Paulo, chamado para ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão  Sóstenes, à  igreja de  Deus  que  está  em  Corinto,  aos  santificados  em Cristo Jesus, chamados para serem santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: Graça seja convosco, e paz, da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Sempre dou graças a Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus; porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo o conhecimento, assim como o testemunho de Cristo foi confirmado entre vós;  de  maneira que nenhum dom vos falta, enquanto aguardais a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos confirmará até o fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor. Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que sejais concordes no falar, e que não haja dissensões entre vós; antes sejais unidos no mesmo pensamento e no mesmo parecer. Pois a respeito de vós, irmãos meus, fui informado pelos da família de Cloé que há contendas entre vós. Quero dizer com isto, que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo; ou, Eu de Apolo; ou Eu sou de Cefas; ou, Eu de Cristo. Será que Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado  por  amor  de  vós?  Ou  fostes  vós  batizados  em  nome  de Paulo? Dou graças a Deus que a nenhum de vós batizei, senão a Crispo e a Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. É verdade, batizei também a família de Estéfanas, além destes, não sei se batizei algum outro. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não  em  sabedoria de palavras,  para  não  se  tornar  vã  a  cruz  de  Cristo.  (I Corintios 1:1-17)

Quando  lemos  os  primeiros  capítulos  da  carta  aos  Corintios, encontramos uma imagem ambígua da igreja. Não poderia ser de outra maneira: o que o apóstolo descreve é a igreja real, com suas contradições e paradoxos. Há uma tensão entre o que a igreja aspira ser e o que a igreja é na realidade. Há uma distância entre o que a igreja é agora e o que chegará a ser  algum  dia.  A  igreja em Corinto não escapava desta ambigüidade, como se torna evidente desde os primeiros versículos da carta.

A saudação de Paulo: A ambivalência da igreja

Paulo, chamado para ser apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão  Sóstenes, à  igreja  de  Deus  que  está  em  Corinto,  aos  santificados  em Cristo Jesus, chamados para serem santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: Graça seja convosco, e paz, da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. (I Corintios 1:1-3)

A  carta  começa,  como  era  costume  então,  com  a  apresentação  e  a  saudação  de  quem escreve. Paulo se apresenta primeiro a si mesmo como o escritor da carta e logo apresenta e  saúda  aos  corintios, os destinatários da  carta. Finalmente, o apóstolo apresenta  sua mensagem,  resumindo  em  seu  desejo  para  os  corintios:  graça  e  paz  de  Deus  e  nosso Senhor Jesus Cristo.

Em nove das treze introduções das suas cartas, Paulo se apresenta como apóstolo de Cristo pela vontade  de  Deus  ou  por  mandamento  de  Deus.  Na  saudação  inicial  desta carta, ainda que Paulo inclua Sóstenes na sua saudação à igreja, só aplica a si mesmo o título de “apóstolo de Jesus Cristo”, enquanto que a Sóstenes o chama de irmão.

Há muita confusão na igreja atual sobre a palavra “apóstolo”. No Novo Testamento este termo é usado em três sentidos. Em somente um versículo se aplica a todos os crentes, em João 13:16, onde Jesus disse que aquele que é enviado não é maior do que quem o enviou.  A  palavra  “enviado”  é traduzida do  grego  apóstolo.  Jesus  declara  que os cristãos estão  comprometidos  com  a  missão  apostólica  da  igreja  no  mundo.  Nesse  sentido  geral, todo cristão é um apóstolo.

O segundo uso da palavra  se aplica  aos  cristãos  como  enviados  da  igreja.  Em  II Corintios  8:23 e em Filipenses 2:25, Paulo descreve  a  Epafrodito  como  seu  apóstolo  ou enviado.  Os  “apóstolos da  igreja”  no  Novo  Testamento  eram  o  que  hoje  chamamos missionários, mensageiros do evangelho enviados para uma igreja em particular com uma missão específica.

