GRAÇA JUSTA | HORATIUS BONAR

23:49

Temos falado do caráter de Deus como “o Deus de toda graça”. Temos visto que é ao “provar que o Senhor é gracioso” que o pecador encontra paz.

Mas tenhamos em mente que essa graça é a graça de um Deus justo; é a graça daquele que é Juiz tanto quanto Pai. A menos que vejamos isso, compreenderemos mal o evangelho e deixaremos de apreciar tanto o perdão que buscamos quanto o grande sacrifício por meio do qual ele nos chega. Nenhum perdão vago, surgido de um mero amor paternal, servirá. Precisamos saber que tipo de perdão ele é; e se procede do pleno reconhecimento de nossa absoluta culpa por parte daquele que há de “julgar o mundo com justiça”. O tipo correto de perdão não procede apenas do amor, mas também da lei; não da mera bondade natural, mas da justiça; não da indiferença para com o pecado, mas da santidade.

O inquiridor que é apenas meio sincero não percebe isso. Seus sentimentos são movidos, mas sua consciência não é despertada. Por isso, contenta-se com ideias muito vagas da mera compaixão de Deus pela infelicidade do pecador. Para ele, a culpa humana parece pouco mais que um infortúnio humano, e a absolvição do pecador por Deus pouco mais que um simples ignorar de seu pecado. Ele não se preocupa em perguntar como o perdão vem, nem qual é a verdadeira natureza do amor que professa ter recebido. É facilmente embalado ao sono, porque nunca esteve plenamente desperto. É, na melhor das hipóteses, um ouvinte de solo pedregoso; logo perde a pequena medida de alegria que possa ter obtido; torna-se um formalista; ou talvez alguém que trata o pecado com leviandade; ou ainda, um sentimentalista religioso.

Mas aquele cuja consciência foi traspassada não se satisfaz tão facilmente. Ele vê que o Deus cujo favor procura é santo tanto quanto amoroso; e que ele tem de lidar com justiça tanto quanto com graça. Por isso, a primeira investigação que faz é acerca da justiça do perdão que a graça de Deus oferece. Ele precisa estar satisfeito quanto a esse ponto e ver que a graça é uma graça justa antes de poder desfrutá-la plenamente. Quanto mais consciente estiver de sua própria injustiça, mais sentirá a necessidade de certificar-se da justiça da graça que lhe anunciamos.

Não o satisfaz dizer que, visto que ela procede de um Deus justo, deve necessariamente ser uma graça justa. Sua consciência deseja ver a justiça do caminho pelo qual ela vem. Sem isso, ela não pode ser apaziguada nem “purificada”; e o homem não é tornado “perfeito quanto à consciência”; mas sempre terá um sentimento inquietante de que algo não está certo; de que seus pecados poderão um dia levantar-se contra ele.

Aquilo que acalma o coração nem sempre apazigua a consciência. A visão da graça fará o primeiro; mas somente a visão da justiça dessa graça fará o segundo. Até que isto aconteça, não pode haver verdadeira paz. A ferida é curada superficialmente, e fala-se de paz onde não há paz. A cura da ferida só pode ser efetuada quando se anuncia paz onde há paz.

É aqui que entra a obra de Cristo; e a cruz do Portador do pecado responde à pergunta que a consciência levantou: — “É uma graça justa?” É essa grande obra de propiciação que apresenta Deus como “o Deus justo e Salvador”; não apenas justo apesar de justificar o ímpio, mas justo ao fazê-lo. Ela mostra a salvação como um ato de justiça; mais ainda, como um dos mais elevados atos de justiça que um Deus justo pode realizar. Ela apresenta o perdão não apenas como a ação de um Deus justo, mas como aquilo que demonstra quão justo Ele é e quanto odeia e condena o próprio pecado que está perdoando.

Ouça a Palavra do Senhor acerca dessa obra “consumada”. “Cristo morreu por nossos pecados.” “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, moído por causa das nossas iniquidades.” “Cristo foi oferecido uma vez para levar os pecados de muitos.” “Ele entregou a si mesmo por nós.” “Foi entregue por causa das nossas ofensas.” “Entregou a si mesmo por nossos pecados.” “Cristo morreu pelos ímpios.” “Manifestou-se para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.” “Cristo padeceu por nós na carne.” “Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos.” “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro.”

