A Interpretação das Escrituras
Tiago 1.13: “...Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta”. Esses versículos parecem uma flagrante contradição; contudo, o crente sabe que não é esse o caso, ainda que não saiba explicar o que está acontecendo. Por isso, o significado desses versículos precisa ser esclarecido. E isso não é difícil de fazer. É evidente que a palavra “tentar” não é usada com o mesmo sentido em ambas as passagens.
A palavra “tentar” possui um significado primário e um secundário. Primariamente, significa fazer uma experiência, provar, testar. Secundariamente, significa seduzir, incitar para o mal.
Sem sombra de dúvida, o termo é usado em Gênesis 22.1 no sentido primário, porque, mesmo que Deus não tenha interferido até o último momento, Abraão não cometeu pecado ao sacrificar Isaque, uma vez que foi Deus quem ordenou que o fizesse.
Quando lemos que Deus tentou Abraão nessa ocasião, não devemos entender que Deus o incitou para o mal, como Satanás o faz; antes, devemos compreender que Ele testou a lealdade do patriarca, suprindo-lhe uma oportunidade de comprovar o seu temor de Deus, sua fé nEle e seu amor a Ele.
Quando Satanás tenta, apresenta-nos uma sedução com o objetivo de provocar nossa queda; mas, quando Deus nos tenta ou testa, Ele tem como objetivo o nosso bem-estar. Toda prova é, assim, uma tentação, porque serve para manifestar aquilo que está no coração, quer seja santo, quer seja impuro.
Cristo foi “tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hebreus 4.15). A sua tentação foi real; contudo, não houve conflito dentro dEle, como acontece conosco, entre o bem e o mal. A Sua santidade inerente repeliu as ímpias sugestões de Satanás como a água repele o fogo.
Devemos considerar como motivo de grande alegria quando “cairmos em várias tentações” ou “várias provas”, uma vez que são meios de mortificar nossos apetites, testam nossa obediência e constituem oportunidades de provar a suficiência da graça de Deus. É evidente que não somos exortados a nos regozijar nas instigações para o pecado.
Outro caso: “O SENHOR está longe dos perversos” (Provérbios 15.29); contudo, em Atos 17.27, somos informados de que Deus “não está longe de cada um de nós”, palavras dirigidas a uma audiência pagã.
Essas duas afirmações parecem contraditórias — sim, a não ser que sejam interpretadas como de fato são. Temos, então, de averiguar em que sentido Deus está “longe” dos perversos; isso é o que queremos dizer com “interpretação”.
É necessário traçar uma distinção entre a presença poderosa e providencial de Deus e a Sua presença aprovadora. Quanto à Sua essência espiritual, ou onipresença, Deus está sempre próximo de todas as Suas criaturas, porque Ele “enche os céus e a terra” (Jeremias 23.24), sustentando-lhes a existência, preservando-lhes a alma com vida (Salmo 64.9) e concedendo-lhes as misericórdias do Seu cuidado.
Mas, visto que os perversos estão longe de Deus em suas afeições (Salmo 73.27), dizendo no coração: “Retira-te de nós! Não desejamos conhecer os teus caminhos” (Jó 21.14), a graciosa presença de Deus está longe deles: Ele não Se manifesta a eles, não tem comunhão com eles, não lhes ouve as orações (“os soberbos, ele os conhece de longe”, Salmo 138.6), não os socorre quando têm necessidade de socorro e ainda lhes haverá de dizer: “Apartai-vos de mim, malditos” (Mateus 25.41).
Quanto aos justos, Deus está graciosamente perto deles (Salmos 34.18; 145.18).
FONTE: A Interpretação das Escrituras — Capítulo 1, página 4 — Arthur Walkington Pink



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