O  uso  mais  freqüente  do  termo  “apóstolo”  no  Novo  Testamento  é  no  seu  sentido restrito, aplicado aos doze apóstolos de Jesus. A este grupo reduzido se somou o apóstolo Paulo, provavelmente Tiago e talvez mais alguns. Não eram apóstolos da igreja, mas sim apóstolos de Cristo, mensageiros que Ele havia elegido e chamado.

Paulo, igualmente aos doze, recebeu este chamado de Jesus Cristo de forma direta e pessoal.  Como eles,  também  era  testemunho  da  ressurreição.  É  certo  que  não  havia conhecido  Jesus  Cristo em  sua  existência  terrena;  tão  pouco  teve  o  enorme  privilégio  de passar  esses  três  anos formativos  com  os  discípulos  de  Jesus.  No  entanto,  o  Cristo ressuscitado lhe apareceu pessoalmente; sem essa experiência da ressurreição de Cristo, Paulo não poderia ter sido um apóstolo.

Paulo se refere aos seus antecedentes como apóstolo no capítulo 9 da mesma carta aos  Corintios,  e reitera  o  mesmo  conceito  no  capítulo  15,  ao  enumerar  as  aparições  de Jesus depois da ressurreição. Em 15:8, disse: “Por último, como a um abortivo, apareceu a mim”.  Ainda  que  se trata  de  uma  aparição  peculiar  de  Cristo,  posteriormente  a  sua ascensão, Paulo reclama a validez desta circunstância para respaldar seu nome na lista dos apóstolos.

Podemos  dizer  com  toda  firmeza  que  na  atualidade  não  há  na  igreja  apóstolos  de Jesus Cristo,  porque  ninguém  teve  uma  aparição  do  Cristo  ressuscitado.  Existem  líderes, bispos, evangelistas,  pioneiros,  missionários  e  plantadores  de  igrejas  aos  quais  podemos nos referir como ministros apostólicos. É válido dar-lhes o qualificativo “apóstolo” (adjetivo), porem  não  lhes corresponde  o  título  de  “apóstolo”  (substantivo).  Há  uma  diferença fundamental entre aqueles primeiros apóstolos e qualquer mensageiro do evangelho que os tem sucedido.

A  igreja  primitiva  compreendeu  muito  bem  esta  diferença.  Quando  morreu  o  último apóstolo, a  igreja  sabia  que  se  iniciava  uma  etapa  nova,  a  era  pos-apostólica. Uma das melhores evidencias  disto  é  o  testemunho  do  bispo  Ignácio  da  Síria,  a  quem  os  eruditos localizam  ao redor  de  110  DC,  quando  já  tinham  morrido  os  apóstolos.  Ignácio  foi condenado a morte por ser cristão e ia a caminho de Roma, fazia seu martírio. Durante a travessia, escreveu uma série de cartas às igrejas, algumas das quais chegaram ate nós. Nelas Ignácio repete com freqüência este conceito: “Não lhes dou ordem ou mandamento como fizeram Pedro e Paulo, porque eu não sou apóstolo para condenar os homens”. Ainda que era bispo, Ignácio enfatizava que não era apóstolo nem tinha a mesma autoridade que eles. É de se esperar que nós entendamos este conceito com a mesma claridade.

Se  houvesse  hoje  pessoas  com  a  mesma  autoridade  que  aqueles  primeiros apóstolos, deveríamos  agregar  seus  ensinamentos  ao  novo  Testamento  e  toda  a  igreja estaria comprometida a os aceitar e obedecer. Porem ninguém tem a autoridade comparável à  dos  doze  e Paulo.  Devemos  distinguir  entre  os  apóstolos  da  igreja,  dos  quais  existem muitos ao redor do mundo hoje, e aqueles apóstolos de Cristo.

A igreja pertence ao mesmo tempo ao céu e a terra

Paulo escreve “à igreja de Deus que está em Corinto”. Quando escreve aos tessalonicenses saúda “à igreja dos tessalonicenses em Deus”. Ambas descrições são verdadeiras. A igreja vive  tanto “em Deus”  com  “no  mundo”,  ainda  que  tenha  se  tornado  muito  difícil  manter  o equilíbrio.  Houve uma  época  em  que  a  igreja  se  apartou  totalmente  do  mundo.  Com  a pretensão de estar só em Deus, se isolou em um ambiente nostálgico. Em outras ocasiões, os cristãos cometem o erro oposto e se comprometem a tal ponto com o secular que perdem a identidade única que teen de estar ou pertencer a Deus.

