consequentemente, ela implica na declaração de certo benefício, com a garantia de que tal benefício será aplicado ou realizado a favor da pessoa a quem a promessa está dirigida. Esta garantia, em relação à promessa bíblica, é potencializada pelo fato de que o próprio Deus é quem a fez. Deus concebeu a promessa, logo é Ele quem realiza a coisa prometida. Ele declara a promessa, o que implica, em primeiro lugar, que tal promessa não pode estar condicionada, porque Deus é Deus, e o seu agir, com toda certeza, não pode estar na dependência da vontade da criatura. Em segundo lugar, isso significa que a promessa é tão fiel e verdadeira como Deus é imutável. Ele certamente cumprirá a promessa. Quando Ele se compromete a fazer ou entregar alguma coisa, Ele é obrigado por Ele mesmo e por todos os seus divinos atributos a realizar a promessa para quem ela foi feita, posto que Ele não pode negar a si mesmo.

    Esse conceito da promessa, necessariamente, implica que ela é feita a um grupo definido de pessoas. Uma oferta, por outro lado, por ser dependente da aceitação e do consentimento de uma segunda pessoa, pode ser genérica, ou vaga. Uma promessa, no entanto, que compromete a parte promitente e que assegura sua realização, exige a existência de uma definida segunda pessoa. E é desta maneira que a promessa está nas Escrituras. Não obstante, a promessa é feita para Cristo e, através Dele, para a descendência de Abraão, para os filhos da promessa, para aqueles que são chamados herdeiros e coerdeiros dela. Que este é, certamente, o conceito da promessa está claramente expresso na Escritura. Neste sentido, lemos em Hebreus 6:13-14,17 “Pois, quando Deus fez a promessa a Abraão, visto que não tinha ninguém superior por quem jurar, jurou por si mesmo, dizendo: Certamente, te abençoarei e te multiplicarei ... Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu propósito, se interpôs com juramento”. Assim, para os herdeiros da promessa, ela é inevitável, porque está atrelada ao imutável propósito do Altíssimo.

      Assim, o conceito do evangelho é que ele é uma agradável notícia sobre esta promessa de Deus. Agradável notícia de boas novas é o significado da palavra evangelion. Agradável notícia por duas razões: Em primeiro lugar, por causa da miséria atual dos herdeiros da promessa. Eles estão no mundo, e neste mundo estão sujeitos ao pecado e à corrupção, ao sofrimento e à morte. A experiência atual deles é de desespero e de angústia, de aflição e de tormento, de miséria e de gemidos. Mas a promessa assegura-lhes a libertação do presente estado de miséria e de completa pobreza espiritual. Em segundo lugar, o evangelho é agradável notícia porque trata da inefável riqueza da herança que está prometida. Contudo, a promessa não assegura aos herdeiros apenas a libertação do pecado e da morte, como também a restauração a um estado e a uma condição anterior, mas enche seus corações com uma esperança de glória jamais imaginada pelo homem. Compreende-se, portanto, que esta agradável notícia a respeito da promessa somente pode ser concedida por Ele, o Deus poderoso, que concebeu tal promessa. O Senhor proclama a promessa. Ele prega o evangelho. O Evangelho, que fala de coisas que olho algum viu, e ouvido algum ouviu, e que nunca foi concebido pelo coração do homem, somente pode vir através da revelação de Deus. Entretanto, esta revelação de Deus, esta divina proclamação do evangelho, sempre acontece por meio dos homens. Logo, aquele que prega o evangelho pode, com autoridade, declarar, em nome de Deus, a agradável notícia da promessa, sobre a certeza de seu cumprimento, sobre a riqueza de suas bênçãos e sobre o progresso de sua realização na história. Por toda a história da humanidade existem no mundo herdeiros da promessa. Eles conhecem a promessa. Estão ansiosos por ela e esperam por sua realização. Questionam sobre o seu conteúdo e sobre a proximidade de seu completo cumprimento. E aquele que pode responder a esses ansiosos questionamentos e trazer alguma boa notícia sobre a promessa está pregando o evangelho.
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Extraído de: O Evangelho – por Herman Hoeksema
Tradução de Rev. Pedro Corrêa Cabral

Fonte (original): "The Gospel"
Reforma Radical

       Divórcio e Novo Casamento: Mateus 19:9 - David Engelsma

Mateus 19:9 "Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério".

A questão abaixo veio de um leitor, pedindo mais luz sobre divórcio e novo casamento. O pedido é uma resposta às series de ensaios que apareceram primeiramente na revista Standard Bearer: "O Triste Caso de Bert Zandstra," "O Escândalo do Silêncio," e "O Novo Casamento da Parte Culpada." O pedido por mais luz questiona particularmente a Palavra de Jesus Cristo em Mateus 19:9.