Essas expressões falam de algo mais do que amor. O amor está presente em cada uma delas; o profundo, verdadeiro e real amor de Deus; mas também a justiça e a santidade; a firme e inexorável adesão à lei. Elas não têm significado algum à parte da lei; da lei como fundamento, coluna e pedra angular do universo.

Mas sua ligação com a lei é também sua ligação com o amor. Pois, assim como foi a lei, em sua perfeição imutável, que constituiu a necessidade da morte do Fiador, também foi essa necessidade que despertou o amor do Fiador e deu igualmente uma gloriosa prova do amor daquele que o fez pecado por nós. Porque, se um homem morresse por outro quando não houvesse necessidade de fazê-lo, dificilmente chamaríamos sua morte de prova de amor. No máximo, seria um amor insensato ou, pelo menos, uma maneira sentimental e inútil de demonstrá-lo. Mas morrer por alguém quando realmente há necessidade de morrer é a verdadeira prova do amor genuíno. Morrer por um amigo quando nada menos do que isso pode salvá-lo — eis a prova do amor! Quando ou ele ou nós devemos morrer; e quando ele, para nos livrar da morte, morre em nosso lugar, isso é amor.

Havia necessidade de uma morte, se devíamos ser salvos da morte. A justiça criou essa necessidade. E, para atender a essa terrível necessidade, o Filho de Deus assumiu a carne e morreu! Morreu porque estava escrito: “A alma que pecar, essa morrerá.” O amor o conduziu ao berço; o amor o conduziu à cruz! Ele morreu como substituto do pecador. Morreu para tornar justo da parte de Deus cancelar a culpa do pecador e anular a pena de sua morte eterna.

Se não fosse por essa morte, a graça e a culpa não poderiam olhar uma para a outra; Deus e o pecador não poderiam aproximar-se; a justiça teria proibido a reconciliação; e a justiça, sabemos, é algo tão divino e real quanto o amor. Sem essa expiação, não teria sido justo que Deus recebesse o pecador, nem seguro para o pecador aproximar-se.

Mas agora a misericórdia e a verdade se encontraram; agora a graça é justiça, e a justiça é graça. Isso satisfaz a consciência do pecador, mostrando-lhe um amor justo para com o injusto e indigno de amor. Diz-lhe também que a reconciliação realizada dessa maneira jamais será desfeita, nem nesta vida nem na que há de vir. É uma reconciliação justa e resistirá a toda prova, assim como durará por toda a eternidade. A paz de consciência assim assegurada resistirá às provações, à enfermidade, ao leito de morte e ao juízo. Compreendendo isso, o principal dos pecadores pode dizer: “Quem é que condena?”

Que paz para a consciência aflita há na verdade de que Cristo morreu pelos ímpios; e de que é dos ímpios que o Deus justo é o Justificador! A graça justa que nos chega por meio da obra expiatória daquele que é o “Verbo feito carne” declara à alma, de uma vez por todas, que não pode haver condenação para qualquer pecador na terra que apenas consinta em ser devedor desse livre amor de Deus, o qual, como uma fonte de águas vivas, jorra livremente aos pés da Cruz.

Justo, e ao mesmo tempo Justificador do ímpio! Que boas-novas há aqui! Aqui está a graça: o livre amor de Deus para com o pecador; a bondade e a benevolência divinas, totalmente independentes de qualquer valor ou mérito humano. Pois esse é o significado bíblico daquela palavra tão frequentemente mal compreendida: “graça”.

Esse amor livre e justo tem sua origem no seio do Pai, onde habita o Unigênito. Não é produzido por nada fora do próprio Deus. Foi o mal do homem, e não o seu bem, que o fez manifestar-se. Não foi a atração do semelhante pelo semelhante, mas do diferente pelo diferente; foi a luz atraída pelas trevas, e a vida pela morte. Ele não espera que o busquemos; vem sem ser solicitado, assim como sem ser merecido.

Não é a nossa fé que o cria ou o faz surgir; nossa fé apenas o reconhece como já existente em sua plenitude divina e multiforme. Quer creiamos nele ou não, essa graça justa existe, e existe para nós. A incredulidade a rejeita; mas a fé a recebe, alegra-se nela e vive dela.

Sim, a fé recebe essa graça justa de Deus e, com ela, um perdão justo, uma salvação justa e um direito justo à herança da glória eterna.

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Horatius Bonar (1808–1889)

Trecho de God's Way of Peace — Capítulo 4: "Righteous Grace" ("Graça Justa").

Traduzido do original em inglês.
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