A  igreja  não  foi  chamada  nem  para  se  excluir  nem  para  se  assemelhar  totalmente com o mundo. Não temos liberdade para nos retirarmos do mundo, nem tão pouco para nos confundirmos com ele. Nas palavras de Jesus, devemos estar no mundo porem não sermos parte do mundo. Precisamos lembrar continuamente que a igreja pertence a dois âmbitos: ao céu e a terra.

A igreja é santa e está em processo de santificação

A igreja tem dois estados em relação com a santidade; um é atual e o outro potencial. Por um lado, os cristãos já são santos, no sentido de ter sido separado para Deus. Por outro lado, são chamados para ser santos, a desenvolver uma vida de santidade.

Neste  sentido,  a  igreja  se  parece  muito  ao  antigo  povo  de  Israel.  No  Antigo Testamento, uma e outra vez se nomeia Israel como nação santa. Era a nação escolhida por Deus. No entanto, não era uma nação de pessoas santas senão mais bem ao contrário. Por isso, Deus constantemente os instava a voltar-se a Ele e a serem santos. A igreja hoje tem a mesma ambigüidade: já é santa e, ao mesmo tempo, Deus a chama para ser santa.

A igreja invoca a Deus e é chamada por Ele

Há uma  reciprocidade  nestes  chamados,  que  poderíamos  denominar  de  “objetivo”  e “subjetivo”. Primeiro Deus nos chama para ser santos e logo nos chama a Ele para que nos faça santos. Somente quando invocamos a Deus para que Ele realmente seja Deus em nós, temos esperança de chegar a ser o que realmente devemos ser.

Podemos dizer da igreja o que John Newton dizia de si mesmo. Havia sido traficante de escravos e logo que se converteu chegou a ser pastor e escritor de hinos, um dos quais é o tão conhecido “Maravilhosa graça”. Newton dizia: “Não sou o que devo ser, não sou o que quero ser, não sou o que um dia espero ser; mas graças a Deus não sou o que fui antes, e é pela graça de Deus que sou o que sou”. Essa é a realidade do “já” mas “ainda não” na vida individual do cristão, e é a verdade da igreja também.

A  igreja  é  o  povo  santo  de  Deus,  foi  comprada  pelo  sangue  precioso  de  Cristo  e santificada pelo Espírito Santo. No entanto, Cristo ainda não apresentou diante do trono sua noiva sem manchas nem rugas. Há uma tensão inevitável entre a realidade essencial e a realidade  atual, entre o humano e  o  divino,  entre  o  “já”  e  o  “ainda  não”.  Para  manter  o equilíbrio  é  fundamental  recordar que  vivemos  entre  dois  momentos  chaves  na  história: entre  a  primeira  e  a  segunda  vinda  de Cristo.  A  história  da  igreja  transcorre  entre  o  que Cristo fez quando veio e o que fará quando vier outra vez, entre o “já” do Reino inaugurado e o “ainda não” do Reino consumado.

Esta tensão entre a igreja real e ideal se vive muito especialmente em relação com a unidade da igreja. Em um sentido, há só uma igreja, a igreja de Deus, Sua igreja universal. No  entanto,  a  igreja cristã  ainda  não  é  uma,  e  mais  bem  se  encontra  dividida.  Essa  é  a realidade, e devemos aprender a viver nela, ao mesmo tempo em que aceitamos a unidade essencial da igreja de Cristo.


Ação de graças: A identidade da igreja

Sempre dou graças a Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus; porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo o conhecimento, assim como o testemunho de Cristo foi confirmado entre vós;  de  maneira  que  nenhum  dom  vos  falta,  enquanto  aguardais a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual também vos confirmará até o fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor. (I Corintios 1:4-9) Antes de admoestar ou criticar a igreja por sua desunião, sua imoralidade, seus litígios, sua má conduta na Ceia do Senhor... Paulo da graças por eles, com toda sinceridade, porque sabe que Deus está operando neles.