  • A de outra forma excelente série sobre divórcio e novo casamento do Prof. Engelsma me deixou com uma dúvida lógica. A menos que eu esteja lendo Mateus 19:9 de uma forma totalmente incorreta, a exceção de "adultério" parece estar relacionada diretamente com a frase, "e casar de novo," em cujo caso a Confissão de Westminster está correta ao dizer: "no caso de adultério depois do casamento, à parte inocente é lícito propor divórcio, e depois de obter o divórcio casar com outrem, como se a parte infiel fosse morta" (CFW XXIV.V). Por outro lado, a visão do Prof. Engelsma de que o adultério é o único fundamento para a "separação" não parece levar em conta a frase, "e casar com outrem." Contudo (e esta é a minha dúvida), tanto 1 Coríntios 7:39 como Romanos 7:3 claramente implicam que a morte de um cônjuge é o único fundamento para o novo casamento.
  • O problema que tenho (e estou grandemente perturbado com tudo isto) é que estas passagens parecem apresentar uma contradição. Por um lado, divórcio e novo casamento são aparentemente permissíveis no caso de adultério. Por outro lado, o único fundamento para o novo casamento é a morte de um cônjuge. Embora os argumentos do Prof. Engelsma contra o divórcio no caso de adultério sejam convincentes, particularmente à luz dos nossos adultérios contra o Senhor, ainda estou confuso sobre como faria uma exegese de Mateus 19:9. Ou Engelsma está correto e a CFW está errada neste ponto (note: eu nem mesmo perguntei sobre a frase "não está sujeito à servidão" em I Coríntios 7:15!), ou a CFW está correta e Engelsma está impondo restrições extra-bíblicas sobre o divórcio e novo casamento. Contudo, se a CFW está correta, ainda terei dificuldade com I Coríntios 7:39 e Romanos 7:3.
  • Certamente não quero dar nenhum crédito aos Van-Tilianos que tão avidamente abraçam os "paradoxos da Escritura."
  • Se o Prof. Engelsma lançar mais luz sobre este assunto, eu apreciaria.

Virginia Beach, VA
A Escritura então se contradiz?
   
Há um texto na Bíblia que poderia parecer aprovar o novo casamento após o divórcio. Um texto! Se entendido como novo casamento aprovado, este texto aprovaria o novo casamento somente da "parte inocente", isto é, a pessoa casada cuja esposa (ou esposo) cometeu adultério. Todos os outros novos casamentos são proibidos, sendo considerados como adultério.
Este texto é Mateus 19:9:
  • "Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério."
Contra a aparente aprovação do novo casamento da "parte inocente" em Mateus 19:9, existem vários textos que claramente proíbem todos os novos casamentos após o divórcio, a despeito do fundamento do divórcio. Estas passagens condenam todo novo casamento após o divórcio como sendo adultério.
  • Marcos 10:11-12: "E ele lhes disse: Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera."
  • Lucas 16:18: "Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério; e aquele que casa com a mulher repudiada pelo marido também comete adultério."
  • 1Coríntios 7:10-11: "Todavia, aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher."
  • 1Coríntios 7:39: "A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo em que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor."
  • Romanos 7:2-3: "Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for doutro marido; mas, morto o marido, livre está da lei e assim não será adúltera se for doutro marido." 
A proibição de novo casamento nestas passagens é absoluta.

Romanos 7:2,3 e 1Coríntios 7:39 fundamentam a proibição absoluta na natureza do casamento, pois este é uma ligação para toda vida, em virtude da ordenação soberana de Deus como Criador e Governador deste mundo.

Um texto aparentemente conflita com esta proibição absoluta de novo casamento, por supostamente aprovar o novo casamento da "parte inocente."

Se Mateus 19:9 de fato permite o novo casamento da "parte inocente", ele contradiz fatalmente o ensino da Escritura sobre casamento, divórcio e novo casamento nas passagens citadas acima, especialmente I Coríntios 7:39.

Admissão da Contradição na Confissão de Westminster
     
Embora adote a posição de que Mateus 19:9 permite o novo casamento da "parte inocente", a Confissão de Fé de Westminster realmente admite esta permissão do novo casamento da "parte inocente", e, portanto, Mateus 19:9 (como os teólogos de Westminster explicam), contradiz I Coríntios 7:39. Ela faz esta admissão quando, tendo dito, "no caso de adultério depois do casamento, à parte inocente é lícito propor divórcio, e depois de obter o divórcio casar com outrem", ela adiciona: "como se a parte infiel fosse morta." Os representantes da Assembléia de Westminster reconheceram que sua permissão de novo casamento da "parte inocente," supostamente sobre a base de Mateus 19:9, contradizia a regra de I Coríntios 7:39 de que somente a morte dissolve o laço do casamento, de forma que uma pessoa casada esteja livre para casar com outra.