É sempre melhor ressaltar o positivo antes do negativo, e dar graças pelo bom antes de começar a corrigir ou criticar. Paulo da graças tanto pelo que a igreja já é como pelo que um dia chegará a ser; dá graças as Deus pela graça presente e também pela glória futura da igreja. O  apóstolo  harmoniza a  ambigüidade  da  igreja  porque  sua  perspectiva  combina passado, presente e futuro dos crentes.

O passado se expressa na graça que foi dada aos corintios em Cristo Jesus. Por Ele foram enriquecidos  em  toda  palavra  e  conhecimento,  tanto  para  a  salvação  como  para  o serviço. O “conhecimento” (gnosis) é neste caso o conhecimento recebido pela iluminação divina.  Em  outras palavras,  os  corintios  crentes  tinham  sido  capacitados  para  conhecer  a Deus por meio de Cristo. Também foram enriquecidos em toda “palavra” (logos), termo que alude a comunicação dessa revelação.

O presente se reflexa no versículo sete, quando o apóstolo declara que aos crentes não lhes falta nenhum carisma ou dom. Posto que foram enriquecidos em tudo, agora não lhes  falta  nada.  Isto não  quer  dizer  que  todos  os  cristãos  têm  os  dons;  mais  adiante,  no capítulo 12, o apóstolo explica que o Espírito Santo é quem distribui os dons a cada crente na  congregação.  Cada  igreja local  pode  ter  a  certeza  de  que  tem  recebido  tudo  o  que precisa.

Finalmente Paulo se move até o futuro. Essa igreja que foi enriquecida e à qual não falta nada está, no entanto, esperando ansiosamente a vinda de Cristo. Ainda que a igreja em  Corinto  havia  sido enriquecida  em  tudo,  estava  muito  longe  de  ser  perfeita,  como qualquer leitor da carta poderia se dar conta. Por isso Paulo vê o futuro, quando Cristo a confirmará definitivamente e a apresentará irrepreensível ante Deus.

Não há contradição entre esses três aspectos da identidade da igreja. Foi enriquecida no  passado, não  lhe  falta  no  presente  nenhum  dom  espiritual,  e  no  entanto  espera  sua perfeição final. Paulo conclui no versículo nove com uma declaração maravilhosa: Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor. (I Corintios 1:9)

Deus  nos  chamou  (passado  aoristo  no  grego)  para  ter  comunhão  com  Seu  Filho  Jesus Cristo. Nossa  experiência  presente  como  cristão  é  que,  dia  a  dia,  podemos  viver  em comunhão  com Jesus  Cristo.  Deus  é  fiel  e  por  Sua  fidelidade  podemos  ter  confiança  no futuro. Ele manterá suas promessas. A  identidade  da  igreja  se  encontra  nessa  tensão  entre  o  passado,  o  presente  e o futuro. Mantenhamos essa perspectiva, e demos graças a Deus porque o que somos, e o que seremos, o devemos a Sua graça e fidelidade.

A apelação de Paulo: Unidade da igreja

Rogo-vos,  irmãos,  em  nome  de  nosso  Senhor  Jesus  Cristo,  que  sejais concordes no falar, e que não haja dissensões entre vós; antes sejais unidos no mesmo pensamento e no mesmo parecer. Pois a respeito de vós, irmãos meus,  fui  informado  pelos  da  família  de  Cloé  que  há  contendas  entre vós. Quero dizer com isto, que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo; ou, Eu de Apolo; ou Eu sou de Cefas; ou, Eu de Cristo. Será que Cristo está dividido? Foi Paulo  crucificado  por  amor  de  vós?  Ou  fostes  vós  batizados  em  nome  de Paulo? Dou graças a Deus que a nenhum de vós batizei, senão a Crispo e a Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. É verdade, batizei também a família de Estéfanas, além destes, não sei se batizei algum outro. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não  em  sabedoria  de  palavras,  para  não  se tornar  vã  a  cruz  de  Cristo.  (I Corintios 1:10-17)