Portanto, os teólogos de Westminster sentiram necessário confeccionar o estranho, assustador e obviamente falso decreto de que o adultério efetivamente torna o adultero—a "parte culpada"—morto no sentido de I Coríntios 7:39. Assim, eles tentaram conformar Mateus 19:9 (como eles o explicavam) com I Coríntios 7:39.
O problema com isto é que I Coríntios 7:39 não está se referindo a uma morte fictícia, virtual, "faz de conta" e irreal. O apóstolo não diz, "mas se ela ou alguém mais decidir considerar seu marido como morto, ela está livre para casar com quem quiser." A morte em I Coríntios 7:39, a qual é a única que dissolve o laço do casamento, de forma que a pessoa casada pode se casar com outra, é uma morte real e física—morte que quebra todos os laços terrenos, morte que coloca o corpo (que de outra forma deveria estar na cama com sua esposa) do homem na sepultura.
A explicação de Mateus 19:9 segundo a qual é permitido que a "parte inocente" case novamente, contradiz I Coríntos 7:39. Neste caso, a Escritura contradiz a Escritura.

Mateus 19:9 é Auto-Contraditório?
     
A questão piora ainda mais. Se Mateus 19:9 permite o novo casamento da "parte inocente," o texto é auto-contraditório. Ao invés de proibir o novo casamento, entre outros, da "parte culpada" como sendo adultério (isto é o que o texto expressamente ensina), o texto realmente abre a porta para o novo casamento da "parte culpada." Ele faz isto exatamente ao permitir o novo casamento da "parte inocente." Pois se a "parte inocente" pode casar novamente, este deve ser um caso no qual o laço do casamento entre a "parte inocente" e a "parte culpada" está dissolvido. Mas se o casamento está dissolvido, presumivelmente pelo adultério da "parte culpada," ele está dissolvido para a "parte culpada" tanto quanto para a "parte inocente." E se não há nenhum casamento, a "parte culpada" tem todo direito de casar novamente. Não estando casado, ela está livre para casar (novamente).
Assim, Mateus 19:9 contradiz a si mesmo e mergulha a questão de divórcio e novo casamento numa confusão e caos completo.

A Harmonia de Mateus 19:9 com Toda Escritura
   
Na realidade, não há nenhuma contradição entre Mateus 19:9, por um lado, e todos os textos proibindo o novo casamento, por outro lado. Mateus 19:9 meramente parece aprovar o novo casamento da "parte inocente." Para dizer de uma forma mais correta, a aprovação do novo casamento da "parte inocente" é uma inferência que alguns erroneamente extraem de Mateus 19:9.
O significado de Mateus 19:9 é que todo divórcio é proibido, exceto aquele devido à infidelidade sexual de um dos cônjuges. Lembrando da pergunta dos fariseus no versículo 3, o assunto principal da passagem é a legitimidade do divórcio. A frase, "não sendo por causa de prostituição," dá a única exceção bíblica à proibição de divórcio. Ele não dá uma exceção à proibição de novo casamento. Para dizer de uma forma diferente, as palavras "não sendo por causa de prostituição" dão o único fundamento bíblico para se divorciar da esposa (ou marido). Eles não dão um fundamento bíblico para o novo casamento após o divórcio.
Cristo menciona o novo casamento no texto. Ele menciona isto porque quase sempre o homem que divorcia de sua esposa, ou intenta casar com outra mulher ou eventualmente se casará com outra.
O que dizer sobre novo casamento após o divórcio? O que dizer sobre a permissibilidade do novo casamento após o divórcio em Mateus 19:9?
Não há nenhuma questão sobre o novo casamento do homem que divorcia de sua esposa injustamente, isto é, o homem cuja esposa não é culpada de prostituição. Jesus declara—na verdade, este é o seu propósito principal no texto—que tal pessoa comete adultério quando se casa novamente.
Mas o que dizer sobre o novo casamento do homem que divorcia de sua esposa sobre o fundamento da prostituição dela? O que dizer sobre o novo casamento da "parte inocente" em Mateus 19:9?
Se Mateus 19:9 fosse concluído com as palavras "... e casar com outra, comete adultério", haveria alguma escusa para a incerteza de se o texto permite o novo casamento da "parte inocente" ou não. Mesmo então, a igreja teria que levar em conta o ensino claro e explícito da Escritura (em outros lugares) de que todo novo casamento após o divórcio é proibido. A Escritura interpreta a Escritura. A passagem duvidosa deve ser explicada à luz das passagens mais claras.
Mas Mateus 19:9 não termina dessa forma! Há uma segunda parte: "e o que casar com a repudiada também comete adultério." A repudiada é a mulher da primeira parte do texto cujo marido se divorciou injustamente dela e se casou com outra, cometendo adultério. Ela é a "parte inocente". Todavia, quem quer que se case com ela comete adultério. Certamente, ela também comete adultério, se ela casar novamente.
Mateus 19:9 condena o novo casamento da "parte inocente" como sendo adultério.
Por quê?
Porque a esposa (ou marido) está ligada pela lei ao seu marido (ou sua esposa) enquanto seu marido (ou sua esposa) viver. Somente a morte dissolve o laço. O adultério não dissolve o laço do casamento. Enfaticamente, o adultério não tem o poder para dissolver o laço do casamento.
Mateus 19:9 está em perfeita harmonia com tudo da Escritura na questão vitalmente importante do casamento, divórcio e novo casamento.
O divórcio é permitido sobre o fundamento da prostituição.
Todo novo casamento após o divórcio é proibido como sendo adultério, incluindo o novo casamento da "parte inocente".
A razão é que a ordenança honorável de casamento da parte de Deus é um laço para a vida toda, indissolúvel.
Que os santos pratiquem isso!

Que a igreja proclame isso!


E defenda-a com disciplina!
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Fonte: Capítulo 5 do livro Until Death Do Us Part.
Reforma Radical

Deus: Um Deus Pactual | Prof. Herman Hanko
Deus é um Deus pactual. O maior fundamento para o pacto da graça deve ser encontrado na verdade que Deus vive uma vida pactual em si mesmo, à parte das criaturas que criou.

Deus é triúno. Isto é, Deus é um em essência e três em pessoa. Esta doutrina central e importantíssima da igreja tem permanecido como a rocha inamovível sobre a qual toda a verdade é baseada. E esta trindade é a principal razão pela qual Deus é um Deus pactual e vive uma vida pactual dentro de si mesmo. Sem a realidade da trindade, o pacto seria impossível.

Que Deus é um em essência significa que há somente um Deus, um Ser divino, uma essência divina. Há em Deus somente uma mente e uma vontade, uma vontade divina, uma vida divina. Todos os atributos de Deus são atributos da essência e, portanto, do próprio Deus.

Todavia, embora Deus seja um em essência, ele é também três em pessoa. Dentro de Deus há três Egos distintos, três que dizem "Eu". Essas três pessoas são o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Não devemos ficar com a falsa impressão que esses três não são inteiramente distintos um dos outros até onde diz respeito às suas características pessoais e atributos. O Pai é pessoalmente distinto do Filho e do Espírito Santo, e o Filho é pessoalmente distinto do Pai e do Espírito Santo. E o que pode ser dito do Pai e do Filho pode ser igualmente dito do Espírito Santo. É verdade que eles vivem em uma unidade de essência. É verdade que eles possuem uma só mente e uma só vontade. Mas o Pai pensa como Pai; o Filho pensa como Filho; o Espírito Santo é pessoalmente distinto do Pai e do Filho em seu pensamento e vontade. E, todavia, eles pensam e desejam os mesmos pensamentos e desejos. A vida deles é uma; a alegria deles é uma; o propósito deles é um; há somente um Deus.

Sobre esta verdade da trindade descansa a verdade da vida pactual que Deus vive em si mesmo.

Deus não é o Alá Maometano que é somente uma força impessoal e estática, com a qual uma pessoa deve contar. Deus é triúno. E porque ele é triúno, ele é o Deus vivo, vivendo uma vida perfeita e completa dentro de si mesmo. Esta vida que ele vive é plena e bendita. Ele não precisa de ninguém, nem mesmo das suas criaturas, para tornar sua vida mais plena ou rica. A criação não pode adicionar algo à sua glória e felicidade. Nenhuma criatura pode enriquecer aquele que é todo-suficiente. Ele é perfeito, santo, eternamente bendito, puramente feliz em toda sua vida.

Isso é verdade porque ele vive uma vida pactual dentro de si mesmo. E essa vida pactual que Deus vive dentro de si mesmo é a associação e comunhão que ele desfruta dentro de si mesmo na unidade de essência e trindade de pessoa da Divindade. Há associação e ela pode ser perfeita somente porque há uma perfeita unidade de essência inerente na vida de Deus. Mas ao mesmo tempo, há e pode haver associação e comunhão somente porque há uma trindade de pessoa. Se Deus fosse um em essência e um em pessoa, tal comunhão seria impossível, pois comunhão implica uma pluralidade de pessoas. Se, por outro lado, Deus fosse três em pessoa e um em essência, a associação seria também menos que perfeita, pois a diferença em essência tornaria a plena associação impossível. Mas, pelo contrário, cada uma das três pessoas conhece as outras duas perfeita e completamente. E nessa unidade de essência há uma comunhão de essência e natureza, uma associação de vida e amor, uma felicidade transcendente que caracteriza a associação de Deus à medida que as três pessoas regozijam-se em sua mútua comunhão. Essa associação, felicidade suprema, comunhão de vida e amor é a vida pactual do próprio Deus.