Depois da ação de graças, Paulo faz aos corintios uma apelação comovedora. Depois de agradecer a Deus  pelo  enriquecimento  dos  corintios  em  Cristo,  lhes  faz  um  chamado urgente, por causa da dolorosa divisão que há entre eles. Acaba de lhes escrever sobre sua comunhão e agora tem que os exortar pela sua falta de comunhão. Contudo, Paulo segue se dirigindo a eles como irmãos e irmãs. Quiçá o faz de propósito, para os lembrar que pertencem à família de Deus e que com seu comportamento, em alguma medida estão contradizendo sua identidade.

Paulo apela em nome de Cristo

No versículo dez, a palavra em grego significa literalmente que Paulo apela a eles através do  nome de Jesus  Cristo.  Paulo  não  estava  só  declarando  sua  autoridade  apostólica  ou falando  em nome de  Jesus  Cristo.  Os  exortava  no  único  nome  que  todos  os  cristãos invocam e no qual todos foram batizados. Essa era a base para sua apelação.

Paulo apela à unidade

Em um só versículo,  existem  várias  expressões  que  reforçam  a  apelação  do  apóstolo  à unidade. O  último  verbo  que  usa  é  muito  interessante.  Em  grego  é  o  verbo  catarizo, que fazia alusão a remendar ossos quebrados ou rede de pescar. É um verbo que denota a ação de reparar algo quebrado. No caso dos corintios, é a comunhão que tinha sido quebrada e Paulo sabe que eles a irão reparar.

Paulo apela diante da desunião

Tinham falado a Paulo sobre as discussões e divisões que havia entre os corintios. Este é o único dado que Paulo tem a respeito da situação. O versículo doze explica em que consiste o problema. No grego, a expressão que se traduz “sou de“ indica uma aliança ou pertencer a alguém.  Os  membros da  igreja  estavam  declarando  sua  aliança  ou  lealdade  a  diferentes apóstolos. Parece  ainda  que uma  destas  facções  reclamava  uma  união  particular  e  exclusiva com  Cristo.  Alguns comentaristas  têm  interpretado  que  esta  única  frase,  “eu  pertenço  a Cristo”, é um recurso retórico de Paulo para causar impacto. Mas as quatro expressões são idênticas  em  sua  estrutura gramatical  e  mais  bem  parece  indicar  que  este  quarto  grupo reclamava  uma  união  especial com  Cristo,  talvez  porque  eram  os  que  O  haviam  visto ou ouvido pessoalmente. Sugere-se  que entre  estes  grupos  havia  distintas  teologias  em  competição.  Na realidade, no texto não há nenhuma evidência deles. A divisão parece dever-se mais bem a personalidades em conflito do que a princípios ou correntes doutrinárias diferentes. Paulo se sente profundamente afetado por esse conflito e insiste com os corintios que ele é irmão deles assim como eles o são dele. Ele não é um mestre nem eles o pertencem e, portanto, eles não têm nenhum direito de fazer estas alianças que os dividem entre si. Ao  final  do  capítulo  3  da  mesma  carta,  Paulo  afirma  que  se  alguém pertence a alguém na igreja cristã, são os líderes quem pertencem a igreja, e não esta aos líderes.