Como dissemos, essa vida de Deus é plena e perfeita. O homem não pode enriquecer a vida de Deus de forma alguma. Deus não é incompleto sem o homem. Seria o cume da tolice e o ápice do orgulho pecaminoso dizer que o único Deus vivo e verdadeiro, o soberano dos céus e terra, o único que é infinitamente glorioso e eterno, precisa do homem para completar ou aperfeiçoar sua glória. Sua felicidade é plena; sua vida e amor são completos; sua glória é perfeita. Deus não precisa de nós; somente nós precisamos dele.

Essa verdade é claramente apresentada, por exemplo, em Isaías 40:12-18: "Quem na concha de sua mão mediu as águas e tomou a medida dos céus a palmos? Quem recolheu na terça parte de um efa o pó da terra e pesou os montes em romana e os outeiros em balança de precisão? Quem guiou o Espírito do SENHOR? Ou, como seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou ele conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de entendimento? Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta. Nem todo o Líbano basta para queimar, nem os seus animais, para um holocausto. Todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo. Com quem comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?".

Se perguntássemos a nós mesmos nesse ponto, "por que Deus criou o homem e estabeleceu seu pacto com seu povo?", então tocaríamos no próprio cerne da nossa relação com Deus em toda nossa vida. A resposta na qual chegaremos é uma resposta que pode apenas prostrar o filho de Deus no pó e cinza, diante da grandeza do Todo-poderoso. É somente por causa da bondade suprema e soberana de Deus, que nunca pode ser adequadamente explicada em linguagem humana ou entendida por meras mentes finitas, que Deus achou certo não somente criar os mundos, mas criar também um povo para amá-lo e participar de sua glória e bondade. Deus quis fazer assim! Mais que isso não podemos dizer.

Aqui tocamos um ponto essencial em nosso entendimento da doutrina do pacto da graça.

Deus não pode ser conhecido por quaisquer esforços que o homem produza. Porque ele é tão grande e tão infinitamente exaltado acima de tudo desta sua criação, ele é também desconhecido ao homem – à parte da revelação. O abismo profundo e amplo que separa Deus do homem é um abismo que não pode ser transpassado pelo homem nem cruzado pelos esforços da criatura. Deus habita numa luz inacessível ao homem. Ele é o Deus invisível que é grandemente exaltado. Os céus são o seu trono e a terra o estrado dos seus pés. Se, portanto, ele há de ser conhecido pela criatura, será conhecido somente porque se fez conhecido através da sua própria revelação. Se é possível para nós conhecê-lo de alguma forma, é somente porque ele se revelou para nós duma forma que podemos entender e apropriar para nós mesmos.

Em outras palavras, se Deus é conhecido de alguma forma, isso pode ser somente pela maravilha impressionante de uma revelação que revela a verdade do Deus infinito, e, todavia, revela-a de uma forma que o homem pode entender. Deus jamais pode ser conhecido por nossos poderes de razão e intelecto, nem pela força encontrada no homem; nem pela investigação científica ou pelos melhores esforços do homem. O único caminho é o homem se curvar em humildade diante da Palavra de Deus, e orar para que seus esforços para penetrar as maravilhas dessa Palavra possam ser abençoados por seu Pai no céu. Nessa Palavra está contida toda a verdade da trindade, a verdade de todas as perfeições gloriosas de Deus, a verdade de sua gloriosa vida pactual, a verdade do eterno pacto da graça.

E assim, falar do pacto da graça é falar de revelação. Toda revelação é Deus falando sobre si mesmo. Quer estejamos agora falando da "revelação" de Deus na criação, em Cristo, ou nas Escrituras como o registro infalível de Deus em Cristo, ela é sempre Deus falando. E Deus fala somente de si mesmo. Assim também é com sua revelação do pacto da graça. Essa revelação é Deus falando de si mesmo, particularmente da vida pactual que ele vive em si mesmo. Quando Deus revela sua vida pactual ao homem, então e somente então o pacto da graça é estabelecido com o homem.

Contudo, devemos lembrar que essa não é simplesmente uma revelação em palavras. Também, mas é mais que isso. Quando Deus estabelece seu pacto com seu povo, ele não o faz somente lhes falando sobre a vida pactual que ele vive dentro de si mesmo, mas ele revela sua vida pactual que vive dentro de si mesmo ao seu povo colocando-os na sua própria vida pactual. Ele faz com que os homens compartilhem a alegria e felicidade da sua própria associação. Ele dá aos homens uma prova da grandeza dessa comunhão e associação que ele desfruta em si mesmo.