Paulo apela ao essencial

Há  um  matiz  de  urgência  na  apelação  de  Paulo,  e  com  razão.  A  atitude  partidarista  ou separatista dos corintios tem implicações muito sérias. Esses desacordos, disse Paulo, são teologicamente  ofensivos  porque  contradizem  os  fundamentos  do  evangelho  em  três sentidos: contradizem a pessoa de Cristo, a cruz de Cristo e o significado do batismo em Cristo. Em outras palavras, Cristo era quem ficava ofendido e negado por todos os grupos. Paulo  mostra  que  essa conduta  é  inaceitável  por  meio  de  três  perguntas  retóricas, cada uma das quais se responde negativamente. Acaso está Cristo dividido? É sua primeira pergunta. Acaso há mais de um Cristo? Acaso fracionaram Cristo? Logicamente que não. Seria uma idéia ridícula. Existe um só Cristo, indivisível. A  segunda  pergunta  retórica  do  apóstolo  é:  Foi  Paulo  crucificado  por  vocês?  Em outras palavras, acaso vocês estão confiando em Paulo e sua crucificação para ser salvos? Aqueles que declaram pertencerem a Paulo estão supondo que ele é quem os redimiu. Só a idéia era absurda. Cristo, não Paulo, é quem foi crucificado por eles. E em terceiro lugar, acaso foram batizados no nome de Paulo? Há alguma razão para ter uma aliança especial com algum ser humano por causa do batismo?

Com  esta  argumentação,  Paulo  enuncia  três  verdades  essenciais  do  evangelho.  A primeira é que Cristo é um só e indivisível: há só um Cristo, há só uma cabeça do corpo de Cristo.  A  segunda verdade  é  que  Cristo  foi  crucificado  por  nós  e  como  conseqüência pertencemos só a Ele. A terceira afirmação tem relação com o batismo cristão. O batismo é testemunho de nossa aliança com Cristo e de nossa exclusiva lealdade a Ele. Paulo desenvolve o conceito do batismo com toda claridade em Romanos 6. Fomos batizados na morte e ressurreição de Cristo; a fé é “interna” e o batismo é a demonstração “externa” de que estamos unidos a Cristo em Sua morte e ressurreição. Em outras palavras, Sua morte é nossa morte e Sua ressurreição é nossa. Todos nós somos batizados em Cristo e só nEle. Paulo  sustenta  que,  com  sua  atitude  sectária,  os  corintios  negavam  as verdades essenciais  do  evangelho  porque  davam  a  líderes  humanos  a  posição  que  só  Cristo  tem. Sacrificavam  o  nome  de  Cristo,  em  cuja  morte  e  ressurreição  haviam  sido  batizados,  em troca pelo nome de um ser humano que só os havia batizado fisicamente. O apóstolo se mostra  agradecido de  não  haver  batizado  a  nenhum  deles,  salvo  a Crispo,  a  Gaio,  e  a  família  de  Estéfanas. Ninguém  mais  poderia  dizer  que  havia  sido batizado em seu nome.

O que Paulo enfatiza é que não tem importância alguma quem é o que batiza. O que realmente importa é em quem somos batizados: em Cristo mesmo. Obviamente, Paulo não diminui a importância do batismo. Sabe que foi instituído por Jesus e que é parte integral da Grande Comissão. Como se depreende de  Romanos  6,  o  apóstolo  tinha  uma  percepção profunda do batismo. Quanto a sua tarefa, Paulo se define como evangelista. É um pioneiro, chamado por Deus para levar a mensagem aos lugares onde ainda não havia sido pregado. Paulo afirma que sua pregação não foi com palavras de sabedoria humana “para não fazer vã a cruz de Cristo”. Descobrimos aqui uma dobre renuncia por parte do apóstolo. Renunciou à sabedoria do mundo para pregar a “loucura” da cruz. Ademais Paulo renunciou à retórica e confiou só no poder do Espírito Santo.

O que fazer com as diferenças?