Talvez uma ilustração torne isso mais claro. A vida pactual de Deus que ele vive dentro de si mesmo é uma vida "familiar". O Deus triúno é um Deus "familiar". Essa vida "familiar" é refletida em nossa própria vida familiar, onde há verdadeira associação pactual. Tal família é usualmente composta de um pai, uma mãe e seus filhos. Essa família desfruta a associação e comunhão de uma unidade de natureza e uma distinção de pessoas. Essa vida familiar, abençoada por Deus, é feliz e pacífica. Se essa família estivesse descendo uma rua de uma das nossas grandes cidades, eles poderiam se deparar com uma garotinha sem casa, que foi abandonada por sua família. A garotinha não tem pais, nem lar, amigos ou associação com alguém. Ela é pobre e subalimentada. Sua barriga está inchada devido à subnutrição. Suas roupas são trapos. Seu cabelo está cheio de piolho e emaranhado. Seu corpo está coberto de feridas cheias de pus. A família que está passando pode ficar com piedade dela e dizer entre eles mesmos que é realmente muito triste que essa garota não tenha ideia da alegria de uma vida em família. Nesse ponto, eles poderiam fazer duas coisas. Poderiam, no desejo de informar-lhe sobre as alegrias de uma vida familiar, se aproximar dela e contar sobre o lar que possuem. Isso certamente daria àquela garota certa ideia do que uma vida familiar abençoada pode realmente ser. Mas isso não faria absolutamente nenhum bem àquela garota. Eles poderiam dizer entre si também que a única forma de fazer essa garota entender plenamente o que uma vida familiar abençoada pode ser é levando-a para casa com eles, e fazer dela um membro da família. Assim, eles então a levariam para casa, dariam um banho de ducha quente nela, colocariam pomadas cicatrizantes em suas feridas, limpariam e penteariam seus cabelos, a trariam para mesa onde poderia ter um lugar com as outras crianças, e faria dela uma filha que compartilharia de um modo real todas as alegrias e bênçãos da família. Quando ela realmente soubesse de todo o seu coração que era amada e que se importavam com ela, que era um membro verdadeiro da família, então ela conheceria também qual é exatamente a benção de uma vida em família.

Essa é a revelação da vida pactual de Deus para nós. É uma maravilha que não poder ser descoberta de outra forma. Deus toma seu povo em sua vida familiar triúna. Ele livra-os dos seus pecados, lava-os da sua corrupção, alimenta-os com pão celestial, faz deles filhos e filhas – sendo o Pai celestial delas – e decreta que eles serão os herdeiros de sua herança eterna. Eles são levados para a vida pactual do Deus triúno. Pedro ousa dizer que somos realmente participantes da natureza divina (II Pe. 1:4).

Mas devemos lembrar que essa vida pactual que Deus vive em si mesmo é uma vida de associação e amizade. Quando por seu pacto da graça Deus nos leva à associação e amizade de sua própria trindade, esse é o pacto da graça estabelecido conosco através de Jesus Cristo. E assim, esse pacto é essa união de associação e amizade que Deus estabelece conosco através do seu Filho querido.

Entrar na vida de associação do próprio Deus permanecerá sendo eternamente a maravilha incompreensível da nossa salvação.

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Fonte: God’s Everlasting Covenant of Grace, Herman Hanko, Reformed Free Publishing Association, p. 7-11.
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FONTE 2: www.cprf.co.uk (Covenant Protestant Reformed Church).
Reforma Radical
Pacto e Soberania | Prof. Herman Hanko
Qualquer um que esteja inteirado com a história do desenvolvimento da doutrina, desde o tempo da Reforma Protestante, entenderá a importância da verdade do eterno pacto da graça de Deus. À medida que as verdades da Reforma Calvinista se desenvolveram na Inglaterra e na Europa em geral, a doutrina do pacto ocupou um lugar extremamente importante. Quase todo teólogo de notoriedade prestou atenção a ela.

Todavia, há uma característica significante sobre o desenvolvimento dessa doutrina: quase nunca os teólogos que prestaram atenção ao pacto foram capazes de harmonizar essa verdade com as verdades da graça soberana em geral e com a predestinação soberana em particular. Olhe para onde desejar entre os teólogos Presbiterianos e Reformados, e você encontrará uma tensão entre essas duas grandes verdades da Palavra de Deus. Se as verdades da graça soberana e da dupla predestinação foram enfatizadas (e há muitos que fizeram isso), a verdade do pacto foi pressionada num canto relativamente pequeno da sua teologia. Se, por outro lado, a ênfase central do teólogo residiu na doutrina do pacto (tais como, por exemplo, Cocceius), as verdades da graça soberana e da dupla predestinação receberam, na melhor das hipóteses, uma pequena atenção.