Há uma tensão iniludível entre o que a igreja é e o que deve ser, entre o que a igreja já é e o que  chegará a ser.  Vivemos esta tensão em nossas congregações, tal  como  ocorria  na igreja em Corinto. A situação é especialmente evidente na desunião entre cristãos. Sem duvida há uma só igreja de Cristo, mas não mostramos e nem desfrutamos dessa unidade. A igreja é um povo santo de Deus, comprada pelo precioso sangue de Cristo e santificada pelo Espírito Santo.  No  entanto,  a  realidade  ambígua  da  igreja  é  um  desafio  para  que  busquemos santidade e procuremos unidade em torno da essência do evangelho da cruz de Cristo. Quando  há  diferenças  sobre  temas  teológicos  sérios, o Novo Testamento não só permite como ordena  a  separação  da  igreja.  Em  sua  carta,  o  apóstolo  João expõe com claridade as doutrinas que não devem ser toleradas dentro da igreja: aquelas que negam a humanidade de Jesus Cristo ou negam ao evangelho da graça gratuita por meio da cruz. Quem as sustenta merecem uma maldição ou juízo de Deus. Com a mesma severidade se expressa Paulo na carta aos Gálatas. As falsas doutrinas sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo  de  nenhuma maneira podem ser aceitas. Sobre estes assuntos deve aplicar-se a disciplina na igreja, até a excomunhão, porque são verdades centrais do evangelho. Em compensação, o que devemos fazer sobre os assuntos que são secundários, mas causam divisão? Há muitos temas que nos dividem. Ainda que todos creiamos no Pai, no Filho e no Espírito Santo, entramos em pleitos por muitos temas: a quantidade de água que se necessita para batizar alguém, a interpretação das profecias, porque cremos que certas profecias foram ou irão ser cumpridas. Até nos dividimos por questões culturais em relação a liturgia. Todos cremos nos dons, cremos que a igreja é o corpo carismático de Cristo e cremos nos ministérios de todos os crentes. No entanto, discutimos sobre quais são os dons mais importantes e como são recebidos.

Há inumeráveis polemicas sobre assuntos secundários. Como diferenciamos o primário do secundário, o central e o marginal? Sugiro uma norma que pode ajudar quando queremos dialogar entre cristãos bíblicos, isto  é,  entre  cristãos  que  consideram  a  Bíblia  como  máxima  autoridade. Se estivermos igualmente dispostos a submeter-nos à autoridade das Escrituras e chegarmos a decisões diferentes sobre um tema, então devemos concluir que esse é um assunto secundário. Se as escrituras  não  são  claras  para  nos  levar  a  uma  conclusão  única,  significa  que  esse assunto não é  central  ao  evangelho  e  que  sobre  esse  tema  devemos  aceitar  e  respeitar nossas diferenças. Estes  são  temas  aos  quais  chamamos de adiáfora,  isto  é, assuntos que não são essenciais senão marginais. Um breve epigrama que vem do século XVII, e que se adjudica a Ruperto Meldinius, é de muita ajuda neste terreno. Traduzido do latim, expressa:

No essencial, unidade.
No que não é essencial, liberdade.
Em todas as coisas, caridade.

Não tem dúvida de que a igreja pode ser uma comunidade mais harmoniosa e uma esfera mais feliz se nos esforçarmos por viver com este critério. Não deveríamos brigar por assuntos doutrinais secundários. Muito menos brigar por zelos, por ambição ou por questões de personalidade, como ocorreu na igreja em Corinto e ocorre hoje em muitos lugares. Pergunto-me que aconteceria com as divisões eclesiásticas se  pudéssemos  pensar  sobre  isto  de  maneira  honesta.  Muitas  das  nossas divisões respondem mais a diferenças culturais que teológicas. Outras, mais a temperamentos que a princípios  doutrinários.  E  muitas  são  causadas  por  ambições  pessoais  mais  do  que  por ambição em Cristo. Examinemos  nossas  motivações.  Tenhamos  cuidado,  ao  pregar  e  batizar,  de não estimular às pessoas a se sentirem mais leal a nós do que ao Senhor. Isto era o que havia horrorizado  Paulo. Substituir o nome de Cristo pelo nosso próprio nome é contradizer o evangelho. O apóstolo culmina o capítulo 1 com um chamado à humildade. Pede que ninguém se jacte em outros seres humanos e muito menos em si mesmo: “O que se gloria, glorie-se no Senhor” (1:31). Esse é o essencial. Que  nosso  anelo  seja  estar  cada  vez  mais  centrados  em  Jesus  Cristo,  tanto  em
nossa doutrina como em nossa vida.

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FONTE: Livro, "SINAIS DE UMA IGREJA VIVA" - JOHN STOTT
Reforma Radical

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