Por que isso? Estamos convencidos que a resposta para essa pergunta reside no fato que, quase sem exceção, a doutrina do pacto foi definida em termos de um acordo entre Deus e o homem. A essência do pacto foi definida em termos de tal acordo, e tanto o estabelecimento do pacto como sua continuação eram dependentes de estipulações, condições, provisões e promessas mútuas, que são inerentes num acordo. Aqui reside o problema. Um pacto que é um acordo é um pacto que é condicional. E um pacto que é condicional depende do homem para sua realização. Quando, em qualquer sentido, a obra da salvação depende do homem, consequentemente, as verdades da graça soberana sofrem prejuízo.

Isso não é o mesmo que dizer que esses teólogos ensinaram uma salvação que dependia do homem. Longe de ser verdade! Tanto na teologia inglesa como na européia em geral, houve muitos que defenderam vigorosa e consistentemente as verdades da graça soberana. Mas quando esse foi o caso, ou a doutrina do pacto não foi integrada no sistema completo de teologia apresentado por esses homens, ou um tipo de "feliz inconsistência" levou esses teólogos a sustentaram ambas as doutrinas. O fato é que um pacto condicional e uma graça soberana não podem ser harmonizados.

Esse problema está absolutamente relacionado à questão do batismo infantil. Se o pacto é um acordo, e portanto, condicional, as criancinhas não podem, no sentido mais profundo da palavra, pertencer ao pacto; elas são incapazes de cumprir as condições até que cheguem ao amadurecimento. Isso levou, durante o decorrer dos anos, a algumas amargas controvérsias sobre a questão do batismo infantil. Algumas vezes o debate entre os defensores do batismo infantil e aqueles que sustentam o batismo somente de crentes foi furioso. Esse debate se intensificou nas últimas décadas, provavelmente em parte porque muitos que sustentam uma posição "batista" têm, ao mesmo tempo, adotado um certo Calvinismo que enfatiza as doutrinas da graça. Eles são Batistas Calvinistas em distinção dos Batistas Arminianos. Regressando até Charles Spurgeon, e até mesmo antes, há uma corrente de pensamento entre os Batistas que defende as verdades centrais da graça soberana, enquanto continuando a negar o batismo infantil.

Esses "Batistas Calvinistas" ou "Reformados" incitaram uma renovação do debate, ou pelo menos geraram um grau de maior intensidade no debate; e isso porque aqueles que defendem a verdade do batismo infantil têm geralmente mantido que as idéias do batismo dos crentes e da graça soberana são mutuamente exclusivas, e que aqueles que sustentam essas duas posições sustentam uma visão de salvação contraditória. Os Batistas, certamente, repudiam esta acusação, e o debate continua.

Mas mesmo dentro dos círculos daqueles que sustentam o batismo infantil há controvérsias. Muitos que têm sido historicamente Reformados e que têm, a partir da posição Reformada deles, sustentado a doutrina do batismo infantil, não são mais capazes de defender sua posição contra a apologética energética e contundente dos Batistas. O resultado é que muitos Reformados que desejam se apegar às doutrinas da graça soberana têm sido influenciados por Batistas Reformados e têm aceitado essa posição. É nossa convicção que essa incapacidade de defender a doutrina do batismo infantil está fundamentada num conceito incorreto da verdade do pacto, a saber, que o pacto é um acordo com certas condições.

Ao fazer do pacto um acordo – no qual, obviamente, as criancinhas não podem entrar – o fundamento da verdade do batismo infantil é retirado. É verdade que várias soluções têm sido propostas para esse problema, como veremos mais tarde, mas essas soluções têm provado serem insatisfatórias e sem base bíblica. Muito do debate dentro dos círculos Reformados tem se centrado nesta pergunta: qual é o fundamento para o batismo infantil? As várias respostas que têm sido dados têm levado a muita controvérsia dentro dos círculos Reformados, controvérsias que não se acalmou completamente. A dificuldade é sempre que a controvérsia tem sido continuada dentro das limitações de um pacto definido como um acordo, bilateral e condicional. E a controvérsia não será resolvida até que essas idéias sejam enterradas de uma vez por todas e a ideia bíblica do pacto seja claramente apresentada.
Mas outro problema tem atrapalhado qualquer discussão do pacto. Refiro-me ao fato que muito das obras feitas em teologia em nossos dias é centrada no homem (antropocêntrica). A teologia começa com o homem e termina com o homem. Ela preocupa-se com  o  bem-estar  e  com a  felicidade  do homem. O homem  permanece no  centro  de  todo o pensamento da  igreja, e ele se torna o objeto principal de consideração.

Embora seja certamente verdade que as Escrituras tratam com os homens, é também verdade que os homens não são a preocupação principal das Escrituras. A ênfase sobre o homem é na verdade uma forma de humanismo religioso, e tal humanismo, com todos os seus males terríveis, tem se tornado o objeto de reflexão teológica. Esse é um triste e perigoso erro. O homem não é a preocupação principal das Escrituras de forma alguma. Nem deveria ser a nossa. A ênfase da igreja sobre o homem não é a ênfase da Bíblia. As Escrituras têm a ver com Deus. As Escrituras começam com Deus e terminam com Deus. Tudo das Escrituras é a revelação de Deus e tem sua preocupação principal em Deus e sua glória. Deus é primeiro e supremo. Seja o que for que aconteça com o homem, ou seja dito do homem, isso é de importância secundária. Deus é o primeiro e o último. Todas as coisas começam com ele e terminam nele. Deus é central e transcendentalmente importante em qualquer discussão da verdade. Negamos essa ênfase principal ou ignoramos sua verdade para o nosso próprio perigo.

Quão frequentemente o apóstolo Paulo irrompeu numa poderosa e comovente doxologia de louvor, à medida que contemplava a verdade lhe revelada – uma doxologia de louvor ao Deus que é o único digno de todo louvor e glória? Após discutir, por exemplo, as grandes verdades da eleição e reprovação, especialmente como elas se aplicam aos judeus e gentios em Romanos 9-11, ele conclui tudo isso dizendo: "Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!" (vs. 33-36).

E o que é verdade de Paulo é verdade de todos os autores das Escrituras. Davi, nos Salmos, parece como se não pudesse falar muito sobre a grande glória de Deus. Tomado em êxtase com a grandeza de Deus, ele chama os céus e a terra, o mar e as estrelas, e toda essa vasta criação a se unir a ele num cântico de louvor àquele que é grande e glorioso demais para ser louvado. O livro de Apocalipse amontoa doxologia sob doxologia e hino sob hino de louvor e glória àquele que é o único digno da honra de todo o universo. De fato, o todo da Escritura pode ser chamado corretamente de um belo e glorioso hino de louvor a Deus somente.

Isso deve estar claro em nossos corações e mentes quando tentamos resolver quaisquer dos problemas que nos confrontam ou determinar a verdade da Palavra de Deus. Talvez não haja nada tão difícil para o homem pecador do que perder a si mesmo de vista e ver somente a glória de Deus. Todavia, isso é essencial. E isso é preeminentemente verdade quanto à doutrina do pacto da graça.

E assim, em nossa discussão da verdade do pacto, devemos começar com Deus e terminar com Deus. Se fizermos isso, como as Escrituras fazem, obteremos uma perspectiva inteiramente diferente sobre essa verdade, e seremos capazes de ver claramente através da confusão sobre o pacto gerado por meio dos anos. Isso nos levará à Escritura, de forma que nossa discussão poderá ser baseada nas Escrituras e nas Escrituras somente. E tal estudo mostrará que a verdade do pacto se estende por todas as Escrituras. Não é um exagero dizer que, não somente o pacto da graça corre como um fio dourado por toda a Escritura, mas ele é de fato o tema dominante da Escritura. E se essa verdade é o tema dominante da Escritura, ela é também a verdade fundamental de toda a teologia. Tem havido teólogos no passado que desenvolveram suas teologias a partir do ponto de vista do pacto. Precisamos mencionar apenas homens tais como Cocceius e Witsius. Essa abordagem, cremos, é correta e bíblica. E isso tentaremos mostrar.

Para fazer isso, trataremos a verdade do pacto, não topicamente, mas historicamente. Embora esteja além do escopo deste livro tratar com o todo das Escrituras de Gênesis à Apocalipse, e tratar toda passagem nos apresentada, seguiremos contudo as linhas amplas do desenvolvimento histórico do pacto no Antigo Testamento para mostrar como a ideia do pacto foi revelada por Deus ao seu povo naquela dispensação, e então relacioná-la à nova para mostrar como ela foi toda cumprida em Cristo. Cremos que essa abordagem histórica nos ajudará a tornar a verdade do pacto de Deus clara.

Cremos que essa abordagem histórica, juntamente com uma ênfase sobre a centralidade de Deus e sua glória, trará as grandes verdades da graça soberana e o pacto eterno de Deus à perfeita harmonia bíblica.

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FONTE: Introdução do excelente livro God’s Everlasting Covenant of Grace, Herman Hanko, Reformed Free Publishing Association, p. 1-5.
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FONTE 2: www.cprf.co.uk (Covenant Protestant Reformed Church).
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